Faculdade Zumbi dos Palmares
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'O Homem que Odiava Machado de Assis' ficcionaliza vida do escritor

Vencedor do prêmio Sesc com 'Última Hora', José Almeida Júnior trabalha com as lacunas da biografia do Bruxo de Cosme Velho

Ieda Lebensztayn*, Especial para o Estado

15 de agosto de 2019 | 11h00

“Faltava-lhes estilo, que é uma grande lacuna nos escritos do Sr. Sílvio Romero; não me refiro às flores de ornamentação, à ginástica de palavras; refiro-me ao estilo, condição indispensável do escritor”, observa Machado de Assis em A Nova Geração. Fatalmente não agradou a Sílvio Romero tal crítica, segundo a qual seu pensamento não encontrava forma para romper do cérebro. E Machado ponderava que, enquanto os medíocres respondem a objeções com impropérios, os talentosos o fazem com o silêncio. Eis que Romero dedicou Machado de Assis: Estudo Comparativo de Literatura Brasileira para lhe desmerecer a arte e exaltar Tobias Barreto. Ante esse disparate, Machado conclui, em carta a Magalhães de Azeredo, que a injustiça em meio a elogios ensina a “virtude da humildade”. Consciência dos limites, a humildade supera a arrogância, indigna e vã. 

Mas quem diria que alguém odiaria Machado de Assis tanto ou mais que Sílvio Romero e seria insuflado por este a publicar um livro de memórias para dessacralizar nosso grande escritor? Pois bem: José Almeida Júnior, vencedor do prêmio Sesc com Última Hora, ora lança O Homem que Odiava Machado de Assis, em que empresta a pena ao pretenso romancista Pedro Junqueira, cujo propósito na vida era tirar a Machado o amor de Carolina e a glória literária. Aos leitores, sobretudo aos machadianos, sobrará indignação para com esse narrador em primeira pessoa: ele ousou engravidar e abandonar Carolina no Porto, causando a morte de seus pais e o aborto do filho; e a fez, depois do sofrimento, ter uma recaída em seus braços no Rio de Janeiro, traindo o marido Machado. Mais do que isso, Pedro torna Machado traído ao acusá-lo, para Carolina, de traidor, chantagista e plagiador de suas memórias nas de Brás Cubas – valha-nos, defunto autor! 

Assim, o talento inventivo de Almeida Júnior, aliado a seu conhecimento da história do Brasil, encontrou nos estudos da vida e da obra machadiana matéria fecunda, com base na qual criou uma narrativa que nos desperta o riso e o desejo de saber mais sobre o contexto histórico e a ascensão do menino do morro do Livramento. Pressupondo e estimulando a leitura de obras biográficas, de Alfredo Pujol, Lúcia Miguel Pereira, Magalhães Júnior, Viana Filho, Jean Michel Massa, o romance nos possibilita deparar com as figuras, recriadas como personagens, de Machado, Carolina e seus irmãos Faustino e Miguel de Novais, Romero, Artur Napoleão, Joaquim Nabuco, e circular em cenários como a rua do Ouvidor, a livraria Garnier, o teatro Alcazar, o cais Pharoux.

O olhar vingativo contra Machado vem já na abertura do romance: Pedro e Romero destilam inveja ante o enterro do autor do Memorial de Aires, que teve as presenças de Rui Barbosa, Euclides, José Veríssimo, Mário de Alencar, Bilac. Num convite da Faro Editorial à leitura, esse capítulo figura num folheto que acompanha o livro de Almeida e simula O Corsário, jornal sensacionalista cujo dono foi assassinado. Tal periódico estampou em 1883 uma nota que satirizava Machado como amante da atriz Inês Gomes. Reproduzida parcialmente no folheto, a nota tem a função, no romance, de reaproximar Carolina e Pedro, e de desnudar-lhe a tibieza de caráter. Ele é infame como um trocadilho atribuído a Machado: gago, teria chamado Inês, saída do banho, “inês… gotável”.

Se aprendemos com o Bruxo e sua fortuna crítica a duvidar de narradores, rimos quando Pedro acusa Joaquim Maria de o invejar desde criança. Dada a precisa construção do protagonista, logo nos afastamos dele, que trata, com desprezo, como “mulato” o menino de inteligência notável que já declamava poemas enquanto ele, branco e rico, mal sabia ler. E vemos o desamparo afetivo desse colega de classe de Brás Cubas, rancoroso de seu estilo: grande cafeicultor em São Paulo, o pai de Pedro o deixara para ser criado no Rio e, de longe, definira que ele estudaria Direito em Coimbra e o sonhava deputado federal no Brasil. Na ficção de Almeida Júnior, justamente uma página das Balas de Estalo machadianas, sob o pseudônimo Lélio, vai desmascarar a falta de caráter de Pedro – o pseudoabolicionista, proprietário de mais de mil escravos –, liquidando suas pretensões de ser deputado e obrigando-o a fugir para Portugal.

Sobressai a representação do advogado malformado na Europa que, embora às voltas com a Lei do Ventre Livre, vivia às custas do pai escravocrata, no ócio. Destaca-se a sequência quando da morte do pai: o abraço comovido da babá ex-escrava enoja Pedro; anacrônico e atual, cômico se não fosse trágico, seu discurso louva o escravocrata por ter oferecido “trabalho digno e humano” a tantos e contribuído para “um país melhor”. 

“Cordialmente, execrava-as”: três palavras do conto Primas de Sapucaia!, que relativiza infortúnios e benefícios, podem traduzir a atitude de Machado ante as mediocridades que o cercavam. Num mundo de violências de coração, temos o paradoxo de apreciar O Homem que Odiava Machado de Assis e, assim, gostar mais ainda do Bruxo.

*IEDA LEBENZSTAYN É CRÍTICA LITERÁRIA, COM PÓS-DOUTORADO NA USP. ORGANIZOU, COM HÉLIO GUIMARÃES, ‘ESCRITOR POR ESCRITOR: MACHADO DE ASSIS SEGUNDO SEUS PARES’

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