(Victor Moriyama/The New York Times)
(Victor Moriyama/The New York Times)

O impacto da nova crônica brasileira

Gênero literário vive uma nova 'era de ouro', como comprovam quatro recentes lançamentos

Ronaldo Bressane, O Estado de S. Paulo

04 de dezembro de 2021 | 16h00

 

Em um texto de 1962, o crítico Alexandre Eulalio teorizava a crônica, que vivia sua idade de ouro, como o exemplar mais pop do ensaio. “Próximo da poesia pelas possibilidades do flagrante lírico, a mudança do ponto de vista exterior para o interior do sujeito enriquece infinitamente as possibilidades do flagrante humano.” Sessenta anos depois, o gênero vive novo auge, com quatro lançamentos que demonstram esta forma breve como a perfeita síntese brasileira do ensaio – em quatro modelos bastante diversos.

Exu caveira

No filme Descobri Que Estava Morto, o editor e amigo Paulo Roberto Pires questiona João Paulo Cuenca: “Você viaja pelo mundo todo, mas o que mais me espanta é: por que sempre volta?”. A questão paira sobre este Qualquer Lugar Menos Agora (Record, 238 págs.), seleta de crônicas ambientadas em 45 paisagens diferentes. Em todas, dois personagens: Cuenca e sua angústia. Este pequeno Exu não sossega o rabo em lugar nenhum. A maioria das crônicas é noturna – roteiro de bares, clubes, discos, e por vezes a voz do cronista é afinada ao tom de guia turístico ou repórter cultural, como o saboroso Enciclopédia de bares

Cuenca não é o tipo de cronista que veio ao mundo a passeio. Mais viajante e menos turista, usa a paisagem como mote para digressões sociológicas. Em Macau, vendo cópias de edifícios ganharem mais atenção do que edificações originais, pressente a transformação da pólis em inócuo parque temático: “Em quantos séculos ou décadas as pessoas vão deixar de diferenciar essas cópias em estilo Epcot Center dos prédios históricos da cidade? Até que ponto uma igreja em estilo colonial português na Ásia, como a Igreja da Sé, onde entrei e ouvi Roberto Carlos e sua cantilena religiosa pelas caixas de som, é mais autêntica do que qualquer um desses monumentos ao kitsch? Pois chinesa ela não é”. 

De Hong Kong, em e-mail para o amigo e cronista Chico Mattoso, este nômade digital confessa-se sujeito fissurado entre destinos: “Estar aqui sem estar, sentir que pode viver todas as vidas e, no momento seguinte, ver-se incapaz de viver a própria”. Daí a sensação de que, mal chegou, quer partir: mais que relator de viagens, o cronista usa a fuga como espelho do Brasil.

Ora direis ouvir baleias

O antípoda de Cuenca é Luiz Henrique Pellanda. O livro do curitibano assina embaixo do enunciado de Eulalio: o cronista está sempre em estado de pré-epifania. Quase todas as crônicas deste Na Barriga do Lobo (Arquipélago Editorial, 236 págs.) passeiam pelo Passeio Público, região próxima à casa do escritor. Como movimentos musicais de uma mesma composição, há temas recorrentes: as filhas pequenas (crianças são anunciadores de epifanias), uma piranha solitária navegando no Passeio, piranhas da espécie humana, pássaros, mendigos, pessoas que falam sozinhas nas ruas (incluindo o cronista). 

Clássico, Pellanda se inscreve na tradição dos “monstros de delicadeza”, que escrevem com pena e tinta leves – gente como Vinicius, Quintana e Fabrício Corsaletti.  É um bon homme, o cara legal com a prática e a coragem de ter bom senso. Território perigoso, posto que faz fronteira com o piegas e o sentimental – mas Pellanda tem a sensatez de não adentrá-los. 

Prosa fofa, que sorri sem malícia nem afetação: “Um homem vê, da praia, uma baleia, e seu coração emerge de um lugar obscuro. Ele está a salvo. Quer saltar da cadeira, fugir do guarda-sol, molhar os pés na mesma água que sustenta e transporta o animal. Mas não dá. O homem segura no colo a sua filha, um bebê, e ela precisa dormir. Tanto faz que a espuma se erga do mar, imperiosa, perturbando a linha do horizonte. O bebê dorme. Quem sabe não sonhe com baleias?”. Como já escreveu Rubem Braga, inspiração de Pellanda e de qualquer cronista que se preze, “todo mundo gosta de conversar sobre baleias”, e é pra isso que serve o cronista: para pescar esses bichos que ninguém viu e colocá-los na roda. 

Minha vida de Playboy

Nem sempre o cronista precisa se locomover no espaço. Amiúde ele se amiúda no tempo. É o caso de Humberto Werneck, que habitou durante anos as páginas do Estadão. O mineiro jornalista e biógrafo (ora arrematando a bio de Drummond) habitou as páginas do Suplemento Literário de Minas Gerais, das revistas Veja e Playboy, antes de dar expediente no suplemento cultural Quatro Cinco Um, e usa essa larga experiência como tema de deliciosos papo-furados. 

