O humor nos tempos de cólera

AMBULATÓRIO DA NOTÍCIA - Unidade de tratamento para quem sai mal na foto

Tutty Vasques, O Estado de S.Paulo

19 de julho de 2008 | 23h01

Humor a favor é assim mesmo: nem quando é bem-feito funciona. Ou o ilustrador Barry Blitt não teria passado a semana esclarecendo que sua charge para a capa da revista The New Yorker não era contra - muito pelo contrário - o candidato democrata Barack Obama. Não há derrota pior para um humorista do que explicar a piada que fez: "A idéia de rotular Obama como antipatriótico e terrorista é absurda. Achei que, ao retratá-la, mostraria o quão ridículo são esses boatos". Entendeu agora? Mal comparando, seria como se, para satirizar os clichês habituais de preconceito com Fernando Gabeira, a revista Piauí produzisse um desenho de capa com o candidato a prefeito do Rio vestido de tanga, sentado no colo de um negão, fumando um baseado, diante de um pôster de Che Guevara, símbolo de sua origem de militância no MR-8. Imagina a decepção do capista ao ver o povo nas bancas apontando praquela bichona maconheira com pedigree de guerrilheiro. É de lascar!Os humoristas americanos aproveitaram a deixa da indignação federal com o mal-entendido da New Yorker para reclamar que não está fácil fazer piada com Barack Obama. Alegam que não há brincadeira com o candidato democrata que não adquira conotação racista. Maior que esse receio, porém, é a saia-justa de gozar o candidato de nove entre dez eleitores inteligentes, time no qual, modéstia à parte, os humoristas americanos - como de resto em todo mundo - se incluem. Ziraldo quase foi à bancarrota no Brasil ao recriar um Pasquim de apoio ao primeiro governo Lula. Chegou uma hora em que "ficou desconfortável fazer humor pró-governo", reconheceu o cartunista tempos depois numa roda literária de Paraty. Humor é sempre contra. Está na Declaração Universal dos Direitos do Homem: "Tudo e todos são igualmente ridículos perante o humorista, não importa a cor, a idade, a religião, o sexo ou a quantidade de dedos" - daí a graça da coisa!Mas esse é um problema dos humoristas, eles que se virem. Muito mais grave na polêmica em torno da última capa da New Yorker são os sinais de falência do humor inteligente em todo o mundo. Claro que os leitores da Piauí americana, tal qual os da matriz brasileira, entenderam e acharam o máximo a piada do casal Obama travestido de terroristas mulçumanos na intimidade do Salão Oval. São os famosos formadores de opinião, cada vez mais fora de moda e desimportantes na banda larga da comunicação de massa. Hoje em dia, como se sabe, cada um entende o que bem quiser, sem compromisso com opinião formada sobre nada. Se precisar pensar um pouquinho para achar graça, francamente, a galera tá fora! O gênero "zorra total" de fazer rir triunfa em todo o mundo.Pior de tudo é a turma - e nela se inclui o próprio Barack Obama - que entendeu de cara a piada da capa da New Yorker, mas, ainda assim, a censura porque, tá na cara, não será nunca captada pela maioria estúpida da humanidade. Recomenda-se, pois, dosar a inteligência da criação humorística para se fazer compreender por qualquer Homer Simpson, a mais completa tradução do QI médio do eleitorado americano. Pronto: taí um ótimo motivo para se começar a fazer piadas com o candidato democrata.Não tem voltaExistem mil maneiras de se pendurar a chuteira. Garrincha pendurou as dele num bar. Tem os que vão jogar nos EUA ou na Austrália, outros caem de divisão até sumir, poucos fazem festa reunindo velhos companheiros em partida beneficente, ingresso a 1 quilo de feijão. Romário, quando viu, já tinha parado e não sabia. O Edmundo acha que ainda está jogando. Talvez não exista nenhuma maneira muito original de pendurar a chuteira, mas acho que até hoje - salvo engano que costumo cometer aos montes - ninguém tinha anunciado a decisão mostrando a barriga. Ronaldo Fenômeno foi o primeiro. Franco-colombinaParis está a seus pés. Ingrid Betancourt começou a semana no centro das atenções do 14 de julho no Champs-Élysées para ser aclamada hoje em festa franco-colombiana pela liberdade na esplanada do Trocadéro. E ainda sobra-lhe tempo para receber o senador Pedro Simon, que está em Paris todo pimpão para convidá-la a visitar o Brasil. Não seria demais dizer que, hoje, Ingrid já é praticamente a segunda-dama da França. Com boas chances de desbancar a Carla Bruni até o final do mandato de Nicolas Sarkozy. Los hermanosNessas horas, vale a experiência política: não fosse o bom e velho Néstor lhe olhar atravessado, Cristina Kirchner já teria enfiado a mão em seu vice. Cá pra nós, o tal de Julio Cobos merece.

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