O homem que se alimenta de pressão

O sérvio Novak Djokovic carrega o duplo fardo de ser o tenista nº 1 do mundo e sofrer ameaças de morte de extremistas étnicos

EL PAÍS , O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2011 | 03h07

LOLA GALÁN

Dessa vez não houve flashes, câmeras e multidão no aeroporto de Belgrado. Novak Djokovic, Nole, voltou praticamente incógnito a seu país em meados de setembro, levando a taça do Aberto dos Estados Unidos e a missão quase impossível de evitar a derrota da Sérvia nas semifinais da Copa Davis. Não conseguiu. O melhor tenista do mundo estava esgotado, desconstruído, e ninguém criticou sua saída. Na Sérvia, um país de 8 milhões de habitantes, estigmatizado pelas guerras fratricidas dos anos 90, Novak é um deus, e sua imagem, um poderoso trunfo para mostrar em anúncios de televisão, peças publicitárias, informativos, um sem-número de campanhas cívicas promovidas pelo governo. É como se todo um país de repente gravitasse nos ombros do jovem tenista de 24 anos que assombrou o mundo com uma temporada espetacular.

De janeiro para cá, Nole conquistou dez títulos (três de Grand Slam), ganhou US$ 10,6 milhões em prêmios e venceu 66 de 69 partidas jogadas. No começo do ano era um "número 3", com grande potencial, mas ainda uma dúvida, de atuação irregular. Em julho era indiscutivelmente o número 1. O tenista talentoso, mas inseguro, que acumulava erros e falhas, tornou-se de repente um jogador perfeito, incansável, com um saque confiante e uma devolução endemoniada. Um tenista real com velocidade de personagem de videogame.

"Novak amadureceu, calcula cada passo na quadra como um computador e não se precipita mais como antes, quando queria acabar rapidamente com o rival", explica por e-mail Slobodan Zivojinovic, ex-tenista e presidente da Federação Sérvia de Tênis. Uma mudança que levou o ex-número 1 Jimmy Connors a afirmar: "Ele deveria engarrafar o que lhe proporcionou essa forma e vender". Renunciar a alimentos com glúten (descobriu que é intolerante), dispensar o vinho, submeter-se a duríssimos treinamentos físicos e a uma severa disciplina mental contribuíram para a mudança.

Aos 24 anos, completados em maio, como Novak administra a pressão de estar na cúpula do tênis mundial? "A fama não o intimida. É um verdadeiro showman que cresce diante das massas", diz Nenad Zimonjic, tenista de 35 anos, número 3 no ranking de duplas, que jogou algumas partidas com Djokovic. Mas Novak é também um cristão devoto, que leva sempre na carteira uma imagem do arcanjo São Gabriel, patrono de sua família, e uma pulseira com o nome de dez santos para os quais reza antes de cada partida. Em Kosovo, suposta pátria sagrada dos sérvios, o tenista contribuiu com dezenas de milhares de euros para a causa servo-ortodoxa, com ajudas ao mosteiro de Gracanica ou às igrejas de Hilander e dos Santos Arcanjos em Pizren. Um gesto pelo qual a Igreja Ortodoxa Sérvia o recompensou outorgando-lhe sua maior honraria, a Ordem de São Sava.

Nole vive em Monte Carlo, longe do fisco sérvio, como tantos atletas de elite. Mas essa distância não mudou seu coração. Seu pai, Srdjan, um ex-jogador de futebol e ex-esquiador, é de Zvecan, uma pequena cidade no norte de Kosovo, e criou seu filho no amor da Sérvia. Novak não o decepcionou. Depois que o governo em Pristina proclamou a independência em fevereiro de 2008, Novak visitou a região e reafirmou sobre o terreno que Kosovo é parte da Sérvia. Isso lhe valeu uma ameaça de morte de extremistas kosovares albaneses que lhe obriga a se movimentar com uma escolta policial cada vez que ele chega a seu país. Uma amarga experiência que o levou a evitar declarações políticas. Agora, ele se expressa com a raquete. Cada vitória na pista é um tributo à Sérvia.

"É verdade. Novak é um anjo para 99% dos sérvios, um verdadeiro um ícone, alguém que lhes dá alegria", diz Nebojsa Mandrapa, jornalista esportiva de Belgrado. "Neste país, empresários falam sobre Djokovic em seus almoços, vendedores discutem seu revés no mercado e crianças o imitam na escola. Esta é Novaklandia, e nós amamos isso."

Além de um ídolo, ou talvez graças a isso, Novak é uma marca lucrativa. A marca efetivamente gerenciada por sua família. Srdjan, seu pai, um cinquentão, e Dijana, sua mãe, um pouco mais jovem, são o rosto visível da Família Esportes, uma empresa de eventos esportivos e buffet criada em 2005, e que hoje emprega mais de 150 pessoas.

