O futuro, nos dois lados do Rio Grande

Há um presságio de melhor entendimento entre México e EUA, na violenta fronteira que separa o grande cartel da droga e o império dar armas, diz o escritor e diretor da revista cultural 'Letras Libres', Enrique Krauze

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2009 | 02h03

"Enquanto carregamos o peso da responsabilidade sobre nossos problemas, a caricatura do México propagada nos Estados Unidos só aumenta o desespero nos dois lados do Rio Grande. É algo profundamente hipócrita." Com palavras afiadas e emotivas, o historiador mexicano Enrique Krauze, 62 anos, referiu-se à visita da secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, a seu país. E o fez terça-feira, dia 24, véspera da chegada da representante americana, em artigo publicado no The New York Times e reproduzido pelo Estado. Em certas passagens, o artigo ganhou a voltagem do desabafo. Krauze disparou contra as cenas de violência que se propagam na mídia internacional mostrando a matança entre traficantes e policiais mexicanos, inclusive assassinatos com requintes de crueldade. "Querem fazer com que a opinião pública pense que somos um Estado falido. Não somos. Os Estados Unidos são os maiores consumidores de drogas no mundo e os grandes fornecedores de armas para a guerra dos cartéis mexicanos. A administração Obama daria uma grande ajuda se assumisse a responsabilidade de seu país nesta situação."

    

Na quarta-feira, Hillary desembarcou na cidade do México com um discurso completamente afinado com o artigo de Krauze. Assumiu o envolvimento americano no consumo de drogas e apontou o dedo para o poderoso lobby das armas nos EUA, que garante o poder de fogo dos cartéis mexicanos. Foi nesse momento que o caderno Aliás solicitou a entrevista que se segue com o historiador. Vale dizer que já o encontrou em outro estado de ânimo, elogiando até os encantos da secretária Clinton, "que nos conquistou com sua simpatia". Mas a cautela logo voltaria a presidir a conversa: para Krauze, a visita pode ser entendida, no limite, apenas como "presságio" de uma nova relação entre México e Estados Unidos. Diz que o vizinho poderoso tem agora a oportunidade de tratar melhor a América Latina, acredita que a democracia americana funciona internamente, mas é míope quando se volta para o mundo, e chega a dizer que as listas dos mais ricos da Forbes, que agora inclui um traficante mexicano, além de cínica e frívola, tornou-se algo racista.

Neto e filho de imigrantes europeus, Enrique Krauze graduou-se no México e, anos mais tarde, chegou a lecionar na Universidade Oxford, na Inglaterra. Foi durante duas décadas coeditor da revista literária Vuelta, ao lado do escritor e Nobel de Literatura Octavio Paz. Autor de vários livros, recentemente lançou El Poder y el Delirio (Tusquets, 2008) sobre o presidente venezuelano Hugo Chávez. Também ensaísta, não recusa uma boa polêmica. Como em 2006, quando desancou o candidato presidencial Andrés Manuel López Obrador, do Partido da Revolução Democrática, o PRD, por não aceitar a vitória (por margem estreita, diga-se) do atual presidente, Felipe Calderón, do Partido Ação Nacional, o PAN. Para Krauze, López Obrador é um sequestrador da democracia mexicana, Chávez, um edipiano obcecado pela ideia de heroísmo, o subcomandante Marcos, um romântico que não soube aproveitar o momento de despir a máscara do guerrilheiro para se transformar num bom político de oposição, e Lula, a única voz que pode moderar os governos esquerdistas na América Latina. Fechando o raciocínio, toma da régua e do esquadro. Enrique Krauze acredita piamente num triângulo constituído por Brasil, México e Estados Unidos, capaz de mudar a geopolítica de um mundo atormentado por panes no sistema capitalista.

Como o senhor interpreta as declarações da secretária de Estado Hillary Clinton em seu país, uma espécie de mea-culpa dos Estados Unidos na expansão e na violência do narcotráfico?

Declarações duras, porém valentes. São como o presságio de uma nova relação dos Estados Unidos não só com o México, mas com toda a vizinhança. Já era tempo de sentirmos algum benefício desse tão falado soft power da administração Obama. Historicamente, os EUA sempre se portaram bem com a Europa e mal com a América Latina. Esta é a primeira vez em que o governo americano, por meio do seu Departamento de Estado, assume publicamente a responsabilidade do país como consumidor de drogas e provedor de armas. Algo inédito, com reflexos na América Latina inteira.

Mas o papel americano no narcotráfico já era sabido havia muito tempo.

