O garimpeiro de mitos

Lévi-Strauss mostrou que o índio e o parisiense têm mais em comum do que se imaginava

Edward Rothstein*, The New York Times

08 de novembro de 2009 | 00h42

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O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, que transformou a compreensão ocidental do outrora chamado "homem primitivo" e se destacou no cenário intelectual francês dos anos 60 e 70, faleceu aos 100 anos.

 

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Segundo seu filho Laurent, Lévi-Strauss morreu de parada cardíaca, em sua casa, em Paris. A morte foi anunciada na terça-feira, mesmo dia em que ele foi enterrado na cidade de Lignerolles, na região da Côte-d"Or, sudeste de Paris, onde tinha uma casa de campo.

"Ele manifestou o desejo de ter um funeral sóbrio e discreto, com a família, em sua casa de campo", disse o filho. "Era muito apegado a esse lugar. Gostava de caminhar pela floresta, e o cemitério onde foi enterrado fica à margem da floresta."

Pensador vigoroso, Lévi-Strauss foi um avatar do estruturalismo, escola de pensamento segundo a qual "estruturas" universais fundamentam toda a atividade humana, dando forma a culturas e criações aparentemente díspares. Seu trabalho influenciou profundamente até seus críticos, que eram muitos. Não há nenhum sucessor comparável a ele na França. Seus textos, num estilo ao mesmo tempo afetado e poético, cheio de justaposições ousadas, argumentos intrincados e metáforas elaboradas, têm muito pouca semelhança com o que foi publicado anteriormente no campo da antropologia.

"As pessoas percebem nele um dos grandes heróis intelectuais do século 20", disse Philippe Descola, que preside o departamento de antropologia do Collège de France, em entrevista concedida em novembro a The New York Times, quando do centenário de nascimento de Lévi-Strauss. O antropólogo era tão reverenciado que pelo menos 25 países celebraram seu centésimo aniversário.

Descendente de uma eminente família judaica francesa de artistas, ele era o intelectual francês por excelência, tão à vontade na esfera pública quanto na academia. Lecionou em universidades em Paris, Nova York e São Paulo e trabalhou para as Nações Unidas e o governo francês.

Seu legado é impressionante. Mitológicas, sua obra em quatro volumes sobre a estrutura da mitologia nativa das Américas, tenta nada menos que interpretar o mundo da cultura e dos costumes, formulado a partir da análise de centenas de mitos de tradições e tribos pouco conhecidas. Os volumes: O Cru e o Cozido; Do Mel às Cinzas; Origem dos Modos à Mesa; e O Homem Nu, publicados de 1964 a 1971, desafiam o leitor com o entrelaçamento complexo de temas e detalhes.

Em sua análise do mito e cultura, Claude Lévi-Strauss podia contrastar imagens de macacos e jaguares; analisar as diferenças de significado da carne cozida e assada (ele sugeriu que os canibais tendem a cozer seus amigos e assar seus inimigos); e estabelecer conexões entre contos mitológicos fantásticos e rebuscadas leis sobre casamento e parentesco.

Muitos dos seus livros incluem diagramas que parecem mapas de geometria interestelar, fórmulas que lembram técnicas matemáticas e fotografias em branco e preto de rostos escarificados e rituais exóticos que ele fez durante seu trabalho de campo.

Suas interpretações dos mitos norte e sul-americanos foram fundamentais para a mudança do pensamento ocidental a respeito das chamadas sociedades primitivas. Ele começou a contestar a tese comumente aceita sobre essas sociedades logo depois de iniciar sua pesquisa antropológica nos anos 30 - uma experiência que se tornou a base de um aclamado livro editado em 1955, Tristes Trópicos, uma espécie de meditação antropológica baseada em suas viagens no Brasil e em outros lugares.

A tese então aceita era de que as sociedades primitivas eram intelectualmente pouco imaginativas e irracionais por natureza, baseando seu enfoque de vida e religião na satisfação das necessidades urgentes de alimento, vestuário e abrigo.

