O fantasma de Pinochet

Memória do ditador pode ter feito Bachelet demorar a recorrer a militares contra saques. Não precisava

Carlos Huneeus, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2010 | 01h19

A recusa da presidente Michelle Bachelet durante longas 24 horas em recorrer aos militares para deter os saques e pilhagens que ocorriam na cidade de Concepción, a segunda do país e a mais afetada pelo terremoto de 27 de outubro, foi um erro que é preciso explicar no contexto de duas questões distintas, vinculadas entre si.

Por um lado, o peso da memória histórica do regime autoritário do general Augusto Pinochet (1973-1990), que associa os militares à dura repressão do período. No entanto, a paralisia de Bachelet é difícil de entender porque ela já trabalhou estreitamente com os militares quando foi ministra da Defesa durante o governo do presidente Lagos (2000-2006), tendo sido a primeira mulher no Chile e na América Latina a dirigir esse ministério. Ela tomou decisões que buscaram a aproximação de civis e militares, ajudando a superar divisões decorrentes da ditadura.

Mais ainda, a popularidade de Bachelet, inesperadamente impelida à liderança nacional, está associada a uma ação com os militares, quando, no inverno de 2002, ela foi num blindado militar a uma zona popular de Santiago atingida por pesado temporal para controlar a ajuda que os militares davam às vítimas. Isso foi amplamente difundido pelos meios de comunicação, que a colocaram aos olhos de milhões de chilenos como uma pessoa com futuro, o que foi confirmado por sua eleição para a presidência três anos depois.

Por outro lado, há a relação ambígua dos políticos com a opinião pública e os dados de pesquisas de opinião. Os dirigentes, a começar pela presidente, os parlamentares governistas e os presidentes de partidos, se preocuparam em conhecer a popularidade do governo, da presidente e a intenção de voto nos partidos, sem olhar outros aspectos da opinião pública, sem ver interesses importantes dos cidadãos. Um deles era o forte aumento, desde os anos 90, da confiança nos militares - como instituição e como atores -, com porcentagens de confiança superiores a 40%, e o desabamento da confiança no Congresso, nos partidos e nos políticos para em torno de 15%. As sondagens do Centro de Estudos da Realidade Contemporânea (Cerc) o mostraram, com nossa série de tempo iniciada antes do restabelecimento da democracia. Essa alta confiança nos militares não era expressão de uma nostalgia do regime miliar, mas da maior capacidade do povo chileno que de alguns dirigentes de esquerda de superar os traumas do passado.

Os saques não ocorreram apenas contra comércios locais, especialmente supermercados de alimentos, mas afetaram também as pessoas vitimadas que viram seus objetos pessoais - televisores, aparelhos de cozinha, etc. -, à vista pelo desmoronamento de suas casas, serem arrebatados por inescrupulosos que se aproveitavam da desgraça alheia. Foi essa situação dramática que, ao gerar um clima de insegurança na população, a levou a exigir um rápido e enérgico restabelecimento da segurança pública e explica a simpatia que os militares encontraram na população quando começaram a patrulhar os bairros a partir da tarde de domingo, 28. As pessoas não viam os uniformizados como soldados de Pinochet, mas antes aplaudiam o restabelecimento da segurança pública, um bem indispensável para toda democracia. Anteriormente, a prefeita de Concepción, militante da União Democrática Independente (UDI), partido surgido durante o regime autoritário, que o apoiou, havia solicitado a ação dos militares.

O Chile tem uma base geológica que provoca grandes movimentos telúricos como nenhum outro país do mundo. Tremores danificaram localidades praticamente em cada governo no século 20, inclusive no de Bachelet, em Tocopilla, uma localidade no norte do país. Os terremotos ocorreram em várias ocasiões e houve pilhagens em cada um deles. Foram eles o de 1906, que destruiu Valparaíso, o principal porto do país, o de Chillán, em 1939, o de Valdivia, em 1960, e o de 1985, de menor envergadura, que afetou Santiago.

Há um fator adicional, único na história dos terremotos chilenos: este último ocorreu quando um governo que chegava ao fim se preparava para entregar o poder e não reagiu com a rapidez de uma administração que começa ou está na metade do caminho, como ocorreu nos outros casos. O de Chillán o governo da Frente Popular do presidente Pedro Aguirre Cerda (1938-1941) enfrentou com grande decisão, impulsionando uma reconstrução que abarcou uma ambiciosa estratégia de industrialização com a criação da Corporação de Fomento da Produção (Corfo) em 1939, provocando uma mudança da matriz de crescimento econômico do país. Dois presidentes do partido governista, o radical, foram eleitos depois.

A reconstrução da zona afetada pelo terremoto exigirá mudanças profundas na modernização do país, que serão impulsionadas por um governo de direita do presidente Sebastián Piñera (2010-2014). Ela terá consequências de médio e longo prazo no desenvolvimento econômico e político do Chile, que incluirão, entre outras, a relação normal entre civis e militares que define uma democracia madura, como é o caso do Chile. TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

Diretor executivo do Centro de Estudos da Realidade Contemporânea (Cerc) e professor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade do Chile

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