Só que as falas de Hillary foram marcantes. Perceba que as mudanças da política externa dos EUA dependem muito do que está se passando na política interna. Dependem dos interesses locais, dos jogos do Congresso. Porém, tendo a acreditar que haja uma nova postura em campo. Essa questão das armas é um capítulo muito complexo. Mexer com isso significa mexer com aquele famoso artigo constitucional que permite ao cidadão americano se armar livremente. Claro que se pode ter uma legislação mais dura com relação a armamento de alto poder. Ou uma fiscalização rigorosa em torno do dinheiro que vem do comércio ilegal de armas. E nem é uma coisa difícil. Lembrando Agatha Christie, para chegar à verdade, follow the money. Então por que ainda não fizeram isso? Esse é o tipo de pergunta que se coloca neste momento.

O que terá motivado essa mudança de postura dos EUA no que diz respeito ao narcotráfico no México?

Não existe um turning point, tudo faz parte de um processo. Veja bem, não estou dizendo que já estamos vivendo um câmbio profundo na relação entre os dois países, mas, isso sim, vivemos um presságio de mudanças. Com a chegada de Obama à Casa Branca, há um espírito renovado em Washington, atitudes novas aparecem e isso ficou muito claro esta semana com a visita de Hillary, com seu discurso sincero, sua inteligência, seu encanto pessoal que despertou muitas simpatias por aqui. Foi algo forte. No entanto, há sempre uma distância imponderável entre o que se diz e o que se faz. Sei que o controle das armas é um processo longo, complicado, mas não dá para não fazer nada, compreende? Como também não é possível aceitar essa propaganda negativa contra o México, tentando rotulá-lo como um "Estado falido". Se fosse assim, os EUA de Al Capone, nos anos 30, seriam também um Estado falido, ingovernável, inviável.

Hillary também criticou o muro de fronteira com o México, que os EUA estão construindo.

Esse muro é um emblema de hostilidade que ofende profundamente os mexicanos. A construção tem que parar logo e o dinheiro gasto nesse tipo de coisa deveria ser canalizado para o combate frontal ao narcotráfico.

Diante dessa troca perversa de "mercadorias" que se vê no México - saem drogas, entram armas - os EUA parecem compelidos a mexer no lobby talvez mais poderoso do país, o das armas. Haverá coragem política para tanto?

O lobby da Associação Nacional de Rifle é de um poder extraordinário! Mas tem que mexer nisso. No meio dessa tremenda crise econômica global, os países estão mexendo em coisas impensáveis, não estão? Então por que os EUA não podem conter o contrabando de armas? Além do mais, é preciso recuperar o tempo perdido. Nos anos Bush, o governo americano simplesmente lavou as mãos em relação ao problema. Bush estava tão obcecado com seu combate ao terrorismo e sua guerra no Iraque que nada fez. E foi justamente um tempo em que duas coisas infernais, o cartel da droga e o lobby das armas, deram-se as mãos. Seria maravilhoso que os EUA se dessem conta de que podem fazer muito para melhorar a vida no continente latino-americano. Existe até um clima de concórdia na região e, o que é decisivo, um triângulo geopolítico muito importante formado por Brasil, México e EUA. Esses três países, juntos numa convergência inteligente, têm como resolver inúmeros problemas. Por exemplo, poderão ajudar Cuba a fazer o trânsito para uma situação de normalidade política e econômica e, sobretudo, poderão neutralizar o irredutível caudilho messiânico que governa a Venezuela.

O senhor acredita que exista esse clima de concórdia com os EUA na América Latina, diante da multiplicação dos governos de esquerda na região?

Acredito que sim. E o papel que vem jogando o presidente Lula é central. Ele não embarcou na onda populista e o Brasil segue na trilha de uma social-democracia. O Brasil tem cacife para moderar todas essas tendências esquerdistas que, no fundo, são ainda resultantes das relações de clientelismo. Só que o clientelismo não dará conta dos graves problemas econômicos que vêm por aí e a Venezuela de Chávez logo vai mergulhar numa crise imensa.

Voltando ao narcotráfico, houve cerca de 7 mil mortes em seu país desde janeiro de 2008 relacionadas à violência que permeia o mundo dos cartéis e a repressão policial. Além do número expressivo, algumas dessas mortes tiveram requintes de extrema crueldade. O que está acontecendo, afinal?

