O grande Petit

Desafiar a morte no equilibrismo é um jeito de celebrar a vida, ensina o artista francês

Luiz Zanin Oricchio, MANAUS, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2009 | 03h00

No dia 7 de agosto de 1974, Philippe Petit começou a dar os primeiros passos para entrar na história. Esses passos se deram sobre um cabo de aço estirado no espaço vazio entre os dois prédios do World Trade Center, em Nova York. A travessia foi clandestina e Petit, então com 24 anos, fez oito vezes o passeio entre um prédio e outro, a uma altura de 400 metros, até que, satisfeito, se entregou à polícia de Nova York que o esperava no terraço. A façanha está registrada no filme O Equilibrista, do inglês James Marsh, ganhador do Oscar de melhor documentário em março último. Petit, agora com 60 anos, veio pela primeira vez no Brasil. Chegou terça-feira como convidado do Amazonas Film Festival para integrar o júri de documentários.

Philippe Petit mora nos Estados Unidos desde a sua famosa travessia do World Trade Center. Tem uma pequena casa perto de Woodstock, "sem televisão". No dia 11 de setembro de 2001 foi muito procurado para dizer o que achava da destruição dos edifícios que o celebrizaram. A cada vez que o entrevistam, vê-se obrigado a responder a essa pergunta. Mas diz que tem dificuldade em comentar uma façanha pessoal diante das milhares de mortes que ocorreram no atentado. Prefere calar sobre isso. As torres gêmeas já não existem no mundo físico. São agora imagens onipresentes nas telas do cinema e da TV, cicatrizes de um trauma político. Já para Petit, têm a dimensão daquele famoso quarto de Manuel Bandeira, que continua em seu imaginário mesmo depois terem demolido a casa que o continha. Essa travessia famosa, emblemática entre todas as realizadas pelo equilibrista, já reproduzida no documentário vencedor do Oscar, vai ganhar novo tratamento cinematográfico, desta vez como ficção, num filme a ser dirigido por Robert Zemeckis com a técnica motion capture. Isto é, imagens de atores reais são captadas pela câmera e depois trabalhadas como se fossem um desenho animado. "Levaram um tempo para me convencer desse projeto, que não me interessava, mas depois acabei concordando", sorri.

Pergunto se já enfrentou desafio maior do que a travessia entre as torres gêmeas, e o que ele diz já começa a desenhar uma personalidade original. Esse francês pequeno, simpático, agudo, olha diretamente nos olhos do interlocutor e responde: "Isso não interessa tanto, de fato. Para mim todas as travessias são importantes, não gosto de estabelecer hierarquias entre elas. Já fiz mais de 80 pelo mundo todo, da Notre Dame em Paris ao Harbour Bridge em Sidney, na Austrália. Meu objetivo é outro, não é estabelecer recordes. Não dou a mínima para o Guiness Book". Sorri: "Embora eu esteja nele". As travessias servem para outros fins e talvez tenham valor mais simbólico do que real.

Petit não tem medo das contradições. São parte do humano, acredita. Desse modo, sabe muito bem que a façanha nova-iorquina lhe trouxe fama e, provavelmente, dinheiro. "Foi importante e não foi ao mesmo tempo; não posso ficar preso a esse tipo de coisa, pois a minha arte deve ter outra finalidade, é ligada ao teatro, à poesia..." À uma busca de tipo espiritual?, sugiro. "Precisamente", responde. Petit entende que o equilibrismo, pelo menos o do tipo que ele pratica, não é tanto uma profissão, mas uma maneira de viver. Em seus livros (tem oito publicados), e em entrevistas, não se cansa de usar sua arte como metáfora. A travessia sobre um fio é como uma representação da vida. Há um começo, uma progressão, um fim, e, se damos um passo em falso, o abismo se abre sob nós e acabou-se.

Para não dar esse passo em falso, o equilibrista, nascido em agosto de 1949, continua a treinar seis dias por semana, três horas por dia. Não há magia. Meu nome é trabalho, diz. Pergunto se, apesar de tanto treino, sente medo antes ou durante uma dessas exibições de risco. Petit não responde diretamente, mas diz que é um estudioso compulsivo de todas as variáveis envolvidas em um desafio. Cita um exemplo. Em 1989, durante a comemoração do bicentenário da Revolução Francesa, caminhou sobre o cabo de aço do Trocadéro ao segundo andar da Torre Eiffel. Na corda bamba e em caminhada ascendente. "Antes, pedi os relatórios da meteorologia sobre o regime dos ventos naquela região nos últimos 15 anos. Estudei tudo minuciosamente, como sempre faço." Conhecer o vento é fundamental.

MOMENTO DE PAZ

Depois de explicar como alia o conhecimento das condições atmosféricas ao domínio da técnica do seu equipamento, Petit diz: "Não existe medo nem ansiedade. Como confio inteiramente no equipamento, a minha travessia passa a ser um momento de paz, de serenidade, de iluminação interior. Sim, há risco. Mas o que me move não é um desejo de morte e sim um desejo de vida". A autoconfiança ajuda? Sim. Mas não se trata dessa autoconfiança banal, a dos grandes competidores, dos tubarões da vida, a dos livros de autoajuda. É uma autoconfiança que vem do conhecimento de que tudo é frágil e que a vida, com perdão do trocadilho, está sempre por um fio, e deve ser aproveitada no dia a dia.

