O herói que virou ditador

Robert Mugabe poderia ter sido um Mandela, mas tornou-se um Idi Amin

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2008 | 21h19

Quando criança, Robert Mugabe era um menino silencioso e pobre criado pela mãe, Bona, no país africano inventado pelo inglês Cecil Rhodes em 1888 e batizado a partir de seu nome, Rodésia. O pai, carpinteiro na pequena vila, abandonara mulher e filhos em 1934. Ano difícil, esse. Robert tinha 10. Seu irmão mais velho, Michael, morreu meses depois, quando bebeu veneno por acidente. Michael era inteligente e atlético, o ditador do Zimbábue lembraria anos mais tarde. Seu irmão era extrovertido. Robert não era nada disso. Não tinha amigos que não fossem os livros. Para sua principal biógrafa, a sul-africana Heidi Holland, esse foi seu principal traço, que se manteve pela vida e se aguça na velhice. É um homem ensimesmado, sem amigos.O Mugabe que salta das páginas do noticiário recente é um ditador brutal. Aos 84 anos, não tem pudores de virar uma eleição que evidentemente perdeu, de prender seu opositor ou de cuidar para que a polícia secreta torture ou mate cabos eleitorais e fiscais das eleições. É quase tentador apresentá-lo como um ditador africano caricatural, um tipo selvagem como Idi Amin Dada. Mas ele é um personagem mais complexo, um homem que poderia ter sido um Nelson Mandela e em algum momento, mudou. "Era um sujeito decente", lembra Holland, autora de Dinner with Mugabe.A mãe de Mugabe teve esperanças de ser freira, mas isso nunca se concretizou. Na ausência do pai, o menino feito chefe de família recebeu toda a educação do padre jesuíta irlandês Jerome O?Hea. Viviam juntos, padre e menino, ele sempre atento. O futuro ditador lia. Lia em sala de aula ou enquanto esperava a caça que serviria de almoço cair nas armadilhas no bosque. Passou a infância tímido, sem brincar, lembraria anos depois seu irmão caçula, Donato.Holland conheceu Mugabe em 1975, quando ele acabara de ser libertado. Ela era mãe de um bebê recém-nascido na Rodésia, uma branca engajada no projeto de direitos para os negros. Mugabe era um dos líderes em ascensão do movimento negro anticolonialista, um guerrilheiro intelectualizado e charmoso que estivera preso por dez anos. Ela ofereceu sua casa para um encontro secreto no qual Mugabe estaria presente. O país tinha um ditador branco a essa época, Ian Smith, que prometia um regime que excluiria negros para todo o sempre. A Holland, Mugabe pareceu um homem firme, porém gentil, que tinha pressa em pegar o trem que o levaria para o exílio em Moçambique. Preocupada com ele e com o filho dormindo no berço, ela guiou freneticamente conduzindo Mugabe pelas ruas da capital naquela madrugada. Só pensava no bebê sozinho.No dia seguinte, Mugabe ligou para agradecer a boa recepção e perguntou por seu filho. Ele parecia preocupado.A pressão da guerrilha fez o governo de Ian Smith definhar até não agüentar mais. Em 1979, o governo britânico convidou as partes a combinar um cessar-fogo para realizar conversas. Passaram quatro meses trancados em Lancaster House, no centro de Londres. Quando Mugabe saiu de lá, tinha um tratado de paz nas mãos que anistiava todos e convocava eleições. Em menos de um ano, num pleito democrático, se elegeria primeiro-ministro. Aos olhos do mundo, o país que nascia das cinzas da Rodésia, o Zimbábue, era um dos mais ricos da região, o maior produtor de alimentos da África. E seu líder era a promessa de anos melhores para todo o continente.Muitos analistas se digladiam com a lenta mudança ocorrida ao longo dos anos. O que terá feito mudar o premiê e depois presidente democrata do Zimbábue nos anos 1980 para transformá-lo no ditador dos 90? Há três momentos. O primeiro baque veio com a libertação, em 1990, de Nelson Mandela, na vizinha África do Sul. Repentinamente, Mugabe não era mais o símbolo dos direitos negros. Então, em 1993, morreu sua mulher e confidente, Sally Haifron. E, em 1997, houve a ascensão ao governo britânico de Tony Blair.Um dos itens do Tratado de Lancaster House é que, por pouco mais de uma década, o governo do Zimbábue não mexeria na estrutura agrária do país, predominantemente nas mãos de brancos. Aí, com dinheiro cedido pelo ex-colonizador, indenizaria os fazendeiros e faria uma reforma agrária. Os governos conservadores de Margaret Thatchet e John Major empurraram a questão do dinheiro sem jamais resolvê-la. Quando chegou a vez de Blair, ele tratou de comunicar que não pagaria.Robert Mugabe, a essas alturas, já era um ditador ensimesmado e paranóico que deixava livre, pelas noites, sua polícia secreta. A quem o entrevistasse, reclamava de Blair. Ao povo, o ditador fazia discursos na sua língua nativa, shona, mas também em inglês. Aos ministros, exigia que se portassem como gentlemen britânicos. Prezava a amizade com a rainha. E foi se isolando. Em 2000, permitiu que o povo revoltado começasse a tomar as fazendas. "Não é que consideremos a expulsão dos fazendeiros legal", ele disse. "Mas a terra é dos negros e Tony Blair não nos paga." Sem saber como tocar a indústria agrícola, a produção do celeiro da África despencou. O Zimbábue tem hoje a maior inflação do mundo.Seu título de sir da coroa britânica foi revogado na semana passada. Também perdeu, nos últimos meses, os títulos honorários de doutor das Universidades de Edimburgo e de Massachussetts. Eram símbolos que prezava: ser um gentleman da corte de sua Majestade e um intelectual reconhecido. Robert Mugabe está acuado.No ano passado, sua biógrafa o encontrou pela segunda vez. Teve a impressão de que ele cria a própria realidade e teme como será lembrado pela história. O ditador tem medo.

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