Claude Lévi-Strauss resgatou seus temas dessa perspectiva limitada. Começando com as tribos caduveo e bororó, na região do Mato Grosso, no Brasil, onde realizou seus primeiros e principais trabalhos de campo, ele descobriu entre elas uma busca obstinada não só para satisfazer as necessidades materiais, mas também para compreender as origens, uma lógica sofisticada que regia até os mais bizarros mitos, e um sentido implícito de ordem e de propósito, mesmo entre tribos que guerreavam de maneira impiedosa.

Seu trabalho elevou o status da "mente selvagem", frase que se tornou o título de um dos seus mais vigorosos estudos, O Pensamento Selvagem, de 1962.

"A sede de conhecimento objetivo", escreveu, "é um dos aspectos mais negligenciados do pensamento das pessoas que chamamos "primitivas"."

O mundo das tribos primitivas estava desaparecendo rapidamente, escreveu ele. Entre 1900 e 1950, mais de 90 tribos e 15 línguas haviam desaparecido somente no Brasil. Esse era outro tema recorrente. Lévi-Strauss se preocupava com o crescimento de uma "civilização massificada", uma "monocultura" moderna. Às vezes manifestava um desgosto exasperado com o Ocidente e "sua imundície, jogada na cara da humanidade".

Ao elevar a mente selvagem e denegrir a modernidade ocidental ele estava escrevendo dentro da tradição do romantismo francês, inspirado pelo filósofo do século 18 Jean-Jacques Rousseau, venerado pelo antropólogo. Era uma visão que ajudou Lévi-Strauss a desenvolver uma reputação pública na era do romantismo contracultural das décadas de 60 e 70.

Mas esse romantismo simplificado era também uma distorção de suas ideias. Para Claude Lévi-Strauss, o selvagem não era intrinsecamente nobre ou, de algum modo, "mais próximo da natureza". Ele foi taxativo, por exemplo, ao descrever os caduveos, que retratou como uma tribo tão em rebelião contra a natureza - portanto condenada - que chegava até a proibir a procriação, preferindo "reproduzir-se" sequestrando crianças de tribos inimigas.

As descrições que fez das tribos indígenas americanas têm pouca relação com os clichês bucólicos e sentimentais que se tornaram lugar-comum. Claude Lévi-Strauss também fez uma clara distinção entre o primitivo e o moderno, concentrando-se no desenvolvimento da escrita e na consciência histórica. Em sua opinião, foi uma consciência da história que permitiu o desenvolvimento da ciência e a evolução e expansão do Ocidente. Mas ele se preocupava com o destino do Ocidente. Segundo escreveu no The New York Review of Books, o Ocidente estava "se permitindo esquecer ou destruir a própria herança".

Com o enfraquecimento do poder do mito no Ocidente moderno, ele sugeriu também que a música tinha assumido a função do mito. A música, afirmou, tinha a capacidade de sugerir, com uma força narrativa primordial, as forças e ideias conflitantes que estão na base da sociedade.

Mas Lévi-Strauss rejeitou a ideia de Rousseau de que os problemas da humanidade resultaram das distorções da natureza causadas pela sociedade. Em sua concepção, não existe alternativa para tais distorções. Para ele, cada sociedade tem que se moldar a partir da matéria-prima da natureza, tendo a lei e a razão como instrumentos essenciais.

Esse uso da razão, argumentava, cria elementos universais que podiam ser encontrados em todas as culturas e em todas as épocas. Lévi-Strauss ficou conhecido como um estruturalista por causa da sua convicção de que uma unidade estrutural está na base de toda criação de mitos da humanidade, e mostrou como esses temas universais agiam nas sociedades, até mesmo na maneira como uma aldeia é projetada.

