Ina Fassbender/Reuters
Ina Fassbender/Reuters

'O Homem Sem Qualidades' atravessou gerações como desafio escrito por Robert Musil

Romance mostra que o escritor austríaco, morto há 80 anos, é um clássico moderno como James Joyce

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2022 | 16h00

Muitos críticos consideram O Homem Sem Qualidades, do austríaco Robert Musil (1880-1942), que a Nova Fronteira acaba de lançar, até mais importante que o Ulisses de James Joyce, não só pela revolução formal que provocou na literatura, mas pelo cruzamento híbrido entre romance e reflexão filosófica. É interessante notar que Musil nele antecipa invenções literárias depois consagradas por outros autores. Mais interessante é que ele começou a ser escrito em 1910, teve a primeira parte publicada em 1930, a segunda em 1932 e ficou inconcluso quando morreu seu autor. Se parece hermético demais, é porque a vida assim também é. Se parece filosófico de menos, é porque Musil não quis escrever um tratado, mas um romance.

O protagonista do romance é Ulrich, um matemático de 32 anos com tendência ao erro. Um homem socialmente desajustado, enfim.. Tentou a carreira militar e a engenharia: não deu certo. A matemática não o satisfez. Enfim, Ulrich é um homem “sem qualidades”. Abdica do mundo por ser “desimportante” – e essa falta de importância deve-se ao não reconhecimento de sua subjetividade pelo mundo que o rejeita. Ulrich seria, portanto, um antecessor dos movimentos de contestação, um existencialista antes de Sartre, um beat antes de Jack Keroauc, um revolucionário antes de David Foster Wallace.

Seu livro é, antes, um ensaio filosófico que toma o rumo de Montaigne para falar de uma sociedade que pisoteia a subjetividade e abre alas para a homogeneização, para a massificação dos séculos 20 e 21. Não sem razão, a história é ambientada em Viena, no crepúsculo do império austro-húngaro, pouco antes da 1ª. Guerra (1914-1918).

A grande crise moral desse anti-herói se acentua ao topar com a história de um assassino condenado, Moosbrugger. É difícil saber se Moosbrugger é de fato um criminoso ou um infeliz deserdado que não teve a “sorte” de Ulrich. Nesse Bildungsroman, o que importa não é tanto a formação do autor, mas de sua criatura. A decisão sobre o destino do outro, no caso de Moosbruger, assume a dimensão de um julgamento numa tragédia grega. Quem parece justo, julga. Quem não parece, é julgado. Caso de Moosbrugger. Musil chega a escrever que “Moosbrugrer lhe era mais próximo do que sua própria vida”. Ulrich não tinha vontade de julgá-lo. Muito menos de condenar o pobre diabo.

O Homem Sem Qualidades é, assim, um romance filosófico sobre o expurgo social. Até os anos 1930, tudo correu de forma razoável para Musil, mas, em 1931, ao mudar para Berlim, as coisas pioraram. Com a ascensão de Hitler ao poder dois anos depois, ele teve de voltar para Viena. Em 1938, após a anexação da Áustria e a proibição de seus livros pelo regime nazista, Musil emigrou com sua mulher (cujos pais eram judeus) para a Suíça – e também a sua aceitação em território “neutro” foi difícil (para ele e Joyce, que os suíços não queriam aceitar).

Não se conclua com isso que a literatura de Musil tenha por esse motivo sido um permanente exercício de metaficção ou memorialístico. Se O Jovem Törless]e O Homem sem Qualidades se aproximam do gênero romance de formação, outros livros seus buscam afirmar vozes alheias, inclusive femininas, caso de uma obra poderosa lançada há tempos no Brasil (pela Perspectiva), Uniões, que reúne duas novelas, A Perfeição do Amor e A Tentação da Quieta Verônica>, protagonizadas por duas mulheres.

