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O Gugu da Noruega

O nome do primeiro ministro da Noruega, Jens Stoltenberg era praticamente desconhecido na semana passada. Mas agora está na boca do povo. Como teria sido ele repentinamente elevado às alturas, como num passe de mágica? Simples: tornando-se incógnito.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2013 | 02h12

Eis o que Jens fez. Disfarçado de taxista, rodou pelas ruas de Oslo, capital norueguesa. Pegou passageiros, conversou com eles, cobrou corridas. Enquanto isso, uma câmera oculta filmava as situações, para mostrar depois à população extasiada como seu premiê é uma pessoa simples, que sai do palácio para falar com o cidadão comum, perguntar diretamente a ele quais são suas angústias, seus sofrimentos, suas esperanças.

Belo paradoxo: para ficar conhecido no mundo inteiro, esse primeiro-ministro precisou lançar mão do anonimato. Foi necessário abandonar sua posição de premiê e se converter num taxista desconhecido, durante uma tarde inteira, para repentinamente ficar célebre. Claro que a encenação teve um objetivo político: dentro de alguns dias, em 9 de setembro, serão realizadas eleições legislativas na Noruega, e Jens Stoltenberg acha que seu estratagema vai lhe render milhares de entusiasmados votos.

É uma boa estratégia? Não parece. Jens será sem dúvida derrotado nas eleições. Primeiro porque seu partido, trabalhista, vem perdendo impulso; segundo porque a encenação não foi muito apreciada. É preciso dizer que foi mal concebida e mal executada. A oposição chamou-a de impostura. Segundo o jornal Verdens Gang, pelo menos 5 dos 14 passageiros foram selecionados e pagos (o que explica porque duas das jovens passageiras vistas no vídeo são belíssimas, sem dúvida modelos). Pior: o primeiro ministro é péssimo ator. Não conseguiu ser natural, a ponto de ser reconhecido por todos os clientes. Acabou até se metendo numa saia justa. Como dirige muito mal, uma senhora, ao descer do táxi, suspirou aliviada: "Enfim, ainda estou viva". Ao que o premiê respondeu candidamente: "É que não dirijo há oito anos". Deixou subentendido que há oito anos anda de carro com motorista. Para alguém que queria mostrar despojamento, nada mais estúpido.

A aventura, entretanto, ocorreu em terreno favorável. Os países do norte da Europa são reputados pela bonomia de seus líderes. Já ouvimos mil vezes que na Escandinávia os políticos e a realeza são discretos como os pequeno-burgueses. Em Copenhague, Estocolmo, não se vai a um supermercado sem tropeçar num rei, rainha ou princesa na fila do caixa para pagar seu maço de alho-poró e suas costeletas de porco. Dizem que a poderosa Angela Merkel, da Alemanha, também é assim. No fim da tarde, quando encerra o trabalho de administrar os destinos do mundo, ela mesma prepara o jantar; e quando se desloca não tem escolta policial. Que contraste com a França, onde o ex-presidente Nicolas Sarkozy dispõe de uns 15 policiais para garantir sua segurança e da sua bela Carla.

Um ministro nórdico usa o próprio carro. Já em Paris, quando um ministro entra no carro oficial o tráfego para, e quando parte, com sirenes uivando, é seguido por dez outros carros rodando alucinados.

Mas será que esses clichês têm fundamento? Duvido. Eu me surpreenderia se alguém da dimensão de Angela Merkel andasse sozinha, como uma pessoa comum. E gostaria de acreditar que o premiê da Finlândia pega bonde e fica na fila do cinema, porque assim nos disseram, mesmo sendo a Finlândia um país pequeno de 6 milhões de habitantes. Minha impressão é que esses reis e chefes de Estado modestos, grisalhos, invisíveis, são uma lenda, um mito. Aliás, se os líderes escandinavos fossem mesmo tão próximos da população, por que o premiê norueguês precisou ciar toda essa encenação para fingir ser igual a seus governados mais humildes?

Jens Stoltenberg não inventou nada. Desde a noite dos tempos, reis, chefes de Estados e deuses usam os mesmos ardis. Júpiter, rei dos deuses, disfarçava-se de pastor quando queria seduzir uma mortal. Uns usam disfarces para se fazerem amar pelo povo; outros, para descobrir segredos, articular massacres, enganar eleitores ou aumentar sua popularidade. Quando é preciso, todos se maquilam para se tornarem invisíveis, imperceptíveis. Maquiavel precisou criar um lugar de honra em seus tratados para o Incógnito, esse personagem fugaz, imortal, apto a assumir todas as formas.

Einstein foi mais longe ao afirmar que o acaso "é Deus passeando incógnito". O escritor francês Gustave Flaubert devolveu o incógnito à Terra e à História: "O incógnito é o traje dos príncipes quando viajam". Ele tem razão: o incógnito é um dos grandes atores mascarados da História.

Vejamos os antigos imperadores da China. Senhores da metade do mundo, eram invisíveis, governavam pela ausência. Das sombras, comunicavam sua vontade aos ministros por meio da vibração das cortinas atrás das quais se ocultavam. Chamou-se a isso "governar por trás da cortina". É assim que age o incógnito.

