O 'espaço da memória'

Contra a cultura do esquecimento e de seus efeitos, a informação histórica; novo dossiê eleva para 426 o número de vítimas da ditadura militar dentro e fora do País

Márcio Seligmann-Silva, ENSAÍSTA E PROFESSOR DE TEORIA LITERÁRIA, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2009 | 23h59

Poucos livros têm a capacidade de nos deixar abalados e sem voz. O Dossiê Ditadura: Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil (1964-1985) mostra o que um livro é capaz de provocar. Esse dossiê, o mais completo até hoje sobre o tema, contém a lista de 426 mortos e desaparecidos por perseguição política na ditadura civil-militar brasileira, com informações inéditas e vários novos nomes de vítimas daquele regime e de suas conexões com as ditaduras argentina e chilena Operação Condor. Além disso, possui inúmeros dados sobre a batalha de familiares em busca da memória e da verdade, que se dispuseram a lutar contra a política de esquecimento tanto dos comprometidos com a ditadura como de políticos e de potentes facções da nossa sociedade que, desde 1985, têm tentado barrar a reconstrução dos fatos terríveis que aconteceram neste país.

Em primeiro lugar esse livro é um verdadeiro "espaço de memória": ele permite fazer uma homenagem àqueles que sacrificaram suas vidas por uma causa. As fotos que acompanham as biografias são um documento pungente do novo significado que as fotografias assumiram na América Latina - continente pontuado por ditaduras violentas durante as quais as fotos muitas vezes se tornaram o único documento que comprovava a existência dos mortos e desaparecidos. São imagens-presença de desaparecidos, imagens-corpo de indivíduos que tiveram seus corpos sequestrados, violentados e ocultados.

O regime de exceção, sobretudo a partir de 1973, ao apagar os rastros de seus crimes, procurou dissimular e esconder a barbárie. Essas fotos são provas que, ao lado das biografias, tentam restituir a vida de pessoas cujas famílias perderam o direito ao habeas-corpus na ditadura. Dando uma vida e uma face aos desaparecidos, esse dossiê permite a construção de uma memória viva e ativa. É imprescindível que essas biografias e fotos sejam estampadas em livros de ensino médio para que as novas gerações criem uma consciência cívica e aprendam a valorizar a democracia.

Nessas biografias sentimos soprar o vento das utopias e da força de renovação da sociedade, que eram encarnadas por essas pessoas, na sua maioria jovens de vinte e poucos anos. A obra permite reativar os sonhos de uma geração que, inocentemente ou não, tentou erradicar a injustiça pela luta e autossacrifício.

Esse livro também vai contra uma cultura do esquecimento, típica do Brasil, que com o mito do homem cordial procura negar a violência atávica de nossas instituições, notória desde a era colonial, com a dizimação dos índios e escravidão dos afrodescendentes. Essa tradição do esquecimento foi selada, com relação à barbárie da última ditadura, por um modelo de anistia imposto em 1979 pelos mesmos que procuravam acobertar os crimes por eles cometidos. Tratou-se então da usurpação de um projeto das oposições que visavam a uma autêntica anistia, que permitiria o retorno dos exilados e a soltura dos prisioneiros políticos.

Por outro lado, a memória da violência sofrida pela resistência política a partir de 1964 também foi como que colocada em uma redoma de esquecimento pelas próprias esquerdas. Estas ficaram emudecidas com a queda do Muro e a revisão crítica de seus sonhos de juventude de certo modo impediu o trabalho de memória daqueles anos de chumbo no Brasil. Mas isso não ocorreu assim na Argentina e em outros países da América Latina, o que merece uma boa reflexão aqui entre nós.

Esse dossiê tem vários papéis a cumprir e devemos dar a ele toda a importância que merece. Ele também é um chamado pela verdade e pela justiça. Mais do que nunca é hora de abrir os últimos arquivos da ditadura e esclarecer a história de cada corpo enterrado em valas comuns. Mais que nunca é necessário completar o dossiê com outros detalhes sobre o que ocorreu nos bastidores na ditadura. O trabalho de memória, parte essencial na construção de toda sociedade democrática, só é possível e será autêntico se crimes como os ocorridos naquela época forem devidamente esclarecidos e exemplarmente julgados.

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