A maior parte das mortes aconteceu na região norte de Ciudad Juárez. O México tem mais de 2.500 municípios e metade dessas mortes ocorreram em 11 dessas prefeituras. Ou seja, o problema é localizado. Na verdade, há duas cidades mexicanas extremamente violentas: Juárez e Tijuana, ambas na zona de fronteira com os EUA. Juárez está próxima do Texas, Tijuana próxima da Baixa Califórnia. São mortes de gente que serve ao narco e de gente da polícia, pois há um confronto aberto entre esses dois setores. E ainda há mortes de gente do governo e mortes na população civil. Mas em número menor. Então, houve de fato muitos assassinatos numa região específica, porém, no cômputo geral, essa mortalidade ainda está abaixo de índices encontrados em outros países latino-americanos. Temos hoje o mesmo número de assassinatos que os EUA tinham no princípio dos anos 90. Mas você me pergunta o que está havendo. Pois bem, há uma tremenda espetacularização dessas mortes. Depois do 11 de setembro de 2001, passamos a ver pela internet cenas absurdas, como a decapitação de Daniel Pearl (jornalista americano raptado, degolado e esquartejado por terroristas no Paquistão, em 2002). Isso foi algo terrível, com importância capital no "império da imagem". O narcotráfico entendeu esse fenômeno e alguns jornais mexicanos, infelizmente, embarcaram na sanha de dar publicidade às mortes violentas. Essas atrocidades semeiam um clima de medo e desânimo na população.

E os narcotraficantes sentem-se mais fortes.

Sentem-se vitoriosos. Tenho pensado que tanto a guerrilha quanto o narcotráfico sabem que precisam vencer a batalha da informação na mídia e a guerra psicológica junto à população. Estampar manchetes nas primeiras páginas dos jornais, propagar fotos em que as vítimas são "justiçadas", destroçadas, isso tudo gera um horror tremendo, e é o que o narco quer. Eu só posso admirar o presidente Álvaro Uribe, da Colômbia, um homem que nunca desanimou. Uribe formou um Exército extremamente profissionalizado e, com apoio americano, mudou a equação de ânimos da população em relação ao narcotráfico. Isso é fato.

É fato também que o chamado Plano Colômbia, que batiza a cooperação tecno-militar para desbaratar o narcotráfico, acabou também desbaratando a guerrilha das Farc. O senhor acha que vem aí um Plano México?

Para ser sincero, gostaria que sim. Os EUA devem compreender que precisam ajudar o México, como ajudaram a Colômbia, e o México precisa aceitar essa ajuda. Antigas pulsões devem ser superadas em favor de um novo entendimento, superando visões dogmáticas e discursos nacionalistas.

Já começam as reclamações sobre a possibilidade de envio de tropas americanas para fronteira com o México. Se isso acontecer, o abalo será profundo entre os imigrantes mexicanos, não?

Essas medidas assustam, mas, mesmo com a crise nos EUA, em que os empregos para imigrantes estão sendo eliminados, ainda assim acredito que os mexicanos tentarão ficar por lá, resistindo bravamente feito gatos boca arriba, como se diz aqui. O mexicano é um povo estóico, historicamente isso se comprova. Vai suportar esse período duro e manter-se nos interstícios da sociedade americana. Fala-se em migração de retorno, mexicanos que estariam voltando para casa. Existe isso, mas está longe de ser um fluxo expressivo.

Como a oposição ao governo Felipe Calderón vê as novas possibilidades de cooperação entre México e Estados Unidos?

O México é uma democracia jovem. A luta entre os partidos, para eles próprios, torna-se prioritária, portanto não existe uma solidariedade política que permita um enfrentamento do problema das drogas. Os oposicionistas temem que uma eventual solidariedade se traduza em votos para Calderón. O debate está muito politizado, infelizmente. E o presidente mexicano está só nessa empreitada. Só, em termos de articulação política, ainda que a população o entenda e o apoie no combate aos cartéis. Calderón, dizem as últimas pesquisas, está com mais de 60% de apoio popular. Ele soube transmitir a ideia de que esta é uma guerra a ser levada a sério, mas não soube transmitir um sentimento de confiança ao povo.

O oposicionista López Obrador continua contestando a presidência de Calderón?

Sem dúvida. Na minha opinião, ele é o grande sequestrador da democracia mexicana. Se chegar ao poder, torna-se uma cópia revisada do "comandante Hugo Chávez". Sim, Obrador continua muito ativo e convicto de seu projeto maior, a presidência em 2012. Mas ele é apenas um fator contra Calderón. Considere também os movimento do Partido Revolucionário Institucional, o PRI, que está se fortalecendo e pode se sair muito bem nas próximas eleições legislativas. Eu diria que o gabinete de Calderón e gente do seu partido, o PAN, andam perplexos diante da retomada priista. Perplexos e debilitados.

O ingresso formal do México no Nafta completou 15 anos este ano. Que balanço o senhor faz desse tempo em que seu país olhou mais para os EUA do que para a América Latina?

