O homem que desafiava

George McGovern, vencido por Nixon, era duro, corajoso e especialista em contrariar as probabilidades

THE NEW YORK TIMES - BRUCE MIROFF É PROFESSOR DE CIÊNCIAS POLÍTICAS NA UNIVERSIDADE DE NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2012 | 03h10

BRUCE MIROFF

Todos reconheciam a decência de George S. McGovern. Para Robert F. Kennedy, ele era "o homem mais decente do Senado". Mas, durante a campanha presidencial de 1972, analistas políticos deduziram que um homem assim tão bom possivelmente não seria o líder firme de que os americanos necessitavam. Poucos achavam que ele seguiria em frente depois das primárias iniciais.

McGovern, morto há uma semana aos 90 anos, era de fato decente. Mas sob aquela aparência gentil havia um homem ambicioso, duro e corajoso, que durante toda a vida desafiou a lei das probabilidades.

Vencendo o medo de voar, ele participou como piloto de 35 missões de bombardeio a alvos alemães na 2ª Guerra Mundial, escapando por pouco da morte diversas ocasiões. Reconstruindo um Partido Democrata moribundo no Estado conservador e profundamente republicano de Dakota do Sul, ele organizou sozinho uma base política que lhe propiciou dois mandatos na Câmara e três no Senado. Desafiando um presidente que admirava e o havia indicado para dirigir o programa Alimentos para a Paz, foi dos primeiros no Senado a criticar as medidas políticas adotadas por John Kennedy para o Vietnã e Cuba.

Considerado azarão no início da campanha de 1972, com 1 chance em 200 na disputa pela candidatura democrata à presidência, ele liderou uma insurgência extraordinária que derrotou figuras do establishment como o senador Edmund S. Muskie e o ex-vice-presidente Hubert H. Humphrey, obtendo a indicação do partido. Mas sua força acabou - e a campanha fracassou - ao se deparar com um adversário mais hábil e mais implacável na figura do presidente Richard Nixon.

A campanha de McGovern em 1972 estará associada eternamente aos movimentos de massa do final dos anos 1960 - sobretudo o pacifista, mas também o feminista e o nascente movimento pela liberação gay. O fato de ser filho de um pastor metodista e ter vivido em pequenas cidades do interior durante a Depressão o tornariam um improvável porta-voz das aspirações políticas e culturais de uma "contracultura" emergente. Mas mesmo assim os ativistas olhavam com simpatia aquele "quadradão" de Dakota do Sul.

A experiência de McGovern na guerra o deixou com um horror permanente dela e indignação com os guerreiros de gabinete que enviavam jovens para morrer. Seu senso de justiça e tolerância fizeram dele uma pessoa aberta às novas forças culturais que nada tinham a ver com a educação que recebera, mesmo quando alguns dos novos temas levantados (especialmente o aborto) o incomodavam.

Como outros candidatos à presidência de ontem e de hoje, McGovern se dispunha a abandonar posições quando a campanha começasse a enfrentar problemas. Ao contrário, porém, de muitos candidatos, tinha um critério moral que não abandonava, mesmo que prejudicasse suas ambições. Durante um discurso de campanha no fundamentalista Wheaton College, em Illinois, ele exortou o público a chorar não só pelos americanos mortos no Vietnã, mas pelos vietnamitas vítimas das ações militares americanas. A indiferença com relação às mortes de vietnamitas o inquietava e ele insistia para que os americanos encarassem a própria responsabilidade pelas consequências da guerra e mudassem "aquilo do nosso caráter que nos desviou do caminho e nos afastou da verdade de que os vietnamitas são, como nós, filhos de Deus". Palavras como essas levaram os críticos a acusar McGovern de "moralista ranzinza enfurecido com seu país".

A moral de McGovern era antipolítica e contribuiu para sua derrota ante Nixon. Até seus últimos anos ele lamentou o fato de tantos americanos jamais terem admitido a culpa coletiva nacional nem aceitado viver de acordo com os ideais ancestrais da nação. Seus discursos de campanha em 1972 (disse-me ele) não eram de raiva contra os EUA, mas de amor pelo país.

Políticos arrasados nas urnas raramente entram para o imaginário das gerações posteriores. Com McGovern isso não aconteceu: os conservadores continuaram a usá-lo como símbolo das loucuras do liberalismo, e os liberais como memória viva das aspirações de paz e justiça social forjadas nos anos 1960. Especialmente na ala liberal do Partido Democrata, o principal legado da campanha de McGovern foi um novo sentimento sobre o papel dos EUA no mundo, refletido no movimento pelo fim da corrida nuclear e de oposição às intervenções americanas na América Central nos anos 1980 e no Iraque em 1991 e 2003. Nas décadas que se seguiram à sua derrota, McGovern continuou a campanha em defesa de uma política externa americana menos agressiva, ao mesmo tempo que dedicava muito de seu tempo ao combate à fome no mundo.

As feridas de 1971 não cicatrizaram, mas foram aliviadas pelas cartas de admiração de antigos seguidores que nunca deixaram de chegar. O que seus partidários mais se lembram é da clareza moral de seu caráter e visão. Que pode ter lhe custado a eleição de 1972, mas foi a principal fonte da afeição que tantos americanos - nem todos liberais - lhe dedicaram. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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