Divulgação
Divulgação

O geneticista revolucionário

Médico que pegou em armas contra Kadafi hoje se dedica em seu laboratório a identificar 17 mil desaparecidos no final da ditadura

ANDREI NETTO | É CORRESPONDENTE DO ESTADO EM PARIS, AUTOR DE O SILÊNCIO CONTRA , MUAMAR KADAFI (COMPANHIA DAS LETRAS), LANÇADO NESSA SEMANA, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2012 | 02h09

Ao receber os relatos do front no quartel-general de Zintan, nas montanhas de Nefusa, o dr. Mohamed Othman pensou consigo: "É isso. Acabou". Equivocada, segundo ele próprio reconheceria, a sensação íntima fora o primeiro sinal de alívio de um homem sob a tensão de uma batalha decisiva: a tomada de Trípoli das mãos do regime de Muamar Kadafi no histórico 22 de agosto de 2011, com a qual sonhara, de olhos abertos e fechados, durante os seis meses anteriores.

O dr. Othman é um dos personagens centrais e quase anônimos de uma das revoluções da Primavera Árabe, a da Líbia. Ao contrário do que se poderia imaginar, a história revolucionária de homens como esse doutor em genética formado nos bancos universitários do Canadá não se esgotou nos meses em que se dispuseram a enfrentar um dos tiranos mais sanguinários da segunda metade do século 20. Na Líbia, como na Tunísia, no Egito, no Iêmen e, claro, na Síria, a revolução é um ato contínuo e a construção da democracia, uma luta permanente de quem continua a ser revolucionário.

Hoje vivendo em Trípoli, Othman é um entre tantos exemplos de dedicação de homens e mulheres que travam batalhas diárias em favor da abertura política e da consolidação dos direitos conquistados após a derrubada dos ditadores árabes. Intelectual, na casa dos 50 anos, casado, pai de dois filhos, Othman vivia uma vida confortável e segura na América que adotara uma década antes para sua pós-graduação em uma área de conhecimento inexistente na Líbia, a genética. Seu futuro no Canadá estava garantido. Ao ouvir os primeiros ruídos de levante, entretanto, o compromisso ético com o futuro de seu país foi mais forte. Muçulmano liberal, humanista convicto, violou seus princípios e pegou em armas pela primeira vez, passando não apenas a manusear com desenvoltura pistolas e fuzis Kalashnikov nos primeiros dias de conflito, mas também a articular o tráfico de armas dentro e fora do país ao longo da revolução, com o auxílio ativo de governos como o da França e do Catar.

Homem de inglês impecável, fala pausada e trato fino - em contraste com a grande estatura e a corpulência -, Othman logo se tornaria um dos líderes políticos, mas também militares, da revolução na cidade de Zintan, a cerca de 160 quilômetros a sudoeste de Trípoli, na região de montanhas de Nefusa, um maciço às portas do Saara habitado há séculos por populações árabes e minorias berberes. Sua liderança ficou clara desde o primeiro encontro que tivemos, no final do mês de fevereiro de 2011, quando o médico comandava no hospital local o atendimento aos rebeldes feridos no front durante os primeiros choques com tropas pró-Kadafi. Os militares tentavam então recuperar o controle da cidade, cuja importância estratégica ultrapassa em muito o tamanho da população, de 27 mil pessoas.

Em uma atmosfera de caos, marcada pelos tiros quase ininterruptos de fuzis AK-47 e canhões antiaéreos e pela confusão de rebeldes surpresos com a presença de jornalistas, Othman recebeu Ghaith Abdul-Ahad, repórter do jornal britânico The Guardian, e eu, em frente à porta principal do hospital. Vestia trajes típicos, entre os quais uma longa camisa que recobria todo o corpo, até os tornozelos, com um ihram sobreposto, um hábito de duas peças que, enrolado, protege melhor que qualquer vestimenta ocidental do frio e do vento desértico cortante e invasivo.

