O fim de um longo jejum religioso

Desde os anos 90, cristãos e sincretistas têm voltado aos templos que haviam se esvaziado nos anos 60 e 70

Félix Sautié Mederos* ,

27 Dezembro 2008 | 18h29

Falar de religião em Cuba, agora que a revolução completa 50 anos, é fazer referência à saúde espiritual de um povo submetido a um longo período de tensões, luta e agressão permanente que transformaram o território nacional em uma praça sitiada na qual o confronto com as agressões externas cria circunstâncias especiais.  Veja também:Nas trilhas da revoluçãoTratamento de imagemUma só Cuba? Esqueça: são muitasUma carcomida relíquia da Guerra FriaLas Vegas do CaribeLinha do tempo A Revolução Cubana nas páginas do Estadão Debates Estadão: O futuro de Cuba pós-Fidel Basta dizer que são 50 anos de desencontros e encontros complicados e difíceis, que transcorreram desde uma política de ateísmo científico defendida constitucionalmente até o atual estado de república laica definido na Constituição de 1992, como parte de um processo de esforços de melhoramento na relação Igreja-Estado. Resultante desses esforços, a viagem do papa João Paulo II a Cuba, em janeiro de 1998, marca um período histórico de antes e depois dessa transcendental visita, favorecendo o início de uma etapa crucial de normalização que, embora não desprovida de dificuldades, tem facilitado alguns espaços até nossos dias, abrangendo não somente a Igreja Católica, mas as igrejas e denominações evangélicas, os cultos de origem afro-cubana e outras manifestações religiosas. Se nos momentos mais acirrados do confronto (de 1962 à década dos anos 70 do século passado) os templos começaram a se esvaziar, nos anos 90 teve início um retorno como conseqüência da comoção criada pela queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética, fatos que provocaram um choque emocional de grandes proporções na população cubana. Na época, tornou-se evidente uma lenta, mas persistente, expressão pública da fé e religiosidade reprimida e afogada durante muitos anos. Nesse tempo, a religiosidade popular e os cultos sincretistas de origem africana, embora também atingidos durante a época do ateísmo, gozaram de uma maior compreensão, decisiva para a captação de adeptos e o aumento de suas atividades, o que pode ser observado nas ruas, com muita gente usando roupas e símbolos religiosos. A situação cubana não pode ser comparada à do restante da América Latina em relação ao crescimento dos cultos evangélicos e à redução do catolicismo militante. Em Cuba, a recuperação da Igreja Católica, com os cultos sincretistas que vêm a se tornar aliados estratégicos devido à participação nas procissões, missas e muitas das atividades católicas, incluindo a exigência do batismo para iniciação, constituem o maior núcleo de crescimento, seguido da aparição das denominações pentecostais. A religiosidade tradicional do cubano tende mais às liturgias sacramentais do que aos cultos da palavra no sentido geral. Em minha Paróquia de São Judas, no centro de Havana, setor tradicional onde proliferam os cultos da santería (umbanda) cubana, assim como os de origem yorubá, o espiritismo, entre outros, nós, os católicos, que assistimos regularmente à missa e a comemorações de diversos tipos, somos acompanhados por uma significativa participação de pessoas devotas dos cultos sincretistas, que colocam flores, acendem velas e fazem reverências diante das imagens de Santa Bárbara, da Virgem da Caridade, de São Judas, de Santa Teresinha, de São Lázaro, do Sagrado Coração e até diante do altar do sacrário. No momento da comunhão, caminham com os que comungam e, respeitosamente, solicitam a bênção ao pároco, que a concede. Na prática, eles fazem parte de nossa comunidade. Isso acontece nas outras paróquias do país com maior ou menor intensidade. Em Cuba, não cabe falar de uma transição religiosa, nem em meio às grandes mudanças necessárias nas áreas econômica, política e social. Do ponto de vista religioso, em sentido geral, há um crescimento e uma recuperação ativa caracterizada pela volta às tradicionais formas litúrgicas e aos cultos populares sincretistas.  