O general estresse

Mais de um soldado americano se suicida por dia devido ao excesso de tempo em zona de combate

LAWRENCE J. KORB, BOLSISTA NO CENTER FOR AMERICAN PROGRESS, FOI SECRETÁRIO ADJUNTO DE DEFESA NO GOVERNO REAGAN. ESTE ARTIGO FOI PUBLICADO NA FOREIGN POLICY , O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2012 | 03h07

LAWRENCE J. KORB

As forças militares americanas estão às voltas com uma epidemia de suicídios que, só no Exército, já atinge mais de um por dia. Para lidar com o flagelo, o secretário Leon Panetta disse que os líderes militares deveriam "se mexer" e que vai cobrar deles a ajuda a esses soldados desesperados. Mas, embora oficiais que comandam homens e mulheres em combate devam fazer todo esforço para ajudar seu pessoal, não são responsáveis pelo que vem ocorrendo. Quem deveria ser responsabilizado são os líderes civis e militares que enviaram esses homens e mulheres repetidamente para zonas de combate sem intervalo entre missões.

A força de voluntários (AVF, na sigla em inglês) foi criada porque muitos membros da elite, incluindo líderes políticos americanos do presente e do passado, se esquivaram de servir na Guerra do Vietnã. Entre eles, Mitt Romney, Dick Cheney e Joe Biden, Bill Clinton e George W. Bush. Mas a AVF é uma força para tempos de paz. E guerra requer mobilização - isto é, ativação do serviço militar obrigatório. Isso permitiria que os soldados tivessem pelo menos dois anos entre missões de um ano e evitaria o rebaixamento dos padrões para conseguir "voluntários" para guerras que parecem não ter fim à vista. Além disso, como mais de 20 milhões de homens estão no sistema de seleção, as Forças Armadas poderiam assegurar que só se alistasse quem preenchesse seus requisitos.

Os chefes militares, incluindo os das guerras do Afeganistão e Iraque, não conseguiram explicar o que 12 a 15 meses de missão e menos de um ano em casa antes de voltar ao combate estavam causando a milhares de soldados e suas famílias. E nem disseram a seus superiores civis como a concessão de mais de 100 mil moral waivers (renúncia a requisitos morais antes exigidos de futuros recrutas) pelo Exército e o Corpo de Fuzileiros Navais para cumprir as cotas de recrutamento estava afetando a qualidade da força.

Chefes militares foram incentivados nessa falha com o dever por seus superiores civis, particularmente os secretários Donald Rumsfeld e Robert Gates e o presidente Bush. Quando Rumsfeld deixou o cargo, em 2006, havia quase 200 mil soldados no Iraque e no Afeganistão. Pouco depois de suceder a Rumsfeld, Gates aumentou os turnos dos soldados no Iraque de 12 para 15 meses para realizar o reforço de tropas e depois enviou muitos desses soldados de volta ao Iraque e ao Afeganistão com menos de um ano em casa. Além disso, nem Rumsfeld nem Gates impediram os serviços de usarem moral waivers para cumprir cotas de recrutamento. Os dois tampouco asseguraram que todos os homens e mulheres nas unidades tivessem todo o treinamento necessário antes de serem enviados para zonas de combate. Em 2007, Mark Thompson, da revista Time, cobriu a história de um grupo de soldados que foi enviado ao Iraque após um "curso barato de dez dias sobre uso de armas, primeiros socorros e cultura iraquiana", em vez do treino intensivo de quatro semanas.

Em última instância, a responsabilidade por esse ultraje moral recai em Bush. Como comandante-chefe, ele não devia ter permitido que seus líderes reenviassem soldados a zonas de combates sem tempo suficiente em casa, ou enviassem pessoas despreparadas. Mas Bush sabia que, se falasse em serviço militar obrigatório antes de invadir o Iraque, o povo americano teria feito muito mais perguntas sobre se a insensata invasão e ocupação seria mesmo a "moleza" que ele e seus acólitos afirmavam e que as forças americanas seriam recebidas como libertadoras.

Assim, mesmo depois de esticar suas forças ao extremo, os EUA ainda não tinham soldados suficientes para alcançar seus objetivos no Iraque e no Afeganistão. Consequentemente, a guerra no Afeganistão, que deveria ter sido encerrada há anos, prossegue.

Embora não se possa atribuir cada suicídio ao estresse de combate, não é acidental que o Exército, que arcou com uma parte muito maior do combate, registre a maioria dos casos. Em 2004, a taxa de suicídios para o Exército foi de 9,7 casos por 100 mil soldados. Em julho de 2012, eram 29,1 casos por 100 mil; só naquele mês, 38 soldados, mais de um por dia, se mataram. E nos primeiro oito meses de 2012, as taxas de suicídios entre soldados no serviço ativo registraram uma média de 33 por mês. Sim, o secretário Panetta deve responsabilizar os líderes militares hoje pela ajuda aos soldados desesperados para evitar o suicídio, mas precisamos nos lembrar de que, se eles estão desesperados, isso se deve às ações de líderes anteriores no Pentágono e na Casa Branca.

/ TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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