Para Claude Lévi-Strauss, por exemplo, a mitologia de cada cultura era criada em torno de opostos: quente e frio, cru e cozido, animal e humano. E era por meio desses conceitos "binários" opostos, dizia ele, que a humanidade adquiria uma compreensão do mundo.

Isso era bem diferente do que a maioria dos antropólogos procurava. Tradicionalmente, a antropologia tinha por finalidade revelar as diferenças entre culturas, mais do que descobrir estruturas universais. Estava preocupada não com ideias abstratas, mas com as particularidades de rituais e tradições, coletando-os e catalogando-os.

O enfoque "estrutural" de Claude Lévi-Strauss, buscando os elementos universais da mente humana, rompia com essa noção da antropologia. Ele não procurava determinar os diversos objetivos a serem atendidos pelas práticas e rituais de uma sociedade. Nunca teve interesse pelo tipo de trabalho de campo de antropólogos de uma geração mais nova, como Clifford Geertz, que observava e analisava atentamente uma sociedade como se vista do seu interior. (Ele iniciou seu livro Tristes Trópicos com a seguinte afirmação: "Odeio viajantes e exploradores".)

Como escreveu em O Cru e o Cozido, ele conduziu "a pesquisa etnográfica na direção da psicologia, da lógica e da filosofia".

Em palestras de rádio para a Canadian Broadcasting Corporation em 1997 (publicadas com o título Mito e Significado, Lévi-Strauss demonstrou como deve ser feito um exame estrutural do mito. Citou um relato segundo o qual no Peru, no século 17, quando ficava excessivamente frio, um padre convocava todos aqueles que tinham nascido com os pés primeiro, ou tinham lábio leporino, ou eram gêmeos. Eles eram acusados de ser responsáveis pelas condições climáticas e o padre ordenava que se arrependessem e corrigissem suas aberrações. Mas por que esses grupos? Por que os de lábio leporino e os gêmeos?

Lévi-Strauss citou uma série de mitos norte-americanos que associavam gêmeos a forças naturais opostas: ameaça e promessa, perigo e expectativa. Um determinado mito, por exemplo, incluía uma lebre mágica, cujo nariz foi dividido numa briga, o que resultou, literalmente, num lábio leporino, sugerindo um possível início da formação de um gêmeo. Com suas injunções, o padre peruano parecia ter consciência das associações entre a desordem cósmica e os poderes latentes dos gêmeos.

As ideias de Lévi-Strauss sacudiram seu campo de estudo. Mas seus críticos eram muitos. E eles o atacaram por ignorar a história e a geografia, usando mitos de um determinado lugar e época para ajudar a esclarecer mitos de outro, sem demonstrar nenhuma conexão ou influência direta.

Num reputado estudo crítico de seu trabalho, em 1970, o antropólogo da Universidade de Cambridge Edmund Leach escreveu a respeito de Lévi-Strauss: "Mesmo agora, apesar do seu enorme prestígio, os críticos entre seus colegas de profissão superam em número, e muito, seus discípulos".

O próprio Edmund Leach tinha dúvidas se Lévi-Strauss, durante seu trabalho de campo no Brasil, teria conseguido conversar "com alguns dos seus informantes nativos em sua linguagem nativa", ou permaneceu ali o tempo necessário para confirmar suas primeiras impressões. Alguns argumentos teóricos do antropólogo, incluindo sua explicação dos canibais e dos seus gostos, foram contestados pela pesquisa empírica.

Claude Lévi-Strauss admitiu que sua força estava em suas interpretações do que tinha descoberto e achava que seus críticos não davam o crédito necessário ao impacto cumulativo dessas especulações. "Por que não admitir?", disse ele a um entrevistador, Didier Eribon, em entrevista publicada sob o título De Perto e de Longe (1988), "Descobri muito rapidamente que era um homem mais voltado para o estudo abstrato do que para o trabalho de campo."

*Crítico de música e cultura do New York Times. Escreveu, entre outros livros, Emblems of Mind: The Inner Life of Music and Mathematics (Times Books)

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