O homem que se lixava

Frase de Sérgio Moraes implica uma espécie de moral própria, que talvez mortais comuns não tivessem coragem de propor

Sírio Possenti, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 23h15

O deputado Sérgio Moraes, do PTB do Rio Grande do Sul, tornou-se celebridade nacional por ter proferido uma frase notável: "Estou me lixando para a opinião pública". O contexto da declaração era de turbulência, seja ele tomado em termos restritos, seja em termos um pouco mais amplos.

A frase é notável no contexto restrito, já que o deputado falava à imprensa depois de antecipar de alguma forma seu parecer sobre o processo que relataria no Conselho de Ética sobre as patranhas de um colega, um deputado que ficou famoso pelo castelo caro e de mau gosto que construiu no interior de Minas e não constou nas suas declarações de bens à Receita. Também é notável no contexto mais amplo, já que os congressistas estão na berlinda desde a eleição interna de fevereiro, data a partir da qual se acumularam informações sobre os usos nada públicos dos dinheiros públicos. Também em contexto amplíssimo, na verdade, já que se desconfia dos políticos desde sempre. É por ocupar um lugar especial nesse pano de fundo variado que ela teve enorme repercussão.

Por que a frase pegou? Por que, segundo o Google, há 33 mil páginas sobre a frase, que a repetem, comentam, criticam, parodiam, etc., se ela tem menos de duas semanas? E por que exatamente ela, entre tantas que a imprensa destaca em suas publicações - frases do dia, frases da semana?

Primeiro, é preciso recordar um fenômeno comum e bastante velho, no qual esse acontecimento se encaixa: desde sempre, frases foram destacadas tanto de seus contextos quanto dos textos em que ocorrem. É absolutamente verdadeiro, sem dúvida, que jornais e mesmo conversas quotidianas, mas também teses e ensaios, descontextualizam partes de falas, declarações, pronunciamentos. Não adianta apelar contra isso para defender-se.

O que deve ser verificado, portanto, não é se há ou não há abandono do contexto da declaração, mas por que, de tudo o que o deputado disse (para ficar no caso), a frase que fez fortuna foi "estou me lixando para a opinião pública" e não "a gente se reúne em casa e decide o que cada um vai ser" (ele nos contava como a família decide quem da família se candidata a qual cargo). Provavelmente, a explicação é parecida com a que se pode dar das razões pelas quais é "ser ou não ser, eis a questão" a frase de Hamlet que todos conhecemos, ou por que de Os Sertões, mesmo sem lê-lo, todos recitam "o sertanejo é antes de tudo um forte" e, da carta de Caminha, "esta terra, em se plantando, tudo dá", embora a frase não seja essa, ou por que se repete tanto que "a religião é o ópio do povo", sabendo ou não que faz parte de um texto de Marx. E assim quase ao infinito, que o hábito é velho. Podemos acrescentar ao rol também "aqui vai ser no máximo uma marolinha" e "é a economia, estúpido!"

Um estudioso da questão, Dominique Maingueneau, em Cenas da Enunciação, além de atestar que os destaques existem desde sempre, afirma que há frases com características que as fazem ser destacáveis dos textos. Às vezes ocupam lugares estratégicos (inícios ou finais), são muitas vezes introduzidas por expressões que as destinam ao destaque (em resumo, em poucas palavras, etc.) e, o que é crucial, têm pregnância (sim, a palavra tem a ver com prenhez). Isto é, sua forma, seu sentido e sua relação com outros discursos as fazem notáveis, destacáveis, memoráveis.

Muitas vezes, tais frases têm ou pretendem ter valor ideológico, moral, filosófico acima do normal, o que faz com que pareça que também seu autor não seja um locutor comum, desses que dizem "acho que vai chover" ou "sua sopa é uma delícia!".

A declaração de Moraes tem algumas dessas características. Uma de suas forças advém do fato de usar uma expressão popular (lixar-se) que implica desdém e certa superioridade, não importa se para o "bem" ou para o "mal" (categorias que, obviamente, não vou discutir). "Lixar-se" é não se importar, não aceitar comportamentos só porque os outros os defendem.

O efeito, no caso da frase em questão, é semelhante ao de dizer palavrões ou blasfêmias, atitudes que põem em questão normas sociais e desafiam forças superiores. O que o deputado disse implica uma espécie de moral própria, que os mortais comuns não teriam coragem de seguir ou de propor.

A frase de Sérgio Moraes pegou (mal) porque, por meio dela, deu a entender que está acima das regras a que os outros se submetem (estamos sempre atrás de gente assim, e, pelo menos nos livros e nas novelas, não são os bonzinhos que fazem sucesso).

O segundo ingrediente que torna essa frase destacável é que o objeto de lixar-se é a opinião pública, o que agrega sal a uma expressão já apimentada. Se ele se lixasse para os barbeiros da Câmara, o efeito não seria o mesmo. Colocar-se acima da opinião pública é desprezar os valores (éticos, não monetários) que ela defenderia.

A opinião pública é sempre decente. Nunca é invocada em defesa de uma causa injusta (do ponto de vista de quem a julga): a opinião pública abomina o mensalão, as maracutaias e já abominou o comunismo. São sempre os males, os erros, a imoralidade. A opinião pública funciona como instância superior, ao lado da beleza, da razão, da moral. Entidades intocáveis, inatacáveis. Quem as contestaria? E mesmo os filósofos que o fizeram não defenderiam esse deputado.

Moraes associa claramente opinião pública a instâncias abstratas (embora também as associe à imprensa, que publica fatos que mobilizam a opinião pública) quando diz: "Estou me lixando para a opinião pública. Até porque parte da opinião pública não acredita no que vocês escrevem. Vocês batem, mas a gente se reelege".

A declaração do deputado afronta entidades poderosas: a moral e as regras da vida em sociedade, das quais se devem guardar pelo menos as aparências. As sociedades até aceitam ações menos piedosas, desde que não sejam defendidas em público como valores ou consideradas normais. Li, sobre o comportamento discutível de deputados ingleses, que eles, pelo menos, pedem desculpa ou se envergonham. Já os nossos, não! Ao contrário. Eles "nos" afrontam dizendo que suas regras são essas mesmo, as que "todos" achamos condenáveis.

A frase se destacou porque afronta regras que todos aceitam, ou fingem aceitar, que seriam universais: prestar contas e ser correto. Talvez se aceite que atletas e artistas afrontem a opinião pública. Políticos não podem. É que nós não só os elegemos. Nós também pagamos seus salários, além de algumas benesses.

Deles, queremos o mínimo. Não queremos que sejam santos. Apenas que não se lixem para nossa opinião. Pública.

*Professor no Departamento de Linguística da Unicamp e autor, entre outros, de Questões para Analistas de Discurso (Parábola)

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