Com tradução de Lya Luft e Carlos Abbenseth, O Homem sem Qualidades, essa obra-prima inacabada, deve ser lida com tais novelas em mente e, se possível, com a referência de um pequeno volume lançado há tempos pela Carambaia, O Papel Mata-moscas e Outros Textos, que reúne seus aforismos, ensaios e outras narrativas. Claro, são produções independentes, mas podem servir de introdução à obra monumental ( mais de mil páginas) que tomou 15 anos da existência de Musil. Antecipam discussões filosóficas sobre moral, ética e até questões abordadas posteriormente por contemporâneos, como o crítico John Berger e o Nobel Coetzee: o animismo, em especial. Cabe lembrar que nesse volume há um texto sobre a reação de um cavalo a cócegas, como qualquer homem. É o gênio captando o espírito de uma época nazifascista que desprezava os sentimentos – dos animais e da própria humanidade.

 Musil tem um texto sobre a estupidez que resume como nenhum outro sua aversão à irracionalidade de regimes autoritários e nacionalistas. Infelizmente, quem deveria ler, passa longe dos livros e intelectuais (em especial de Musil, que nunca fez concessões). O próprio livro de estreia do escritor, O Jovem Törless (1906), ao narrar as crueldades praticadas por colegas de classe contra um garoto numa escola militar, prenuncia em muitos anos a brutalidade do regime nazista, como uma alegoria da deformação de caráter provocada pela histeria coletiva e incentivada por líderes carismáticos mal intencionados.

No anteriormente citado ensaio sobre a estupidez, ela é tratada não como uma doença dos ignorantes, mas de intelectuais que sucumbem a tais líderes – e o próprio regime nazista, não se pode esquecer, cooptou escritores, compositores e cineastas de peso. A estupidez seria a verdadeira “doença’ da cultura, dizia Musil. E toma a definição como um dos temas dessa complexa tapeçaria que é O Homem Sem Qualidades, obra comparada, não gratuitamente, aos principais monumentos da modernidade literária europeia, de Joyce a Hermann Broch, passando por Proust Thomas Mann.

Viena do começo do século passado que ele descreve em O Homem Sem Qualidades é um lugar à beira do precipício – cultural, moral, político –, o cenário de uma irremediável tragédia. Não fosse o humor de Musil, seria um livro insuportável. Seu amoral Ulrich pode ter consciência, como matemático, de uma sociedade cuja estrutura lembra a de uma equação de difícil solução, mas não perde a chance de reduzi-la a uma bobagem sem importância, uma piada diante da complexidade do cosmo.

Não se sabe como Musil pretendia concluir seu livro, mas é certo que seria com uma vírgula, numa frase propositalmente cortada, voltando, em analogia com a linguagem musical, ao poder funcional da coda, ao servir de andamento final a uma peça. Ele certamente teria o título da primeira parte, só que, no lugar de “uma espécie de introdução”, entraria “conclusão”. Retornamos ao ponto de partida, como no Ulisses de Joyce. Ou na Odisseia de Homero.

Tudo na vida de Musil levava a uma volta às origens. Em 1886, ele foi vítima de uma doença nervosa e teve duas recaídas na escola, entre 1889 e1890. Musil foi uma criança rebelde e, por essa razão, seus pais decidiram interná-lo numa escola militar – essa experiência é a base real de seu romance O Jovem Törless. É possível dizer, como se disse de Dostoievski, que a doença – individual, social – o levou a escrever.

O Homem Sem Qualidades ousa ao tratar de temas interditos como o incesto (entre Ulrich e a irmã Ágata) e incluir na coda uma singela discussão sobre a existência dos anjos, quando o protagonista do romance folheia um livro do filósofo e cientista Emanuel Swedenborg (1668-1772) e lembra o quanto Goethe Kant ficaram impressionados com a descrição do céu pelo místico sueco, que, nunca é demais lembrar, foi matemático como o personagem Ulrich. 

Musil era um homem de múltiplas leituras, da filosofia positivista de Ernst Mach às teorias estéticas de Schiller, passando pelo niilismo de Nietzsche. Não é possível saber quem seria o eleito do derradeiro capítulo depois de Swedenborg. Mas uma coisa é certa: ao contrário de sua criatura, Ulrich, seu criador não tateava às cegas em busca da luz. Sabia onde ela estava. Musil se parecia com os anjos de Swedenborg: ignorava o significado de tempo e espaço, mas conhecia bem os estados da alma. Foi, como o sueco, uma espécie de visionário.

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