As grandes atividades que foram promovidas durante a visita de João Paulo II e seus memoráveis discursos e homilias em todo o país, assim como, pouco tempo depois, as concentrações similares em diversas províncias convocadas pelos protestantes, criaram um ambiente que acelerou esse movimento de retorno a Deus, aos templos e às práticas religiosas. No âmbito católico, a celebração do Enec em 1986 (Encontro Nacional Eclesial Cubano), que se definiu como profético e programático a partir de uma profunda reflexão interna desde a base, tirou a Igreja do interior dos templos e a levou para as ruas. Naquele encontro, foi decidido o desenvolvimento de uma Igreja missionária, que reza e está encarnada sob o lema Fidelidade a Cristo e a Cuba. A partir do Enec, os planos pastorais se tornaram um instrumento básico de orientação desse ressurgimento. Durante a preparação da viagem de João Paulo II a Cuba em janeiro de 1998, entrou em vigor o Plano 1997–2000, com ênfase na promoção da pessoa em seu ser e trabalho na Igreja e na sociedade e com o objetivo de conseguir que as comunidades evangelizassem e fossem sinais de amor e reconciliação no povo, tanto na ação pastoral quanto na construção de uma sociedade melhor. No Plano 2001–2005, aprofundou-se nesses objetivos, procurando-se uma conversão geradora de uma autêntica espiritualidade cristã e da pastoral social de uma sociedade mais justa, assim como a reconciliação fraterna e a participação em um projeto comum. Por fim, o atual plano em vigor, Plano Global 2006–2010, assinala que "a Igreja que sabe que ela é povo de Deus sabe que é também ... povo cubano, com o qual compartilha sacrifício e esperanças. Deseja lhe oferecer o melhor de si, sua fé e sua cubanidade…" Resgato a seguir algumas cifras significativas fornecidas pelo Departamento de Investigações Sócio-Religiosas da Academia de Ciências de Cuba. Devo dizer que não posso dispor dessa mesma informação sobre os cultos afro-cubanos, pois, devido a sua falta de estruturas centralizadas, não há dados disponíveis que possam ser comparados. Na Igreja Católica, sim. Em 1979 foram realizados 25.478 batizados em todo o país. Em 1996, os batizados foram 66.004.  Quanto ao número de sacerdotes e religiosas, houve uma diminuição nos anos 60 devido às expulsões e saídas das ordens religiosas preocupadas com a eventualidade de que se produzissem experiências similares às da Guerra da Espanha. Dos 800 sacerdotes em 1960, no país ficaram somente 200; quanto às religiosas, de 2 mil ficou um número similar. Por outro lado, no final da década de 90, foi reportada uma cifra de 370 sacerdotes e 518 religiosas. Devemos levar em conta que, desde os anos 60 até hoje, a entrada de sacerdotes e religiosos/as tem sido estritamente controlada com restrições e os seminários empobreceram sensivelmente. Atualmente, observa-se uma recuperação como conseqüência da viagem do papa em 1998 e de novas visitas como a do cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano, em 2008. Em todo esse período, surgiram uma imprensa católica tolerada, mas não legalizada, e espaços cristãos com múltiplas atividades de estudo, encontro e diálogo.  A devoção à Virgem da Caridade do Cobre (Ochum para os cultos sincretistas, Cachita, para os cubanos) tem marcado os cubanos de todas as épocas. Lembro que, em uma de suas primeiras procissões que foram retomadas como parte da preparação da visita de João Paulo II, quando a procissão estava avançando em meio a cantos marianos pela Rua Reina no centro de Havana, um homem mestiço, vestido de branco com seus adereços da santería cubana, rompeu o cordão que rodeava o andor num momento em que a procissão se deteve, e se colocou perante a imagem para gritar em voz muito alta: "Cachita, o que fizeram com você, por que não a deixavam sair?"  *O cubano Félix Sautié Mederos, sociólogo, teólogo laico, escritor e jornalista, colabora com publicações em Cuba e no exterior. É autor, entre outros, de Cuba: Problemas y Retos (Nueva Utopía)

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