Dylan Martinez/Reuters
Dylan Martinez/Reuters

'O estado geral é ótimo'

Final surpreendente levanta incômodas dúvidas sobre o que de fato ocorreu no diagnóstico e operação de tireoide de Cristina Kirchner

SYLVINA WALGER,

15 de janeiro de 2012 | 03h11

"A cirurgia da presidente foi realizada sem nenhum inconveniente nem complicações", anunciou o porta-voz da Casa Rosada, Alfredo Scoccimarro. As centenas de militantes que tinham permanecido em vigília pela internação de Cristina Kirchner gritaram de alegria em frente à entrada do Hospital Universitário Austral, propriedade da Opus Dei, em Pilar, 45 quilômetros ao norte de Buenos Aires.

Parecia que as organizações mais ativas ligadas ao governo, La Cámpora (cujo diretor é Máximo, o filho mais velho da presidente) ou o Movimento Evita, tinham recebido ordem de acompanhar a operação e a convalescença com uma mobilização mostrando que a presidente é insubstituível. Iniciativas não faltaram. Por exemplo, uma convocatória da Juventude Peronista de Vicente López (um dos municípios ao longo da rodovia que leva a Pilar) para que os argentinos se dirigissem a alguns hospitais e até a uma maternidade para dar "o sangue para Cristina", uma adaptação patética da palavra de ordem montonera dos anos 70 "a vida por Perón".

No sábado, dia 7, depois de três dias de internação para a cirurgia da tireoide, Cristina Kirchner voltou à residência de Olivos e surpreendeu a todos com uma boa notícia: o exame histopatológico da glândula extraída indicara que não havia câncer, como havia afirmado o exame inicial.

O "carcinoma papilar", que deu a volta ao mundo, despertou as teorias conspiratórias de Hugo Chávez, inspirou mensagens de solidariedade de inúmeros chefes de Estado, especulações sucessórias, telões gigantescos oferecidos pelo Instituto de Cinematografia era, na realidade e por sorte da paciente, uma coleção de "adenomas foliculares".

Do lado de fora, o lacônico Scoccimarro informou que a presidente se encontrava num "ótimo estado geral" e, ao contrário da punção realizada há duas semanas, os últimos exames haviam excluído a existência de células cancerígenas. Foi apenas constatada em ambos os lóbulos da glândula a presença de nódulos denominados "adenomas foliculares".

Os médicos acrescentaram que, dados os resultados, daqui em diante a presidente terá de realizar controles mínimos. A evolução da cicatriz precisará ser monitorada e em vez de doses de iodo radioativo (uma medida preventiva indispensável para os casos em que são detectadas células malignas), ela terá de tomar levotiroxina diariamente, por toda a vida. A medicação supre os hormônios produzidos pela tireoide, extirpada na cirurgia.

A partir daí a história se torna rocambolesca, não só por comprovar que a Unidade Médica Presidencial (UMP) não está à altura da função, tendo jogado com a saúde da presidente, como por refletir melhor que qualquer coisa a essência da visão kirchnerista de vida, incluindo a maneira de governar.

O que caracteriza essa família provinciana oriunda do extremo mais austral e gélido do país é o rigoroso culto ao sigilo, a permanente desconfiança de tudo e de todos que não sejam cegamente leais, um profundo desprezo por tudo que tenha a ver com as regras do jogo democrático e a institucionalidade do país e o círculo cada dia mais restrito no qual a presidente se apoia, que inclui principalmente seus filhos.

A essa lista de carências podemos acrescentar o desprezo (quando não ódio) da presidente pelo jornalismo independente e a absoluta proibição de perguntas numa coletiva, a não ser que venham de alguns dos seus jornalistas assalariados, sempre prontos a garantir uma reportagem mais "equilibrada". Seu outro hobby, para chamar de algum nome, é a manipulação de dados do Instituto Nacional de Estatística e Censo, Indec, para que os argentinos não estejam a par da inflação que, há muito tempo, ronda os dois dígitos.

O vice-presidente, Amado Boudou, atualmente a cargo da presidência, está proibido de entrar na Casa Rosada. Por ora ele se encontra confinado em um escritório do primeiro andar do Banco Nación, cedido por gentileza do vice-presidente da entidade (o presidente se negou a ceder o seu).

O lugar tem uma vantagem: da janela, Boudou pode contemplar a Casa Rosada, um troféu que, por enquanto, pode olhar, mas não tocar. É que o vice em exercício da presidência teve de ir com sua música para outro lugar (ele é músico de rock) porque não há lugar para os vices na Rua Balcarce, 50 (o endereço da Casa Rosada) desde o afastamento de Julio Cobos, em 2008, por votar contra ela durante o conflito agrário.

Entre as qualidades presidenciais não se encontra a amabilidade. As relações dos membros da equipe de governo com a presidente se baseiam no medo: medo das grosserias em público, medo de serem afastados, medo de serem simplesmente demitidos. Os funcionários e até os baderneiros dirigentes sindicais da CGT têm verdadeiro terror da Señora Kirchner, como tinham de seu falecido marido. Ninguém ousa abrir a boca diante dela e muito menos aconselhá-la.