Uma ida a Cuba atrás de uma coelhinha ninguém menos que filha de Fidel Castro; um papo com um jovem Gilberto Gil a respeito da “ambição da boa morte” (“há que se merecê-la”, ensina a entidade); a descoberta que nenhum leitor manda cartas à revista (daí surge a lendária expressão “o leitor não o é”, homenagem aos leitores de revista de mulher pelada, já que era o próprio Werneck – desculpe a indiscrição – o verdadeiro escriba atrás das maltraçadas à redação).

Vale observar a gênese desse papo-furado em O Espalhador de Passarinhos, (Arquipélago Editorial, 173 págs.), primeira reunião de crônicas, datada de 2010. Às vezes a falta de assunto rende obras-primas, como “Ah, o copo de requeijão”, em que dá um zoom num detalhe para observar os desgastes do amor: “No começo da história, quando se punha no menor gesto o empenho em agradar, a água vinha no melhor copo. Agora repare: o que você vem trazendo para matar a sede do ser amado é um reles copo de requeijão. Não tenha dúvida, alguma coisa mudou – para pior. O que você tem nas mãos é o próprio símbolo da avacalhação que vai pondo a pique os mais sólidos Titanics conjugais”. Enfiar sub-repticiamente uma “vaca” na “avacalhação” do nada romântico copo é uma das várias piscadas de olho que Werneck dá ao o leitor que o é.

Maníaco do trechinho

Pescador de baleias, vacas ou dúvidas existenciais, o cronista também pode ser, no dizer de Walter Benjamin, um pescador de pérolas: o escafandrista no oceano do conhecimento a fisgar ninharias que o sustentem. É o procedimento buscado pelo poeta paulista Marcelo Montenegro, mestre da metonímia. Em Videos Caseiros (Corsário-Satã, 64 págs.), reúne posts de redes sociais e blogs publicados em vinte anos. No livro em que predomina o híbrido, há poemas em prosa, pequenas narrativas, crônicas curtinhas, entradas de diário e fotografias em versos. “Vivo caçando epígrafes para livros ou poemas – para os que faço ou para os que jamais vão existir”, escreve Montenegro, emulando a mania benjaminiana de colecionar aspas: o sonho do alemão era escrever um ensaio só com epígrafes – adiantando-se à “estética da sampleagem” preconizada por Xico Sá, o melhor amigo do alheio da crônica nacional. 

Para falar da rede de epígrafes, cortes abruptos, partes que falam pelo todo, migalhas de realidade, vestígios de conhecimento que se retroalimentam, melhor recorrer a Hannah Arendt, falando de Benjamin: “O espírito e sua manifestação material estavam tão ligados que parecia possível descobrir, em todas as partes, as correspondances de Baudelaire, as quais se iluminariam umas às outras de modo que não precisariam de nenhum comentário explicativo”.

Afinal, esses pequenos textos inclassificáveis ouvem uma frase de Mad Men numa canção de Belchior, um verso de Drummond numa piada dos Trapalhões, uma entrevista de Eddie Murphy no meio de um filme de Herzog, aproximando manifestações materiais distantes de um mesmo espírito. Um jeito de transitar por espaços e tempos sem sair do lugar, que em geral é a coxia de um teatro (Montenegro é iluminador) ou uma ilha de edição (também é roteirista). “Cansei de ir, agora eu quero ficar/ Conhecer o que já encontrei/ Navegar? Sim – já foi/ muito mais que preciso/ Agora eu quero ensaiar/ até parecer que é improviso”, anota num poema.

Disse antes que vivemos uma nova fase dourada da crônica e poderia citar outros mestres desse nosso jeito de fazer ensaio, como Anderson França, Cidinha da Silva, Bia Braune, Gregório Duvivier, Antonio Prata e um longo etc. Mas aproveito o espaço pra saudar nosso cronista maior: feliz 85 anos, Verissimo

QUALQUER LUGAR MENOS AGORA

AUTOR: J.P CUENCA

EDITORA: RECORD

240 PÁGINAS 

R$ 44,90 (LIVRO) 

NA BARRIGA DO LOBO

AUTOR: LUÍS HENRIQUE PELLANDA 

EDITORA: ARRQUIPÉLAGO 

225 PÁGINAS 

R$ 49,90 (LIVRO) r$ 29,90 (E-BOOK) 

ESPALHADOR DE PASSARINHOS

AUTOR: HUMBERTO WERNECK 

EDITORA: ARQUIPÉLAGO 

R$ 49,90 (LIVRO) R$ 29,90 (E-BOOK) 

176 PÁGINAS

VIDEOS CASEIROS 

MARCELO MONTENEGRO 

EDITORA: CORSÁRIO SATÃ

64 PÁGINAS 

R$ 21,00 (LIVRO) 

 

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