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O Ghiggia comunista

A Guerra Fria chegou à Copa de 50 e nossos ‘scratchmen’ não escaparam da histeria macarthista que aqui também grassou

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

07 Junho 2014 | 16h00

Faltam só quatro dias para a Copa do Mundo e o estádio do jogo de abertura ainda não está pronto. O clima de paz e otimismo que os jornais passam e incentivam destoa do mood da população, atemorizada pela alta da inflação e a agitação nas ruas. Manifestações que redundam em violência e greves que se eternizam no noticiário ganham mais espaço nas primeiras páginas que os treinos da nossa seleção e a luta pela sucessão presidencial, a ser decidida daqui a quatro meses.

Bem-vindo a 20 de junho de 1950. Bem-vindo ao 4ª Campeonato Mundial de Futebol. Ou football, como então se grafava o esporte das multidões nestas bandas.

Sessenta e quatro anos e 16 Copas atrás, o Maracanã ainda estava em obras, como hoje o Itaquerão, e na partida de abertura do torneio sobravam poeira, barro, andaimes e entulho nas arquibancadas. A inflação elevava os preços e corroía os salários, as contas públicas estavam no vermelho, o aumento de 150% na tarifa dos bondes provocou manifestações, arruaças e atos de vandalismo na capital paulista, jovens militantes foram presos quando protestaram contra o governo e a Copa, no Rio e em São Paulo.

Sessenta e quatro anos e 16 Copas depois do fatídico gol de Ghiggia, não dá para disfarçar a impressão de déjà vu. Até contra o México, nosso primeiro adversário no Mundial de 50, jogaremos nesta Copa. E como a final será no mesmo palco da anterior, que o deus das coincidências se apiede de nós, poupando-nos do vexame de perder duas decisões em casa, provação inédita no currículo das grandes potências do futebol.

Os gastos com a outra Copa também provocaram polêmicas e épicos arranca-rabos nos jornais, nas rádios e na Câmara de Vereadores do então Distrito Federal. A começar pelo ervanário consumido na construção do Maracanã. O vereador mais votado do Rio, o udenista Carlos Lacerda, a mais fulgurante nêmesis da oposição, era contra gastar tanto dinheiro com esporte diante da penúria de nosso sistema de saúde, da falta de escolas, túneis e moradias populares. Única exceção na bancada da UDN, o compositor e radialista Ary Barroso apoiava o evento irrestritamente.

Lacerda escrevia no Correio da Manhã, Ary tinha uma coluna no Jornal dos Sports, cujo diretor, Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues, defendia com tal ardor a realização da Copa no Brasil e a construção de um estádio moderno, não na Barra da Tijuca, como Lacerda e outros preferiam, mas no terreno do antigo Derby Club, que o Maracanã acabaria batizado com seu nome.

Se o Maracanã perigou ser erguido em outros bairros cariocas, a Copa de 50 teria sido hospedada pela Alemanha nazista em 1942 ou 1946 se o 3º Reich não tivesse soçobrado entre as duas datas. De qualquer modo, a prevista alternância de continentes apontava para o lado de cá do Atlântico e a devastação causada pela guerra na Europa só ajudou a reforçar as pretensões de Argentina e Brasil de hospedar o Mundial de 1949. Isso mesmo: 1949.

Afinal escolhido para sediar o torneio, o Brasil ganhou, sem pedir, mais um ano para tocar as obras exigidas pelo evento, mas nem assim os que as combatiam, alegando falta de recursos, tempo hábil e know how, afrouxaram a marcação. Por isso foram, como os copacéticos de agora, acusados de "derrotistas" e "antipatrióticos".

Convertido à ideia de que a Copa significava muito mais para o Brasil do que um mero campeonato de futebol, que era um atestado civilizatório, uma providencial vitrine para exibir nosso progresso, nossa pujança, e propiciar grandes negócios internacionais, o povão aprovou o Maracanã (79,2%) e prontificou-se (53,6%) a entrar no rachuncho das despesas. Combater a Copa era, basicamente, uma plataforma udenista, dos liberais e da direita.

A imensa bancada do Partido Comunista na Câmara Municipal do DF, liderada por Aparício Torelly, o Barão de Itararé, era a favor, mas quase comprometeu a construção do Maracanã ao apresentar emendas ao plano original visando em vão impor Oscar Niemeyer como autor do projeto. A participação parlamentar do Partidão na "Batalha do Maracanã" durou pouco tempo: em maio de 1947, o partido foi posto outra vez na ilegalidade.

A Guerra Fria, oficiosamente iniciada meses antes, chegara ao país do futebol. E os jogadores da seleção brasileira (os "nossos scratchmen", como então eram chamados) não escaparam da histeria macarthista que aqui também grassou.

Poucos dias antes do início da Copa, um emissário da causa comunista visitou a concentração do escrete na Casa dos Arcos, no bairro do Joá, zona sul do Rio, e de lá saiu com uma carta de solidariedade assinada por todos os jogadores e a comissão técnica. Sua divulgação causou o maior rebuliço, estranhamente ignorado por todos os historiadores da Copa de 50, embora O Globo de 20 de junho de 1950 tenha dado destaque à "repulsa dos scratchmen nacionais à chantagem jornalística dos vermelhos", expressa num abaixo-assinado que é um primor de chavões e pieguice patrioteira.

"O dever de lealdade ao Brasil e às instituições democráticas, tanto quanto o imperativo da própria consciência, impõem-nos declarar que fomos traídos em nossa boa-fé", começava o documento de repúdio ao "emissário a serviço de doutrina que prega a desordem da pátria e o desentendimento entre os brasileiros", acusando-o de haver surpreendido a seleção num "instante congratulatório de emoções", com um texto que à primeira vista parecia um apelo à "comunhão de vida universal, livre de ódio ou de sangue".

Os comunistas, quem diria, também tinham um Ghiggia em seu time.

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