Marcos de Paula/Estadão
Marcos de Paula/Estadão

O fantasma da dor e a dor fantasma

Hoje somos induzidos a calar sobre nossa infelicidade e a alheia

Leandro Karnal , O Estado de S. Paulo

20 Dezembro 2014 | 16h00


Um católico fervoroso das Filipinas se submete a um estranho ritual na Sexta da Paixão: permite ser crucificado, em pleno século 21. Os turistas do Primeiro Mundo registram com interesse antropológico essa cena no “Coração das Trevas” de um arquipélago asiático. Na cabeça de muitos ocorre certo elo de causalidade entre o atraso econômico daquele país e o ritual. Permitir dor seria parte do conjunto do ser subdesenvolvido. Seriam os analgésicos a base da civilização? 

A ascensão dos valores ditos “modernos” incluiu a rejeição do sofrimento. A dor só poderia existir, e ainda marginalmente, em jogos sexuais mutuamente consentidos. Flagelar-se tornou-se campo patológico. A imagem de Jesus crucificado, reforçada a dramaticidade com manchas vermelhas e feridas expostas, incomoda hoje. Somos mais “sensíveis”. Espetáculos teatrais de dor, tão comuns no Antigo Regime (torturas públicas, execuções), viram escândalos. O Estado Islâmico sabe do impacto no Ocidente ao degolar ao vivo um ser humano. Importante notar que essa nova sensibilidade asséptica e indolor conviveu, em pleno século 20, com genocídios inimagináveis para o Medievo. 

Os analgésicos são um tema quase de diretos humanos hoje. A dor foi desnaturalizada. A primeira grande guerra imperialista inglesa do século 19 foi em nome do ópio, uma droga e analgésico. A enfermagem contemporânea nasceu nos campos de batalha da Crimeia e de Solferino. Matamos mais do que nunca e em escala inédita, mas lá estava a solícita Florence Nightingale para amenizar a dor dos soldados, ao menos dos nossos. 

É uma contradição. Gêngis Khan ficaria corado em Auschwitz. Nós ficaríamos horrorizados com a naturalidade com que a dor era imposta nos tempos do grão-mogol. Somos mais sensíveis do que nunca e matamos mais do que nunca. Situação complexa entre o que aspiramos e idealizamos e o que somos. 

Luciano Huck cometeu um deslize verbal. Falar muito em público implica risco constante. Às vezes ocorre uma ideia sem nexo ou simplesmente fora do aceitável. Falar muito (e sendo observado por milhões) é um imenso desafio. É preciso muito controle racional para emitir apenas flores verbais corretas e socialmente louváveis. O problema é que nenhum apresentador é selecionado pelo controle cartesiano da fala. Nenhum homem de mídia está onde está pela análise acurada de textos fundamentais dos direitos humanos. Outros fatores pesam mais. 

Luciano disse a uma atleta de corpo imobilizado que isso seria bom, porque a tatuagem não doeria. O deslize, reduzido ao absurdo, seria como elogiar alguém de pé amputado por não ter mais calos. Pior: “Que bom que você é cego, pois economizará em óculos de grau na velhice”. 

Não é fácil dominar os códigos contemporâneos. Sabe o leitor que o verbo judiar é um deslize imperdoável? Que a palavra homossexualismo não pode ser dita por associação com doença? Que ninguém no Brasil é preto? E há os eufemismos, como “plus size” ou “melhor idade”. 

Velho ou gordo ficaram inadmissíveis, mas, curiosamente, melhor idade parece ser um esforço enorme de tinta na remodelagem do preconceito. Funciona como a folha de gesso que o pudor católico colocou sobre a genitália da estátua grega: ao invés de esconder, o branco do gesso atrai a atenção sobre o tom rebaixado do mármore. É um holofote, mais do que um véu. Funciona como o careca que usa peruca: ao tentar disfarçar, torna insuportavelmente magnética a cabeça. Não conseguimos desviar o olhar! As perucas são buracos negros dos quais nem a luz escapa. 

Nossa sensibilidade à dor aumentou tanto que inclui a física e a psicológica. Achamos horrível, em era de redes sociais, sofrer. Felicidade é um mandamento e nossas vidas devem ser iluminadas por muitos selfies estúpidos. Somos felizes, ao menos para fins de cálculo. O sorriso no Facebook funciona como a peruca do careca. 

Hoje devemos calar sobre nossa infelicidade e sobre a dor alheia. Quanto mais desenvolvido o país, aparentemente, maior o grau de politicamente correto. Alguém exibe uma cicatriz, um doença cutânea ou uma amputação? O código exige um silêncio total. Nada de perguntas ou olhares fixos. O silêncio artificial é, curiosamente, o sinal claro de que notamos muito e bem, que estamos desconfortáveis, mas que o mundo exige nossa discrição. O código mistura vitorianismo hipócrita e linguagem contemporânea. Talvez tenhamos raiva desses códigos. Essa raiva é sempre transferida para quem não o cumpre. 

Nos grandes centros do século 21, Quasímodo, o Corcunda de Notre Dame, poderia entrar e pedir seu chá gelado com serena tranquilidade, sem medo de ser remetido para a torre. Mas o ideal de beleza é, hoje, mais forte do que na sua época. O corcunda seria muito mais notado, mas receberia mais sorrisos de atendentes: “Em que posso ajudá-lo?”. 

Sim, a linguagem fere. Não é correto atacar alguém com uma palavra carregada de preconceito. Essas dores marcam na escola e na vida adulta. Seria melhor que Luciano Huck não tivesse dito o que disse. Não foi, exatamente, preconceito, mas um deslize verbal. Há uma reação excessiva ao ato. Isso mostra que ele entrou num campo minado, onde muitos estão se controlando. Para evitar nossa dor, vivemos indicando a alheia. Ninguém quer sofrer e, por isso, ao menos, o sofrimento do outro era um consolo escasso e possível e agora nem podemos declará-lo. Como dizia Schopenhauer, o único consolo da ovelha insípida é quando o lobo come a do lado. Poupada para seguir sua vidinha, ela obtém um efêmero habeas corpus. Não sendo nem paraplégico nem apresentador de televisão, eu sorrio: posso continuar pastando a graminha gostosa do politicamente correto. 


LEANDRO KARNAL É HISTORIADOR E PROFESSOR DE HISTÓRIA CULTURAL DA UNICAMP

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