O fascínio ancestral da neve

Olimpíada de Inverno desperta o desejo de voltar a ser natureza, de recuperar instintos há muito perdidos

Hans Ulrich Gumbrecht*, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2010 | 00h56

SKI CROSS ESTILO LIVRE - No universo radical do frio, o preço de desafiar a improbabilidade atlética é a ameaça implacável do fracasso dramático

 

Não há nenhum lugar no planeta, é evidente, que escape à mudança das estações, e, em termos meramente geográficos, a distribuição deve ser igual entre os lugares em que o verão e o calor predominam e naqueles dominados pelo inverno e pelo frio. Mas, embora esse fato da natureza seja banal em si, pode nos surpreender, porque contrasta com o fato cultural de que são muito poucas as zonas moderadamente populosas na Terra nas quais o inverno é experimentado como a condição mais fundamental em termos existenciais.

Quase todos os seres humanos consideram caminhar ou nadar as formas mais normais de se mover no espaço, enquanto deslizar na neve e no gelo parece algo excêntrico. Aquelas regiões raras e bastante circunscritas em que a vida humana no frio é mais do que uma condição excepcional têm sido, pelo menos nos últimos séculos, os Alpes, a Escandinávia e algumas reduzidas regiões do norte da Rússia e da América do Norte.

Foi nelas que surgiram os esportes de inverno, e ali, na tentativa de dar continuidade e expansão a algumas tradições escandinavas locais, se realizaram os primeiros Jogos Olímpicos de Inverno: em Chamonix (França), em 1924, em Saint Moritz (Suíça), em 1928, em Lake Placid (no norte do Estado de Nova York), em 1932, em Garmisch-Partenkirchen (Alemanha), em 1936, novamente em Saint Moritz, em 1948, e em Oslo (Noruega), em 1952. Patinação de velocidade, patinação artística, luge (trenó) e diferentes variedades de hóquei no gelo há muito tempo eram praticados em todos esses lugares; esqui cross-country (de fundo) e salto de esqui eram especialidades escandinavas, enquanto as competições de bob-racing (originalmente um passatempo de jovens ricos) e esqui downhill (que passou a fazer parte das Olimpíadas somente em 1936) já eram muito praticados nos Alpes e na América do Norte.

Na primeira metade do século 20 houve até alegações filosóficas, principalmente da Itália fascista e da Alemanha fascista, de uma específica proximidade existencial que supostamente faria com que os esportes de inverno estivessem inseparavelmente arraigados no solo de diferentes "pátrias". Não por acaso, o esqui era a forma favorita de exercício físico para Martin Heidegger.

Mas ninguém refletiu sobre a complexa e fascinante história dos esportes de inverno e das Olimpíadas de Inverno depois da metade do século passado, embora nessa história devam basear-se as respostas concretas a todas as nossas perguntas sobre o possível futuro desses espetáculos, particularmente sobre seu futuro além dos confins geográficos originais. Como hoje seria possível, do ponto de vista técnico (embora a custos enormes), organizar Olimpíadas de Inverno em praticamente qualquer lugar do planeta, também em décadas mais recentes começaram a surgir, em países sem tradição em esportes de inverno, atletas que participam dos Jogos de Inverno .

Tudo começou com Eddie, a Águia, um inglês saltador de esqui, pateticamente desprovido de experiência e de aparência, que teve a coragem de participar dessa modalidade extremamente difícil. Sucedeu-lhe (pelo menos "em espírito") a famosa e, é claro, sempre malsucedida, "Equipe de bobsled da Jamaica". Finalmente, em 2010, como que de repente, a patinação de velocidade, um dos gêneros mais clássicos de esportes de inverno, está sendo absolutamente dominada por atletas sul-coreanos e por seus técnicos, cujas inovações modificaram de maneira profunda tanto a prática do esporte quanto a competição.

Ao mesmo tempo, há novos eventos (em geral, englobados no conceito de "esportes de diversão"), como o esqui estilo livre ou o half-pipe snowboarding (numa pista com forma de U), que parecem exercer um apelo irresistível entre adolescentes no mundo inteiro - o que pode explicar por que, pela primeira vez, alguns dos países que praticam tradicionalmente esportes de inverno aparentemente estão perdendo o predomínio. Sem dúvida, esse é um sintoma de enorme importância. Pois, se, até 1989, os países socialistas da Europa Oriental deixavam de forma sistemática os militares programar e produzir medalhas olímpicas (as disciplinas de biatlo são um remanescente dessa tendência histórica), o avanço mais notável ocorreu do lado capitalista: foi a transformação dos esportes de inverno num grande empreendimento turístico internacional. Esquiadores amadores, praticantes de snowboard ou patinadores de vários países, inclusive os que não têm neve ou gelo naturais, tornaram-se um novo mercado e, portanto, representaram uma nova possibilidade para os praticantes de esportes de inverno se tornarem profissionais, pelo menos os de mais alto nível.

Depois de algumas décadas, o gosto dos filhos e dos netos dessa primeira geração está transformando a estética dos esportes de inverno. Considerando a realidade econômica atual, em breve a classe média abastada do Brasil terá acesso e impulsionará um desenvolvimento drástico nos resorts para esportes de inverno já existentes nos Andes.

A excentricidade tradicionalmente "caseira" dos esportes de inverno está se transformando na excentricidade de um espetáculo gerador de ampla cobertura da mídia. Nesse sentido, seu status não é diferente do vôlei de praia e sua popularidade em países que não têm praias. Quanto ao aspecto formal da estética dos esportes de inverno, penso que seu denominador comum, o fato de deslizar (sobre a neve ou o gelo) em lugar de caminhar ou pisar no chão, exige um grau particularmente elevado de coordenação corporal e uma ênfase inaudita no ritmo dos movimentos.

Nunca tive uma impressão mais poderosa de harmonia do que a produzida pelas lentas e repetidas mudanças de ritmo dos atletas da patinação de velocidade quando surgem das curvas, aceleram nos trechos curtos, e entram na próxima curva em sua faixa de competição; nunca achei um movimento corporal mais improvável do que o do patinador artístico quando toca o solo com segurança depois de um salto quádruplo, ou mesmo quíntuplo; não conheço fusão maior entre a paisagem e o homem do que a do esquiador que se lança morro abaixo; e para mim não há maior nem mais impressionante improbabilidade atlética do que a do voo esticado de um saltador de esqui (ou de um atleta de half-pipe snowboard). Mais ainda do que em grande parte dos esportes de verão, assistir a esses eventos desperta em mim o desejo impossível de voltar a ser novamente natureza, de recuperar certos instintos há muito perdidos e formas de movimento em sincronia com nosso ambiente físico. O preço dessa beleza fascinante - mais frequentemente o êxtase da beleza do que o poder arrebatador do sublime - está na ameaça de um fracasso dramático: quando sobre patins, esquis ou prancha, não deslizar perfeitamente, perder o ritmo, atingir um obstáculo significa cair, muitas vezes a velocidades perigosas, espatifar-se, como um avião que perde o controle, com consequências mortais.

Não há dúvida de que, quanto mais completamente nossa vida cotidiana for absorvida pela aborrecida fusão entre computador e consciência, tanto maior se tornará nosso desejo de existir como poesia física. Os brasileiros não seriam o que sempre desejaram ser se resistissem a essa tentação. TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*Professor de literatura na Universidade de Stanford e autor de Elogio da Beleza Atlética (Cia. das Letras)

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