Passada a euforia inicial dos rebeldes pela chegada dos primeiros jornalistas ocidentais à região, Othman delegou tarefas a seus subordinados e se dispôs a explicar aos estrangeiros as razões do levante na região de Tripolitânia, a mais populosa e rica do país, e os objetivos da revolução na Líbia - entre os quais a conquista da democracia e o estabelecimento do Estado de Direito, princípios dos quais a população estava privada desde a chegada de Kadafi ao poder, 41 anos antes. "As pessoas quebraram a barreira do medo", garantiu à época, detalhando os planos de coordenação para a partilha de armas e munições com outras cidades rebeldes para o assalto à capital, o que chamou de "a grande batalha de Trípoli".

Nos meses seguintes, o contato foi rompido e localizar Othman em meio ao conflito tornou-se impossível. Em 2012, um documentário realizado pelo jornalista francês Antoine Vitkine, Kadafi, Morto ou Vivo, permitiu relocalizá-lo, o que lançou as primeiras luzes sobre o papel crucial de alguns poucos homens na queda do ditador. Ao lado do comerciante Abdelmajid Mlegta, o geneticista deixou o front em segundo plano para se tornar um dos idealizadores do plano de ataque a Trípoli, viabilizando "a grande batalha" da qual antecipara os planos no início da insurgência.

Baseado em informações secretas sobre as posições das tropas leais ao regime colhidas por informantes rebeldes na capital, o plano foi levado ao então chefe de governo interino do Conselho Nacional de Transição (CNT), Mahmoud Jibril, e por seu intermédio a líderes da França e do Catar, tornando possível vencer o atoleiro militar no qual o país estava preso.

Apesar de seu papel político e militar decisivo, Othman recusou os louros da fama no pós-conflito por julgar que a revolução, longe de se encerrar com a morte violenta de Kadafi no deserto de Sirte, está apenas no começo.

Embora encare o futuro com otimismo, o médico entende que os líbios têm motivos suficientes para se preocupar com a ascensão de salafistas, radicais e terroristas nas cidades do leste do país, como Benghazi. Prova disso foi a assassinato do embaixador dos Estados Unidos, J. Christopher Anderson, na cidade berço da revolução, em setembro. "A segurança na Líbia está se deteriorando e é uma grande preocupação de todos nós", confirma. "Nós esperamos mobilizar a população para que desta vez ela se levante - antes que seja tarde demais - contra as milícias armadas que se formaram e se tornaram mais fortes em Trípoli."

Ainda que mantenha um papel de agitador social e uma estreita proximidade com Mahmoud Jibril, um dos líderes políticos mais influentes do país, Othman vem devotando sua atenção ao drama humanitário da Líbia: a localização e a identificação de milhares de ossadas, um dos rastros de violência legados pela família Kadafi e por seus pares. Distante - por opção - da vida político-partidária, o geneticista trabalha com o auxílio de dois ajudantes em seu recém-inaugurado laboratório, o primeiro da líbia voltado à identificação dos milhares de desaparecidos, brutalmente afastados de suas famílias e, ao que tudo indica, executados ao longo dos últimos anos e meses do regime kadafista.

"Além de todas as mortes do conflito, em torno de 20 mil, o país tem pelo menos 17 mil pessoas desaparecidas. Trabalhamos dia e noite na busca das covas coletivas deixadas pelo regime, nas quais localizamos dezenas de ossadas jamais identificadas", conta o cientista.

A maioria é de cidadãos comuns que em algum momento foram perseguidos pelos serviços secretos, por manifestarem opiniões políticas críticas ao regime ou pelo simples fato de serem familiares de dissidentes, também punidos com o desaparecimento e a morte. Eles foram as vítimas de uma estratégia política disseminada no norte da África e no Oriente Médio, onde tiranos como Kadafi ou o sírio Bashar Assad mantiveram-se - ou se mantêm - no poder espalhando a ameaça e o terror e impondo o silêncio à opinião pública.

Abrir os arquivos da burocracia deposta e, a partir de informações documentadas e de testemunhos de membros do regime hoje presos, localizar os desaparecidos é a missão pessoal de Mohamed Othman. "Enquanto eu sentir que meu trabalho e o laboratório que montamos podem ser úteis para o futuro da Líbia, vou seguir em frente para auxiliar aqueles que sofrem a dor do desaparecimento de um ente próximo", diz o médico. "É uma questão de justiça. Essa é a minha revolução."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.