O fim da mentira piedosa

Os negros diziam aos filhos que poderiam ser o que quisessem, até presidente. Já podem parar de mentir

Michael Eric Dyson*, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2008 | 17h41

Há mais de meio século, Langston Hughes captou a divisão debilitante dos destinos de crianças negras e brancas em seu poema Children Rhymes (Versos infantis): By what sends/the white kids/I ain?t sent: I know I can?t be President (numa tradução livre: Aonde as crianças brancas vão, eu não vou. Sei então que não posso ser presidente).Quarenta e seis anos depois de Hughes, o rapper Tupac ecoava: "And though it seems heaven sent/We ain?t ready to have a black president" (tradução livre: Embora pareça que o céu tenha mandado um/ Não estamos prontos para ter um presidente negro).Hoje, pouco mais de uma década depois desse lamento de Tupac, estamos prontos para um presidente negro, e a aflição causada por esses sonhos desalentadores foi dissipada.Sob todos os aspectos, foi um dia monumental na história de nosso país. Afro-americanos têm toda razão de se orgulhar. Os eventos brutais que marcaram a existência dos negros - escravidão, segregação, atrofiamento da ambição social e política - haviam anulado as esperanças em um progresso negro. A eleição de Barack Obama simboliza a ressurreição da esperança e a restauração da fé num país que muitas vezes deixou de tratar seus cidadãos negros como alguém da família. Para milhões de negros abandonados à negligência social e ao isolamento cultural, as palavras e a visão de Obama criaram uma ponte de volta para o seio da família americana.A histórica vitória de Obama é o fecho triunfal de um círculo de possibilidades que começou quando ex-escravos corajosamente imaginaram que um de seus descendentes um dia lideraria a nação que escravizou seus ancestrais.Em 1968, o reverendo Martin Luther King Jr. foi assassinado pela resistência a seu sonho de igualdade; 40 anos depois, os americanos foram às urnas para fazer de Obama presidente. A distância entre o assassinato de Luther King e a eleição de Obama é um salto no progresso racial cuja amplitude nem os céticos nem os incentivadores conseguiram prever.A vitória é um ponto de referência que ajuda a satisfazer - e salvar - a reputação democrática da América. O Salão Oval é o símbolo máximo do acesso nacional ao poder. Se as alavancas da influência forem movidas com preconceitos e privilégios injustos, elas dificultam a promessa de democracia, que é o maior legado da América. Hoje, americanos de todas classes podem se orgulhar de que os ideais dos fundadores deste país, apesar de agredidos através dos séculos por casos gravíssimos de racismo e sexismo, finalmente vieram a nosso encontro.Obama, que tem alguma coisa de pai refundador da nação, ascende ao panteão dos homens brancos que iluminaram ou projetaram uma sombra negativa na paisagem política da nação. Sua interpretação dos ideais e do destino dos Estados Unidos revigora os princípios que moldaram a auto-imagem do país.Contrariando muitos críticos, sua eleição não prenuncia - e nem deve - um futuro pós-racial. Mas pode ajudar a introduzir um futuro pós-racista. Na perspectiva pós-racial o que se procura é apagar elementos cruciais da nossa identidade; numa visão pós-racista, o que se deseja apagar é a opressão que se baseia no ódio e no medo, que explora a vulnerabilidade cultural e política. Obama não precisa deixar de ser um homem negro para governar com eficiência, mas o país precisa superar seu brutal passado racista para permitir que o talento dele, e o de outros negros, se destaque.Nossa fé em Obama tem que ser contagiante; tem que se propagar e se transformar na fé em outros negros postos em quarentena no estereótipo racial. A visão de Obama como um negro excepcional - quando, na verdade, ele é um americano excepcional - é um obstáculo ao desejo de nosso país de abrir caminho na direção do sucesso para outros iguais a ele. Obama não é o primeiro americano negro com capacidade para ser presidente: é o primeiro americano negro que teve chance de provar isso.Não devemos nos seduzir pela idéia de que a presidência de Obama sinalize o fim do racismo, do movimento pelos direitos civis, da luta pela igualdade entre negros e brancos, ou da carreira de Jesse Jackson e Al Sharpton. Um presidente Obama não existiria sem os esforços pioneiros de Shirley Chisholm e especialmente Jesse Jackson. Obama consegue ser sereno e calmo porque líderes como Sharpton, pelo menos no passado, mostraram sua cólera.Da mesma forma, Obama é beneficiário da eloqüência e sentido de luta de Frederick Douglass, a autoconfiança animadora de Booker T. Washington, a esplêndida coragem de W.E.B. Du Bois de desmascarar a hierarquia social, o desejo incessante de educação de Mary McLeod Bethune, a energia estratégica e tática de Ella Baker, o desejo de reinvenção literária de Malcom X e a oratória elevada e o sacrifício extremo de Martin Luther King.Obama é o último elo na cadeia de progresso que todos eles forjaram na luta para melhorar os Estados Unidos melhorando as condições da população negra. Obama irá na direção exatamente oposta: como presidente, vai melhorar as condições de vida do povo negro porque vai melhorar o país. Este é o significado de seu apelo como líder nacional e não um líder negro. Ora, da maneira adjetivada como medimos o progresso racial, Obama não é um presidente negro, mas um presidente que é negro. Como negro, sinto exaltação e orgulho de ser americano neste dia. No passado, o povo negro contou a seus filhos uma mentira, que era útil naquele momento: que eles podiam ser qualquer coisa que suas mentes e talentos permitissem que fossem, até mesmo presidente. Agora, podemos parar de mentir e começar a trabalhar para garantir que Obama seja somente o primeiro de muitos outros - presidentes, astronautas, governadores, senadores, físicos teóricos, o diretor máximo da maior liga de beisebol do país, participantes da corrida Nascar, nadadores olímpicos ou qualquer outra atividade que ousemos imaginar.Um dos grandes efeitos de Obama presidente é o incalculável estímulo psíquico que dá para os jovens negros que vão se formar olhando as telas de TV que projetam seu rosto e suas palavras em todo o globo.Mas o real milagre pode estar no fato de a presidência de Obama persuadir os americanos a reconhecer que uma pessoa negra talentosa, se acreditarmos nela, pode fazer muita coisa boa para o país. Mesmo antes de prestar juramento, Obama já serviu à nação heroicamente. *Michael Eric Dyson, professor de sociologia na Universidade Georgetown, é autor, entre outros livros, de Orgulho (Arx)

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