Com a ajuda de dinheiro público, levantaram a Novak Djokovic Tennis Center, que acolhe o Sérvia Open, um master 250 dirigido pelo tio do tenista, Goran, de 47 anos. Há também um restaurante, um spa, um museu com todos os troféus conquistados até agora por Nole e uma loja onde é possível comprar o mesmo equipamento usado pelo jogador. Os Djokovics são os distribuidores das raquetes Head para vários países do sudeste da Europa e das roupa de Sergio Tacchini, a empresa que veste o seu filho desde janeiro de 2010, uma vez que a Adidas, em uma das piores decisões possíveis, decidiu patrocinar Andy Murray no lugar do sérvio.

Exageros de mãe. Seu novo status como o número um do tênis mundial mudou algumas coisas. No US Open, não se viu a sua família no camarote de convidados. Seus pais e irmãos, (Marko e Djordje, 20 e 16 anos respectivamente, dois tenistas em formação), durante anos a torcida mais ruidosa e expressiva do circuito, capazes de aparecer uniformizados com as mesmas camisas que veste Nole ou com sua foto impressa, deram lugar convidados mais discretos, como sua namorada, Jelena Ristic, uma beleza de 24 anos. Os que estão no entorno do tenista negam que ele tenha se afastado da família. Seus pais têm outros dois filhos com quem se ocupar, isso é tudo. Mas também não parece razoável supor que o número um, obcecado por construir uma reputação internacional, não queira interferências da família. Nem explosões de júbilo como teve sua mãe após seu triunfo em Wimbledon, quando soltou para os jornalistas: "Em quatro anos só se ouvia Roger, Rafa, Rafa, Roger; agora é Novak, Novak, Novak, Novak".

Era uma exclamação compreensível, porque os Djokovics lutaram ferozmente para levar seu filho ao topo. A carreira de Novak passou a ser também a deles desde que, em 1993, a veterana jogadora sérvia Jelena Gencic descobriu as qualidades do menino quando ele tinha apenas seis anos. A família Djokovic - a mãe, professora de esqui; o pai, esquiador - dirigia uma pizzaria, uma loja de esportes e uma galeria de arte nas montanhas de Kopaonik, um encrave turístico situado no sul da Sérvia. Ali, em umas quadras de tênis precárias, foi gestado o futuro de Nole.

A família se empenhou para que o garoto se desse bem. Novak era um diamante bruto que somente precisava ser polido. Foi um trabalho duro. Na primavera de 1999, com Belgrado submetida a contínuos bombardeios da OTAN, o menino treinava como dava. Djokovic lembrou em uma entrevista a dureza daqueles tempos, quando a família vivia em um apartamento de 60 metros quadrados que tremia inteiro sob o despejo das bombas.

"Quando eu o conheci, ele era treinado por Marko Nesic no clube Partizan", conta o tenista Nenad Zimonjic em conversa telefônica desde Belgrado. Novak apontou caminhos. "Dois anos depois eu bati bola com ele algumas vezes e jogamos juntos partidas de dupla na Copa Davis." Zimonjic experimentou plenamente as dificuldades dos anos 90, com o desmantelamento da antiga Iugoslávia e o governo de Belgrado se convertendo em um pária internacional. "Eu não podia ir aos campeonatos europeus de tênis", disse. Um país sem qualquer infraestrutura para a modalidade, pequeno, aviltado. E, ainda assim, graças a Nole, "o tênis é hoje o esporte mais popular entre os sérvios". Não é pressão demais para Nole sentir o peso de um país inteiro nas costas? "Ele foi educado para isso. Passou 20 anos se preparando para ser o número um."

Objetivo: Hollywood. Novak despontou em 2006, já com o atual treinador, o eslovaco Marian Vajda. Desde então, o progresso do tenista foi meteórico, mas não isento de altos e baixos. Durante anos ele viveu obscurecido pela sombra de dois gigantes: o suíço Roger Federer e o espanhol Rafael Nadal. Até que em 2011 o mundo "descobriu" Djokovic reclamando um lugar de estrela do tênis. O novo Novak chegou para ficar. E para isso está disposto a burilar sua personalidade, a suprimir todos os excessos, mas sem renunciar a sua tradicional desenvoltura. Ele quer conquistar o mundo, reinar, e não só no microcosmos do tênis. Seu tio Goran buscou uma nova empresa de relações públicas, a de Edoardo Artaldi, para relançar a imagem do tenista, e contratou os serviços do magnata americano Ron Burkle, diretor da Yucaipa Companies, uma empresa de investimento privado, e um tipo bem relacionado nos mundos da música e do entretenimento. Hollywood, o sonho de Djokovic, poder ser o objetivo final. A Sérvia está em seu coração, mas faz muito tempo que se tornou pequena.

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