Harum al-Rashid, rei da Pérsia por volta do ano 800, foi um dos grandes monarcas de seu século. Presenteou o imperador do Ocidente, Carlos Magno, com um elefante de marfim. Oscilava entre a doce clemência e a cólera sanguinária. Preocupado em saber o que os súditos pensavam de sua grandeza, pôs-se em trajes de mendigo e andou pelo mercado de Bagdá para sentir o pulso do povo. Em seguida, voltando a seu palácio das Mil e Uma Noites, vestiu de novo a roupa de califa e foi amar uma de suas 2 mil mulheres.

Mais próximo de nós, em abril o presidente chinês Xi Jinping tomou um táxi em Pequim, incógnito. Conversou por 25 minutos com o motorista sobre a poluição nas ruas. A informação foi divulgada pela imprensa de Hong Kong. Os jornais de Pequim não publicaram uma palavra a respeito, sem dúvida para permitir a Xi Jinping reencenar seu pequeno ato no futuro.

Na França, Napoleão gostava de vestir-se como burguês. Segundo as memórias de seu criado Constant, perguntava às pessoas com as quais cruzava na rua o que pensavam do imperador. Um dia alguém lhe respondeu: "Toda a alta sociedade já dormiu com sua mulher, Joséphine de Beauharnais. Napoleão também, eu acho...".

Em março, o rei do Marrocos, Mohammed V, fez uma viagem à Costa do Marfim. Fantasiou-se de pastor nômade e foi ao mercado na capital, Abidjã. Com que objetivo? Escapar das enfadonhas recepções protocolares? Um encontro secreto? Mistério, e nada mais normal: o incógnito e o mistério caminham de mãos dadas.

Personalidades não políticas recorreram também ao incógnito, como Picasso. Foi o caso também de Victor Hugo, no século 19, cuja fama era tal que não podia sair de casa sem provocar furor. Ele também gostava de se fazer irreconhecível antes de sair. Mas como a modéstia não era seu forte, deixava que todos soubessem (o que é uma heresia em se tratando de passar incógnito). Os críticos se deliciavam. Eis um texto do escritor Jules Renard: "Disse a Tristan Bernard que Victor Hugo era obrigado a viajar incógnito e, apesar disso, encontrava seu nome escrito na parede das igrejas. Bernard respondeu: "Sim, mas só na sua segunda visita".

O incógnito às vezes coloca-se a serviço do medo. Em 1791, durante a Revolução Francesa, o rei Luís XVI tentou fugir. Na noite de 21 de junho, tomou uma carruagem com a mulher, ela também usando disfarce, o amante dela, o belo Axel de Fersen, e alguns lacaios. O rei usava roupas de criado, o que é lamentável. Os fugitivos levavam passaportes que os apresentavam como empregados de uma dama russa, a baronesa de Kirk. Quando pararam em Varennes para troca de cavalos foram reconhecidos e levados de volta a Paris. Mais tarde, depois de um processo ignóbil, Luís XVI foi morto na guilhotina, com Maria Antonieta.

Outro soberano que usou disfarce foi Pedro, o Grande, czar da Rússia, que assumiu o poder em 1694. Em 1697, ele deixou São Petersburgo incógnito, usando o nome de Pierre Mikhaïlov. Com esse nome, foi à Prússia estudar artilharia. Depois, foi para Amsterdã e Londres, onde trabalhou como operário na construção de navios. Quis aprender a profissão, pois seu sonho era dotar a Rússia de uma poderosa frota. Operário excelente, ele às vezes era reconhecido: não dava para passar despercebido, com seus dois metros de altura e sua força hercúlea. Pedro foi um grande czar, apesar de ser um homem impiedoso. Enviou sua mulher Sofia para a prisão perpétua. E ordenou que seu filho Alexis Petrovitch fosse açoitado até a morte.

O incógnito permite ignomínias. O imperador romano Calígula costumava sair à noite vestido de soldado para brigar com rufiões nas ruas sombrias de Roma. Um pouco mais tarde, Messalina, mulher do imperador Cláudio, tinha o hábito de vestir-se de prostituta à noite e ir para as tabernas seduzir e deixar esgotados os legionários que encontrava.

No terceiro dia após a morte de Jesus, dois discípulos caminhavam para o vilarejo de Emaús. Um homem aproxima-se deles, é Jesus. Não o reconhecem. Jesus faz-lhes perguntas. Eles dizem que estão tristes pelo que ocorreu com o Mestre em Jerusalém. Contam que mulheres foram à tumba, mas não encontraram o corpo. Quanto a eles, acham que Jesus está vivo, ressuscitado. Ao chegarem a Emaús, Jesus quer deixá-los, mas eles o retêm. "Fique conosco, a noite se aproxima, o dia acabou." Jesus aceita. No albergue, toma o pão e o abençoa. Os dois peregrinos, então, o reconhecem. Logo depois Jesus desaparece.

Essa é a beleza espectral do encontro de Emaús, quando a noite se aproximou e o dia acabou. Jesus está entre nós, em toda parte, invisível, incógnito. Trajado de príncipe, vagabundo, empresário, prostituta ou mendigo, ele se apresenta como uma sombra por trás do véu, atrás da cortina. É preciso interpretar essa sombra. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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