O Eu e o Outro

O que leva pessoas a deixar o conforto para atender vítimas de um vírus letal?

Mauro Aranha-Lima, O Estado de S. Paulo

09 Agosto 2014 | 16h28

Os mortos pelo vírus Ebola aproximam-se de mil e a Organização Mundial da Saúde já declarou o presente surto uma “ameaça sanitária internacional”, o que poderia implicar medidas mais eficazes de isolamento da população infectada, tais como fechamento de fronteiras dos países atingidos em face das outras regiões do continente africano e restrição contundente das conexões aeroportuárias com o restante do mundo.

De uma forma ou de outra, isolar vítimas de doenças infectocontagiosas graves sempre foi, na história do mundo, mais que uma decisão apenas das autoridades sanitárias; foi, sobretudo, a tendência espontânea e intuitiva a mover pessoas sãs para além do círculo potencialmente fatal onde imperem os eflúvios, concretos ou imaginários, dos portadores de contaminação, morbidade ou morte. Boccaccio retrata essa realidade no século 14: sete mulheres e três homens, em dez dias, reúnem-se no campo, nos arredores das cidades toscanas, para fugir à peste bubônica que, à época, dizimava os citadinos; distraíam-se uns aos outros evocando narrativas que, em seu conjunto, compõem o Decameron, o início da novela ocidental. 

De lá para cá, deu-se o que Weber designou como o “desencantamento do mundo”, em que o pensamento e valores enraizados em uma cosmologia e determinação divinas dão lugar ao enfoque secular dos acontecimentos terrenos - visão que ganhou impulso exponencial na razão iluminista, no desenvolvimento tecnológico e científico e nos interesses mercantis da razão instrumental.

Na peste, médicos levavam serviço e conforto aos doentes condenados à morte. Eles próprios, mesmo com especiarias e perfumes na ponta das máscaras, à guisa de filtrar os miasmas da doença, contaminavam-se e morriam. Àquela época, ainda, Deus imperava na consciência dos homens. E, assim, morrer pelo outro poderia significar remissão de culpas, direito e mérito ao paraíso. Mas hoje que “Deus está morto”, conforme vociferou Nietzsche, me pergunto: o que leva médicos do século 21, com capas e máscaras, a emigrar de suas casas confortáveis, em países desenvolvidos, para cuidar de doentes anônimos, vitimados por um vírus tão imprevisível quanto letal como o Ebola, ante expectativas de cura tão desproporcionalmente menores que o risco de morte? Insensatez, insanidade, desprendimento, autodestrutividade elevada ao suicídio? 

Nós, humanos, temos a consciência de ter consciência. Vale dizer, somos dois: um, o que vive, e o outro, o que reflete sobre o viver. O que vive tem desejos, pulsões e indizíveis razões de sorrir, chorar, esperar, desesperar. O outro procura decifrar as razões que fazem inclinar suas ações para uma ou outra direção. A vida, por seu turno, impõe-nos as próprias razões. Freud apontava o conflito inevitável entre o princípio do prazer e o princípio da realidade. Ora, quantos prazeres podemos ter na vida! Todavia, a sequência e intensidade dos prazeres não nos são suficientes. Não nos sentimos serenos. Mas há que se dizer não só de nossas pulsões de vida. Há outras, que Freud chamava “pulsões de morte”. Entenda-se morte como símbolo. E os símbolos “dão o que pensar”, conforme dizia Ricoeur.

Inspirar, depois expirar. Tocar, depois copular. Copular, depois descansar. Ter, depois dar. Dizer, depois silenciar. Nenhum dos polos da ação se perpetua. Vida e morte pautam a harmonia serena dos contrastes que não se encontram num intermédio comum, cuja figura final viria a ser o círculo perfeito, em que não é mais preciso buscar. Quando já não lutamos por questiúnculas agora descartáveis. E temos os olhos determinados num horizonte em que já não seremos apenas nós mesmos e nossas pequenas inquietações. O círculo é a fusão final de vida e morte, em que a morte é a morte do eu para ser o início do encontro em que estaremos presentes, mas já não seremos os mesmos, e também não mais e não menos que outrem. Aqui falo não do outro que refletia sobre o que vivia e não conseguia ser para mais além disso. Falo do homem maduro, não importa sua idade cronológica. Falo do homem aberto para o outro homem, para a dádiva simples e terna ao homem tão precário quanto eu. 

Se esse eu é um artista, ele mais contempla do que pinta. Se esse eu é um harpista, ele não mais dedilha o som, ele é o som que sempre esteve fora do instrumento, ao seu redor, sem o saber. Se é um médico ou um enfermeiro ou um missionário, não cura o corpo ou o espírito de outrem, porque outrem não é mais somente um conjunto de sintomas a serem corrigidos. Ele cuida de outrem, totalidade única e irredutível a partes ou mesmo a generalizações. Acolhe a inteireza do sofrimento de outrem, pacifica-o com a própria paz, torna-se agora definitivamente outro. Nunca mais recuará ao que fora. E morrer para si é, ainda, apenas uma metáfora, talvez.

Os aparelhos burocráticos a afastarem médicos de pacientes. Os interesses mesquinhos, ocultos e traiçoeiros de uma indústria que fatura com a doença alheia. As práticas de prolongamento da vida sem a consciência e o usufruto mesmo da vida, atrelados aos aparelhos sofisticados de hospitais que miram o lucro sem fim. Se o médico realmente se deixa tocar pela alteridade que sofre, recusa tudo quanto o afasta de outrem. Deixa-se interpelar. Sua ciência, seus olhos, suas mãos, tudo nele agora toca o verdadeiramente outro. Ele se tornou outrem. Daí a morrer, pouco importa. Se morrer é apenas metáfora, e ele se tornou um novo homem, muito bem, isso é bom. Se para isso concretamente morrer, não é porque buscasse o suicídio. O suicídio finaliza a desesperança total. Ele não se sente desesperar. Para ele, agora tudo é possível e não lhe dói esperar.

MAURO ARANHA-LIMA É PSIQUIATRA, MESTRE EM MEDICINA E FILOSOFIA E VICE-PRESIDENTE DO CREMESP

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