O espírito de Anchieta

Na quinta-feira, o papa Francisco assinou um decreto proclamando santo o jesuíta espanhol José de Anchieta, mais de 400 anos após sua morte. Cofundador da cidade de São Paulo, o missionário foi canonizado mesmo sem os dois milagres geralmente necessários.

LUCIANO RAMOS, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2014 | 02h09

Durante a primeira década que se seguiu à fundação do Colégio de Piratininga, ocorrida quando ele tinha apenas 20 anos, o irmão Anchieta permaneceu em São Paulo como único professor. Apoiado pela convivência com os curumins, em seis meses já dominava o idioma tupi. Em menos de dois anos, tinha elaborado a Gramática da língua mais usada na costa do Brasil, trabalho indispensável para facilitar o contato mental com os nativos que só seria impresso em Coimbra em 1595, depois de décadas de uso. Desenvolveu também um método de catequese no qual os instrumentos de transmissão do Evangelho eram criados a partir da própria cultura indígena. A ideia era despertar nos índios a vontade de aprender a nova fé sem que fosse preciso impô-la à força.

Qualquer marujo da época era capaz de manter uma conversa corriqueira com os nativos. Mas só conhecendo em profundidade sua língua seria possível redigir textos complexos, como poemas, canções e peças teatrais, que fossem cativantes para eles. Graças a essa habilidade em manejar as palavras, mais tarde ele obteve vitórias no campo da diplomacia e conseguiu pôr em prática o projeto original de Manuel da Nóbrega de catequizar os guaranis que ocupavam o centro do continente sul americano. Isso só ocorreria entre 1577 e 1588, quando Anchieta foi o provincial dos jesuítas no Brasil. Em 1586, após a união entre as coroas de Portugal e Espanha, a expedição do general espanhol Diogo Flores Valdez conduziu cinco missionários jesuítas para o Rio da Prata. O fato permitiu que surgissem e se desenvolvessem as missões entre os guaranis, que dariam origem aos Sete Povos das Missões.

O ponto inicial desse espinhoso processo de aproximação com as autoridades espanholas fora a chegada da Armada espanhola ao Rio de Janeiro em 1582, quando o general Valdez ancorou 16 navios com 3 mil soldados, dos quais mais de 200 desembarcaram doentes. Em função disso, foi fundado no Rio o Hospital da Misericórdia, atual Santa Casa da cidade, em cujo saguão há uma estátua de Anchieta. Essa articulação diplomática abriu a região situada entre os Rios Uruguai, Paraná e Paraguai à Companhia de Jesus. De fato, os jesuítas construíram uma verdadeira nação guarani e cristã no centro do continente, com meio milhão de habitantes - o que colaborou para o atual traçado das fronteiras oeste do nosso país. Autor da primeira biografia de Anchieta publicada em 1672, o padre Simão de Vasconcelos nos traz as palavras que Valdez teria usado para relatar a impressão que lhe causara a figura do padre José: "Na primeira vez que eu o vi, nunca coisa mais desprezível se me representou, mas, ouvindo-o e tornando a olhar para ele, nunca em presença de alguma majestade me senti mais apoucado e reverente".

Depois de 1594, enquanto servia como provincial no Espírito Santo, Anchieta pôde praticar plenamente seu talento de artista e comunicador. Para atender à diversidade étnica das plateias, redigiu peças teatrais em tupi, português, latim e espanhol. Acreditava que a mistura de línguas acabaria acontecendo na mente dos espectadores. Com isso eles aprenderiam mais facilmente o significado do que falam os demais e passariam a viver mais em harmonia.

Escrito em português e em espanhol, o Auto da Vila de Vitória foi apresentado em setembro de 1595, no pátio em frente à antiga Igreja de São Tiago, atualmente uma praça diante da Secretaria de Educação do Estado do Espírito Santo. A mais longa e elaborada de todas as que escreveu, a peça é cheia de humor e críticas à situação política e aos maus costumes da sociedade. Seu texto comentava aspectos da realidade então vivida, como os males da seca, com surpreendente atualidade: "Si falta lluvia en la tierra / y se pierde lo plantado / es porque el pueblo y senado / hacen a Dios continua guerra /con las armas del pecado".

Seus espetáculos teatrais destinavam-se a agradar e, por meio disso, ensinar marinheiros, militares, índios, escravos africanos, mestiços, portugueses e espanhóis, ricos ou pobres, educados ou analfabetos. Por esse motivo, Anchieta via-se estimulado a praticar a polissemia, ou seja, a atribuir diversos significados para um mesmo símbolo. Nesse auto, por exemplo, o personagem Ingratidão significa um defeito psicológico e, ao mesmo tempo, a personificação de todos os demônios - figuras que, aliás, os indígenas temiam e identificavam facilmente. Historicamente, a Ingratidão também se personifica nos gentios que não aceitavam a conversão, ou nos reformistas, como Lutero e Calvino.

Dotadas de intenção moral e educativa, essas composições destinavam-se ao lazer dos fiéis e também serviam para Anchieta comunicar seus pensamentos e pontos de vista. Ele oferecia às plateias o que consistia ao mesmo tempo num ensinamento amplo, condensado e prazeroso. Uma experiência de prazer grupal em que a plateia era repreendida, criticada e orientada, mas com muito maior satisfação do que se estivesse numa sala de aula ou num sermão.

À inteligência do padre Anchieta certamente não escapava o fato de que na missa, e em muitos outros rituais religiosos, também se representa um drama. O próprio teatro surgira na Grécia Antiga em meio a festas em homenagem aos deuses. De modo geral, o formato e a estrutura das peças que Anchieta criava tinham relação com antigas tradições medievais. Difundidas por outros missionários, elas ficaram profundamente inscritas na memória popular brasileira, deixando até hoje seus traços de estilo no folclore de várias regiões do País.

  LUCIANO RAMOS É SOCIÓLOGO, JORNALISTA. AUTOR DE JOSÉ DE ANCHIETA - POETA , E APÓSTOLO (PAULINAS)

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