O grito do picho

Autor vê a pichação como fenômeno social que não se dá pela falta respeito ao outro, mas como uma forma de atrair o olhar do outro

GUSTAVO COELHO É DOUTORANDO EM EDUCAÇÃO, DOCUMENTARISTA E SE DEDICA À PESQUISA DAS CONTRIBUIÇÕES DAS ESTÉTICAS JOVENS. CODIRIGIU O DOCUMENTÁRIO LUZ, CÂMERA, PICHAÇÃO, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2012 | 03h10

Picharam a Praça Roosevelt logo após sua reinauguração? Pois bem, como já ouvi de um professor, será sempre mais difícil compreender a própria época em que se vive do que entender as transformações de épocas passadas. Somo a isso o desafio de se lançar à aventura de tecer possíveis compreensões sobre um momento com características de transição, e portanto, de crise, como este nosso. Crise não com a perspectiva apocalíptica mais conhecida da palavra, mas como condição temporária comum a todos os momentos de mudanças epistêmicas profundas.

Pelo que sinto, é o que estamos testemunhando já há algum tempo, mas como toda transformação, ela não se revela já dissecada, ela surge em pistas, pouco a pouco, por vezes de maneira sutil e por outras mais brutais, como essas recentes pichações na nova Praça Roosevelt que me impulsionaram à reflexão a que aqui me dedico. Acredito, então, que qualquer prática social, por mais aberrante que possa parecer, carrega em si as tramas sociais que estão em curso. Digo com isso que, para a compreensão social, nada do que é humano é vazio de sentido, e mais do que isso, é quando nada parece importante que tudo passa a sê-lo. Nesse sentido, vale lembrar que o incompreensível de hoje é o cânone de amanhã. Ciente, portanto, dessa relatividade das verdades, servir-se da moral, da legislação ou do constrangimento causado por determinada prática para analisá-la é um equívoco, já que se usa uma régua conhecida, criada pela lógica já sedimentada, para medir aquilo que é novo e desconhecido. Sem se dar conta, toma-se assim a óbvia incompatibilidade à régua como a medida exata que justifica seu descarte.

É assim, portanto, que, desde 2008 acompanhando a pichação, sinto-a como um dos fenômenos mais eloquentes quanto às mudanças de paradigma que estamos vivendo. Pois bem, neste rápido exame que farei aqui tentarei, assumindo um papel de advogado do diabo, atribuir ao picho, tão naturalmente esvaziado de seus sentidos, algumas características que me servem de intuição às transfigurações de nosso tempo. Uma das críticas mais comuns à pichação, talvez a mais natural por partir de uma das réguas mais bem arquitetadas pela modernidade, é a do desrespeito à propriedade privada, instituição herdeira do individualismo galopante dos séculos 18 e 19, marcada de forma indelével na centralidade que o Ocidente deu à autoria, à racionalidade e à sobriedade como ideais. Pois bem, ainda que a pichação acabe alvejando esse pilar, a reação contra ela é a acusação de ser justamente uma ação "individualista", uma vez que não "respeita o que é do outro".

Em todo caso, vejo em tal comum reação um resquício teimoso de uma maneira de pensar, que dá sinais de seu esgotamento, mas que diante do mundo que não a comporta mais, reage assim em tom forte. Penso isso, pois a episteme da pichação, pensada aqui como laboratório para entender a nova episteme em gestação no nosso tempo, me dá uma sensação oposta ao individualismo, sinto mesmo uma embriaguez de coletividade, um pluralismo desafiador à gestão de uma sociedade forjada no singularismo dissimulado sob o exagerado "respeito ao outro". Melhor dizendo, penso que esse avanço da modernidade no "respeito ao outro" pende a balança em direção a uma atomização individual e a uma consequente fragilização dos laços coletivos, gerando fragmentações sociais abissais. No entanto, nenhuma sociedade permite sua própria assepsia, tramando inconscientemente novas práticas de enlace social, que serão naturalmente ilegais numa lógica da legislação pró-fissura. Dou, portanto, esse sentido à pichação - pela tinta inesperada sobre o que é do outro, ela põe junto o que estava desgarrado, obriga a olhar ao lado nossos olhos acostumados a olhar à frente, e de maneira brutal, aponta, pelo que sinto, para um reatamento outrora perdido, mas que virá junto com nossos constrangimentos de quem foi criado sabendo bem o que é seu e o que é do outro.

Por fim, sugiro que vivemos uma aparente vontade de comunhão com o todo, protagonizada de maneira radical justamente pelos que ficaram, também de forma radical, interditados dos confortos frutos desse "respeito ao outro". A atração pelo perigo comum às juventudes, a perda de si e a aceitação da quase morte a cada fim de semana, reflete bem essa falência do indivíduo sóbrio e autônomo fruto da modernidade. Como me disse uma vez um pichador, "minha obra é do tamanho de São Paulo", dando mais um indício dessa coletividade de base que aponto aqui. Em suma, chamam de ególatras aquilo que, a meu ver, é a ameaça da coletividade ao individualismo, cujo choque não produzirá obviamente uma sociedade de pichadores, mas com o tempo, e após algumas cicatrizações, talvez isso que ainda está no ar vá se sedimentar em uma nova harmonização social de maior vitalidade e pluralismo. Surpreendentemente, suponho que, ao contrário do que parece, a pichação serve ao resgate da saúde coletiva da cidade.

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