O Holocausto chique de Hollywood

Uma moratória a esse genocídio talvez evitasse sua contumaz exploração pela máquina de entretenimento

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2009 | 23h08

Que tal dar um descanso ao Holocausto? Não negá-lo, como certos cretinos ainda o fazem. Nem esquecê-lo, pois um genocídio daquela proporção não pode ser esquecido, sob pena de incentivar novos crimes contra a humanidade. Apenas submetê-lo a uma, digamos, moratória. Talvez assim conseguiríamos inibir o seu uso inapropriado, e eventualmente torpe, nas discussões sobre a política externa israelense e sua contumaz exploração pela máquina de entretenimento. Até um musical ambientado em campo de concentração nazista, Imagine This!, já ousaram produzir. E A Escolha de Sofia já rendeu uma ópera. "Quem quer que se aventure a fazer arte sobre a morte de milhões de pessoas deve antes se perguntar se sua obra acrescentará alguma novidade ao muito que já se sabe sobre o assunto", recomendou o crítico cultural Norman Lebrecht, depois de ler o romance de Bernhard Schlink que deu origem ao filme O Leitor. "Se a resposta for não", prosseguiu Lebrecht, um novo caso de exploração comercial e emocional do Holocausto está a caminho. Se a resposta for sim, há que se esclarecer o teor da novidade. Ele não gostou nada das novidades que Schlink acrescentou à tragédia do Holocausto. Se filmes como A Escolha de Sofia, A Vida é Bela, A Lista de Schindler, O Menino do Pijama Listrado carregam o estigma da exploração emocional do Holocausto, sobre espetáculos como O Leitor e Operação Valquíria recai outra acusação: oferecer uma visão perigosamente revisionista da Alemanha nazista. Revisionista e glamourizada - ou a bela e sensual Kate Winslet não seria a estrela do primeiro, nem Tom Cruise, o astro do segundo. "Hollywood inventou o Holocausto Chique", proclamou um crítico de Los Angeles, quando da estreia, há dois meses, de Um Ato de Liberdade (Defiance), com Daniel Craig fugindo da máquina nazista pelas florestas polonesas e bielo-russas, na companhia de dois irmãos. "Schlink desculpou o indesculpável", denunciou Cynthia Ozick, referindo-se à redenção de Hanna, a protagonista de O Leitor, através da cultura livresca. Usar a ignorância de uma impenitente guarda de campo de concentração como metáfora da amnésia alemã pareceu-lhe uma exorbitância. Desde quando o aprendizado das letras pode nos redimir de crimes inexpiáveis? Se conhecer Homero, Goethe e Tchecov criasse uma barreira contra o mal, Hitler, que muito leu antes de virar führer, não teria inventado a Solução Final. Mesmo na Alemanha, onde foi publicado em meados da década passada, O Leitor recebeu críticas severíssimas; assim como o filme Operação Valquíria, que até o velho nouveau philosophe Bernard-Henri Lévi arrastou para uma polêmica nas páginas da revista Le Point. Mas nos Estados Unidos a grita foi maior. Principalmente por causa do tratamento dispensado ao comportamento dos alemães durante os mil, perdão, 12 anos do Terceiro Reich. "Não precisamos de um filme que isente o povo alemão de cumplicidade no extermínio de judeus e humanize seus carrascos", protestou o estudioso do nazismo Ron Rosenbaum. "A tese de que qualquer um de nós pode tornar-se um genocida é absurda. O Holocausto não foi um surto, mas um genocídio planejado, e sua normalização é inaceitável", emendou Lebrecht, que reservou sua artilharia mais pesada para o cartapácio de Jonathan Littell, As Benevolentes, supino exemplo do Holocausto Chique traduzido pela Alfaguara em 2007 e só agora editado nos Estados Unidos. Quanto aos bravos e bondosos oficiais nazistas que se opuseram a Hitler e sua louca obsessão antissemita, a ponto de tentar matá-lo num atentado, em 20 de julho de 1944, um grão de sal, bitte. Os oficiais da Wehrmacht envolvidos na Operação Valquíria só levaram seus planos adiante porque em julho de 1944, um mês depois da invasão da Normandia pelos Aliados, a guerra parecia perdida. Três anos antes, teria feito diferença, como gesto e, se dado certo, como ação política. Mais corajosos e sinceros foram os estudantes de Munique que, sob a sigla Rosa Branca, lutaram na clandestinidade contra o nazismo, boicotando o que podiam e escondendo judeus onde era possível. Sem a menor intenção de salvar o Reich da debacle, a intenção primeira dos oficiais liderados pelo coronel Claus von Stauffenberg. Brutalmente executados em 1943, os integrantes da Rosa Branca bem mereciam um filme de peso. Da mesma forma que outros heróis da resistência alemã, como os oficiais Hans Oster e Hans von Dohnanyi, que se rebelaram em 1938, e o marceneiro Georg Elser, que planejou matar Hitler cinco anos antes da Operação Valquíria, e quem mais fizesse jus a uma dramatização no índice remissivo de um estudo do finado Joachim Fest, La Résistance Allemande à Hitler, recém-lançado na França pela Broché. Infelizmente, a badalação em torno da Operação Valquíria (que já havia inspirado um filme alemão de G.W. Pabst, em 1955) ofuscou todos eles.Henri-Lévi queixou-se da escolha de Cruise para o papel de Von Stauffenberg por suas ligações com a Cientologia. A seita a que o ator pertence e defende com fanatismo tem lá seus pontos em comum com o nacional-socialismo (a visão apocalíptica do mundo é de somenos), mas incongruência maior é a santificação do coronel, nazista de carteirinha desde 1933 e figura de proa na invasão da Polônia em 1939. Só mesmo o Holocausto Chique seria capaz de alçar Von Stauffenberg ao pedestal dos autênticos mártires do nazismo.

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