Sim, é verdade, estivemos muito voltados para os EUA nesse tempo, o que é até compreensível, mas de um tempo para cá estamos, digamos, buscando nossa zona natural de alianças. Não dá para dizer que o tratado de livre comércio foi ruim para o México. Eu diria que trouxe benefícios aos dois países. No nosso caso, houve uma modernização da economia, deixamos de ser tão dependentes do petróleo, ganhamos espaço no mercado exterior. Os números estão aí e são irrefutáveis. Agora o tempo é outro. De maneira geral, vejo bons prognósticos para os países da América Latina, com uma exceção: Venezuela. Acabo de publicar um livro no México, El Poder y el Delirio, sobre Hugo Chávez, que já está circulando pelos países vizinhos e espero que em breve ganhe tradução para o português. Ao fazer esse trabalho me convenci de que é possível formar um bloco importante na região, um bloco liderado por democracias já mais maduras, com alianças produtivas. Mas a Venezuela complica as coisas.

O senhor realmente acredita que Hugo Chávez seja uma ameaça?

Eu acredito nisso. Creio de verdade e sinceramente. Trata-se de um homem obcecado pela ideia do heroísmo, com uma identificação maníaca com Simon Bolívar e Fidel Castro. Vejo nitidamente uma relação edipiana e doentia: o filho que quer matar o "pai Bolívar" e o "pai Castro" para tomar para si todo poder e todo heroísmo. É terrível.

Um problema sério do México, diz o senhor, é a falta de participação cívica da população no combate ao narco. Por que isso acontece?

A sociedade mexicana só agora está acordando para a gravidade da situação ao assistir às prisões de alguns chefões do narco. E essas prisões só estão ocorrendo porque as autoridades recebem, do cidadão comum, informações anônimas sobre os criminosos. O que é bom sinal. Mas ainda há um longo caminho a percorrer até que se entenda que a guerra contra as drogas deve ser decisão da sociedade como um todo, e não só de um governo.

O encolhimento da guerrilha zapatista, que mobilizou setores da sociedade civil mexicana, faz parte desse quadro de apatia social?

A guerrilha nunca foi um movimento forte, nunca teve ressonância social autêntica, nunca demonstrou competência e jamais se assemelhou a outros movimentos armados na América Latina. Aqueles movimentos, sabemos bem, tinham filiação ideológica com Cuba. Só que o México sempre manteve uma relação boa com Cuba. Então, qualquer grupo que venha invocar aquela mesma lógica de confronto dos tempos da Guerra Fria, pelo menos aqui, no México, vai soar como coisa velha. O subcomandante Marcos é um homem de 52 anos, já está crescidinho para sair por aí como guerrilheiro romântico... Marcos perdeu o grande momento para, de guerrilheiro mascarado, transformar-se em um bom político de esquerda. Teria sido genial. Quem sabe ele não iria tão longe quanto o presidente brasileiro? Lula, que nunca precisou ser guerrilheiro, soube escolher o caminho correto para chegar ao topo.

Dias atrás a mídia internacional noticiou com alarde a prisão de Héctor Huerta, um dos chefões do narcotráfico no México. Ele foi exibido como um troféu de caça. Ao mesmo tempo, a revista Forbes relacionou entre os homens mais ricos do mundo outro narcotraficante mexicano, Joaquín Guzmán, ?El Chapo?. Lista que por sinal tem entre os primeiros colocados outro mexicano, o empresário Carlos Slim. Esses sinais cruzados confundem a imagem que se tem do seu país?

Se existisse nos anos 30, a lista da Forbes deveria incluir Al Capone, não? Essa lista tem sido de um cinismo hipócrita... É uma irresponsabilidade editorial que agora passou a ter conotações um tanto racistas. Sou contrário a essa cultura norte-americana dos estereótipos: bem, está na hora de colocar um narcotraficante na lista dos mais ricos. Há uma onda agora de rotular o México como "Estado falido", dominado pelo crime organizado. Não somos isso! Há problemas, queremos debatê-los, como estou fazendo com você agora, e não queremos cair em estereotipias. Temos uma sociedade culturalmente rica, diversa, temos nossas tradições, nossas instituições, nossos intelectuais... Saiba que a democracia americana, sendo muito rica internamente, sempre parece míope ao olhar para fora. Os americanos utilizam para os outros certos critérios racistas que não aplicam a si mesmos.

O senhor parece em campanha contra uma propaganda negativa que se faz do México.

Sou um historiador e dediquei minha a vida a publicações culturais, como a revista que dirigi junto com Octavio Paz por tantos anos. Portanto, sei que o México é um país profundo, denso, rico, não merece julgamentos frívolos. Tanto o governo quanto a diplomacia mexicana precisam defender nosso patrimônio cultural. E, nesse ponto, conta também o lado pessoal: este país acolheu, nos anos 30, meus avós e meus pais, gente que fugia de perseguições na Europa. Aqui eles chegaram, aqui estamos hoje. A gratidão que sinto pelo México estará comigo até o último dia da minha vida.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.