Daí a surpresa dos argentinos quando, no dia 27 de dezembro, foi divulgado o anúncio oficial de que a presidente seria submetida a uma operação para a retirada da tireoide, na qual fora detectado um tumor maligno, segundo os exames, ainda sem metástase. Em oito anos, foi a primeira vez que algo do que se informava coincidia com a realidade. A explicação da doença foi clara e transparente, uma coisa inédita nesse círculo que vive obcecado com crimes de "lesa-humanidade" ocorridos há mais de 30 anos, mas não com o presente. Um presente que ignora o significado da palavra transparência.

Finalmente, o país pôde conhecer a verdade sobre o suposto câncer presidencial graças ao trabalho investigativo de Nelson Castro, jornalista, neurologista e uma das vozes mais respeitadas do país.

Este é seu relato.

No dia 22 de dezembro, a presidente se dirigiu a um famoso centro médico para fazer uma ecografia da tireoide, por ter sido detectado clinicamente um nódulo no lóbulo direito da glândula. Confirmado o diagnóstico, foi realizada uma biópsia por punção. Os médicos chegaram então ao diagnóstico de um tumor "compatível com carcinoma papilar". Imediatamente a equipe médica sugeriu a necessidade de realizar uma tomografia para descartar uma possível metástase. O exame foi feito na terça-feira, 27, e o resultado foi negativo.

Já com esse resultado, a operação foi marcada para 4 de janeiro, e diante do medo de que houvesse vazamento, a UMP sugeriu que o diagnóstico fosse divulgado ao público, o que teve aprovação da presidente.

Nas 48 horas seguintes, uma médica da equipe de Pedro Saco (o especialista que operou), a doutora Melisa Lencioni, citologista do hospital, examinou a amostra de tecido sobre a qual foi feito o diagnóstico. A essa altura, a especialista manifestou dissidência, afirmando que não teria sido tão enfática em rotular o diagnóstico como carcinoma papilar. Ela teria usado o termo neoplasia, para deixar aberta a possibilidade de que o processo pudesse não ser maligno.

No sábado, com o informe sobre a alta médica da Señora foi divulgada a surpreendente alteração do diagnóstico. Os médicos do Hospital Austral duvidaram antes da operação que a presidente tivesse câncer e, após a cirurgia, quiseram dar explicações, mas a Unidade Médica Presidencial, aterrorizada pela possibilidade de que a presidente viesse a suspeitar de que tivessem tido contato com a imprensa, os impediu.

A polêmica explodiu mais rapidamente que o previsto. Quando a presidente leu os jornais de domingo, a primeira coisa que fez foi irritar-se profundamente com a imprensa. Imediatamente ordenou ao doutor Buonomo (diretor da UMP e antigo diretor de cirurgia do hospital de Rio Gallegos, capital da Província de Santa Cruz) que divulgasse o informe histoanatomopatológico de 22 de dezembro.

Os rumores indicavam que, na realidade, a Señora fora internada para uma cirurgia estética total ou pretextara uma doença para calar os comentários sobre os US$ 2 milhões que custou seu luxuoso apartamento em Puerto Madero.

Para o doutor Nelson Castro, em síntese, o caso "não foi devidamente tratado do ponto de vista médico". Na sua opinião, "os médicos que viram os primeiros exames são competentes, experientes, mas são clínicos gerais, não são especializados em tireoide. O caso exigia um diagnóstico mais preciso".

Castro acrescentou que a UMP "não tem condições de tratar do problema médico da presidente. Trabalha sob o signo do medo e assim não se pode trabalhar", insistiu. "Eles são proibidos de falar disso e daquilo. Na sala operatória havia 15 pessoas. Seria possível que a coisa não transpirasse?"

Como se não bastasse, o médico e jornalista observou que "também é uma falha que em nenhum laudo médico constem as assinaturas dos profissionais. Elas constam em qualquer país do mundo". Também não apareceu em nenhum laudo médico que a biópsia tivesse permitido determinar que se tratasse de um tumor "compatível" com um carcinoma. A palavra "compatível" jamais foi escrita ou pronunciada. Os argentinos foram informados graças à investigação do doutor Castro. Por esse motivo, "essa questão não pode ser tratada à maneira kirchnerista em que parece estar sendo difundida uma verdade revelada".

"Poderá a chefe de Estado retomar sua rotina antes do tempo?", pergunta Castro. "A presidente não tem a tireoide e agora precisa ajustar a medicação, o que não é tão simples. Seria bom que ela tirasse três semanas de licença", opinou, com seu conhecimento médico. "Está parecendo que ela não teve nada. Não é bem assim: ela agora não tem mais a tireoide", afirmou, categórico.

* SYLVINA WALGER É SOCIÓLOGA, AUTORA DE PIZZA COM CHAMPANHE, SOBRE O GOVERNO MENEM, E DA BIOGRAFIA CRISTINA, DE LEGISLADORA COMBATIVA A PRESIDENTA FASHION

Tudo o que sabemos sobre:
Cristina KirchnerAliás

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.