Ele conta como começou na infância, quando procurava se equilibrar em tudo quanto era alto e perigoso, para desespero dos pais em Nemours, na região de Seine-et-Marne. A técnica, ele foi aprendendo sozinho. E agradece aos céus por não pertencer a uma família de malabaristas ou artistas circenses. Nesse caso, teria sido "treinado" de maneira adequada, praticado a tradicional ginástica de circo e terminado com um equilibrista talvez ótimo, porém convencional. Aprender sozinho forçou-o ao exercício da originalidade. E o levou a horizontes e desafios que de outra forma não enfrentaria. Sempre foi rebelde. "Com cinco anos já não confiava em nenhum tipo de autoridade", conta. Entendeu, então, que o dom (chamemos assim) que lhe fora concedido era uma espécie de ferramenta para conduzi-lo a algo maior. A tal da busca espiritual.

Pergunto se conhece A Arte Cavalheiresca do Arqueiro Zen, de Eugen Harrigel, texto que influenciou mais de um artista. Era, por exemplo, o livro de cabeceira do fotógrafo Henri Cartier-Bresson e o inspirou em sua teoria do instante decisivo, aquele momento vital em que se aciona a câmera e se capta a vida. O arqueiro não vê sua arte como um fim em si mesmo, mas apenas como meio para a construção do sujeito, um passo em direção àquilo que busca em seu ser mais profundo. Os olhos de Petit brilham. "Sim, sim, é isso mesmo. Sem querer compará-lo com esse livro maravilhoso, escrevi, aos 18 anos, um livro, também pequeno, e que vai na mesma direção, o Tratado do Equilibrismo (Traité du Funambulisme)." Sem falsa modéstia, Petit diz que não tem explicação para esse texto juvenil. "É uma grande temeridade escrever um tratado sobre uma arte quando se tem apenas 18 anos de idade e poucos de prática. No entanto, a cada cinco ou seis anos volto a esse livro para aperfeiçoá-lo, releio e não encontro uma vírgula para mudar."

Nada soa como automitificação, orgulho, ou vaidade - uma dessas peças que o ego prega à inteligência do sujeito. Há algo de muito intenso e verdadeiro nesse homem, uma integridade fundamental, um desejo sincero de ir ao cerne das coisas, como talvez tenha ido já em suas travessias e em seu primeiro e precoce livro. Vale citar outro exemplo de como ele se relaciona com a vida. Como todos os convidados do festival de cinema, Petit viajou por barco de Manaus a um hotel na floresta, três horas rio acima. Durante a permanência na selva, foi visto desenhando o tempo todo. As construções, o rio, os micos, as árvores, os pássaros. Na saída, estava parado sobre uma das pontes que ligam um bloco de apartamentos ao outro e que se sustentam sobre pilotis. Desenhava laboriosamente em seu caderno o emaranhado de palafitas que ficam expostas nesta época de seca, quando o Rio Negro baixa de nível. O desenho descobre nos pilotis um padrão geométrico invisível ao olhar desarmado. De um dos lados do desenho, vê-se o rabo de um macaquinho. "Por que desenha, se é mais fácil tirar fotos?" A resposta é límpida: "Porque se eu tirar fotos não vejo. O trabalho com o desenho faz com que a paisagem se interiorize". É a maneira de trazer o mundo exterior para o mundo interior. Outro tiro do arqueiro zen.

E o passar dos anos, esse passo em falso inevitável, que espreita o mais hábil e zen dos equilibristas, não o preocupa? Afinal, ele já completou 60 anos... Petit reconhece que existe um limite biológico para tudo. Mas acha que a velhice é mais uma invenção do superficial mundo moderno e seu culto frenético pela juventude. Há homens e mulheres de mais idade e no entanto cheios de vida, curiosos, dispostos a correr riscos e enfrentar desafios, abertos ao mundo. Enquanto isso, existem jovens já velhos, fechados em si mesmos, desatentos, ausentes, com seus iPods plugados nos ouvidos e computadores que os distanciam do mundo e dos outros. Quem pode dizer quem é mais velho? "Enquanto o cérebro estiver pensando e o corpo respondendo a ele, não vejo motivo para ter receio; mas é preciso estar atento..."

O VENTO FALA

Nesse ponto da conversa acontece algo estranho. Estamos a bordo do barco, de volta a Manaus. As águas do rio imenso parecem levemente onduladas, mas nada que cause preocupação. De repente, vem um pé de vento e ouve-se um barulhão: vários copos são varridos das mesas e se quebram no chão do barco. Menos o de Petit, cheio de suco de cupuaçu, que ele mantém preso à mão. "Esse vento não chegou sem mais nem menos; está vindo há uns dez minutos, mas ninguém presta atenção aos sinais da natureza."

Faço uma última pergunta, sobre a amizade que o liga ao Paul Auster, prefaciador de uma das últimas edições do seu Tratado do Equilibrismo. Auster, como se sabe, é alguém muito ligado à noção de acaso (um dos seus romances se chama A Música do Acaso) e ele, Petit, parece ser alguém que deseja prever todos os detalhes para evitar imprevistos. Como se entendem? "É a atração dos contrários", sorri. "O acaso e a necessidade se complementam."

Gentil, Petit pede licença e diz que deseja aproveitar o resto da viagem. Quer tempo para desenhar o rio, as margens, a floresta, Manaus que se vê ao longe. Quer trazer a Amazônia para dentro de si.

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