O estilhaçar das Farc

Com a morte de seus líderes e as ofensivas do Exército, a guerrilha colombiana não se sustenta. Segundo especialistas, conversas de rendição começam até 2010. Alfredo Rangel Diretor da Fundação Segurança e Democracia

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2008 | 23h59

O comando do Exército da Colômbia apresentou à população uma sorridente e revigorada Ingrid Betancourt, ex-candidata à presidência do país, além de 14 reféns que estavam em poder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc. O orgulho pela libertação dos cativos era evidente. A própria Ingrid descreveu a operação como "perfeita". O presidente colombiano Álvaro Uribe, sem dúvida, colhe uma vitória política que deve pavimentar seu caminho para o terceiro mandato. Mas a libertação desses reféns significa mesmo a derrota da guerrilha colombiana? "O enfraquecimento das Farc é irreversível e as conversas de paz devem ocorrer até 2010", afirma Alfredo Rangel, ex-assessor para segurança nacional de Ernesto Samper (1994-1998) e do Ministério da Defesa de Andrés Pastrana (1998-2002). "O mérito é todo de Uribe."Economista, cientista político e diretor da Fundação Segurança e Democracia, Rangel está tão convencido do êxito do presidente que banca uma aposta: Ingrid não tentará se eleger agora se Uribe for candidato. "Ela se tornou uma líder no país, mas deve tentar um cargo no futuro."No plano internacional, o colombiano contraria as especulações das últimas horas. Não acredita que tenha sido grande a participação dos americanos na operação militar que levou ao resgate. Chega a dizer que a concepção e a execução da Operação Xeque "foram praticamente 100% do Exército colombiano". A injeção de dinheiro dos Estados Unidos, no setor militar colombiano, deve continuar. "Os EUA sabem que essa fase é definitiva para o fim do conflito armado no país", afirmou em entrevista ao Aliás, de Bogotá.Qual é o futuro das Farc depois do resgate de Ingrid Betancourt?A desagregação das Farc vai continuar. A liderança de Alfonso Cano não se consolidará e mais infiltrações no médio e alto comando da guerrilha vão acontecer. O enfraquecimento das Farc é irreversível. O número de combatentes vai diminuir, as operações do grupo já estão debilitadas e as comunicações, falhas. Isso cria um problema de controle muito grande. Além disso, a guerrilha está desmoralizada e o tempo correndo contra ela. Os comandantes terão que se definir rapidamente quanto a um acordo de paz com o governo colombiano. As conversações devem acontecer até no máximo 2010.A sociedade colombiana está mobilizada contra as Farc ou ainda há setores favoráveis à guerrilha?Há uma rejeição às Farc quase absoluta na Colômbia. 98% da população repudia a guerrilha. Prova disso foram as manifestações espontâneas de 4 de fevereiro deste ano, quando multidões tomaram as ruas de várias cidades para protestar contra as Farc. Nada disso foi orquestrado pelo governo ou por algum partido.Qual foi a participação dos Estados Unidos nessa operação?O resgate foi 99% colombiano. Se houve participação americana foi com uma consultoria muito específica, um treinamento sobre como realizar algum detalhe. Mas a concepção e a execução da operação foram totalmente colombianas.Qual é o impacto do enfraquecimento das Farc nas relações entre EUA e Colômbia?As relações continuarão sendo de muita cooperação. A ajuda financeira dos EUA não deve diminuir no curto prazo, porque os americanos entendem que esta é uma fase final. Mas ela é definitiva na solução do conflito armado colombiano. O governo da Colômbia convenceu o Congresso americano a manter a injeção de recursos para consolidar a recuperação da segurança nacional.A operação de resgate virou espetáculo na mídia. Isso abre as portas para o terceiro mandato de Uribe?A operação não foi espetacularizada. Foi realmente espetacular. As principais testemunhas disso são os próprios reféns. Eles falaram sobre como o resgate foi limpo, extraordinário e perfeito. Não se sabe se a surpresa foi maior nos seqüestrados ou nos seqüestradores. Um resgate rápido, eficaz e surpreendente como esse não tem precedentes na história militar mundial recente. Somada ao sucesso da política de segurança de Uribe, a operação torna sua reeleição para um terceiro mandato muito provável. Ele terá de fazer uma reforma constitucional, o que é possível por meio de um referendo popular.Quando Ingrid Betancourt foi seqüestrada, ela era uma figura política sem muita força no cenário colombiano. Tinha 2% das intenções de voto naquela eleição presidencial. E agora?Ingrid ganhou maturidade política nesse processo e a demonstrou na libertação. Ela se tornou uma líder inquestionável para o futuro da democracia colombiana. Sua força moral é enorme e ela será uma figura de relevância no futuro. Mas no curto prazo, apesar das especulações de que ela tentará ser presidente agora, tudo vai depender do referendo que aprovará ou não o terceiro mandato de Uribe. Se for aprovado e Uribe realmente se candidatar, não há páreo para ele em nenhum setor político. Se ele não tentar se reeleger, Ingrid tem chances - mas somente se fizer alianças com setores do "uribismo".Como ficam as relações entre Colômbia, Equador e Venezuela com o fortalecimento de Uribe?Na medida em que as Farc se enfraquecem, as tensões sobre a insegurança nas fronteiras entre os países diminuem automaticamente. É importante ressaltar o discurso de Hugo Chávez, pedindo que as Farc abandonem a luta armada. Essa fala terá forte impacto, inclusive nos países vizinhos que apóiam as Farc ideologicamente.A sociedade colombiana ficou mais engajada na política do país?A redução da violência e a recuperação da segurança são os grandes temas políticos da Colômbia e criam interesse de enormes setores da população colombiana. Isso tem se manifestado num aumento da participação eleitoral nos últimos pleitos. Certamente, o tema político continuará sendo esse por algum tempo, até que se solucione o problema e se conquiste a paz definitiva.

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