WOLFGANG RATTAY/REUTERS
WOLFGANG RATTAY/REUTERS

O imprevisível pede passagem

Não será com atestados de psiquiatras, psicanalistas e psicólogos que vamos conseguir controlar atitudes como a do piloto suicida

Joel Birman, O Estado de S. Paulo

04 Abril 2015 | 16h00

O ano de 2014 foi pródigo em acidentes aéreos, de forma que quando se noticiou a queda do Airbus A320 da Germanwings na semana passada já estávamos nos acostumando, de maneira complacente, a somar mais uma tragédia nessa lista. Contudo, as investigações realizadas logo após o acidente causaram uma reviravolta espetacular nas expectativas. Ficou patente que o copiloto provocara a queda da aeronave nos Alpes Franceses, interrompendo seu percurso entre Barcelona e Dusseldorf. 

A notícia caiu como uma bomba sobre a opinião pública, que passou a sentir que algo similar pudesse acontecer com qualquer um, pois neste mundo globalizado as viagens aéreas se tornaram o pão nosso de cada dia. Todos queriam saber o que se passou efetivamente, para que assim pudessem encontrar os motivos daquele ato fatal e conseguir de alguma forma apaziguar suas inquietações terroríficas. Ao lado de se levantarem razões técnicas de segurança, como não permitir que apenas uma pessoa fique na cabine da aeronave, o personagem do copiloto foi colocado em foco. Iniciou-se desde então a produção de outras narrativas que recolocaram em cena todos os preconceitos existentes no Ocidente quanto às perturbações psíquicas.

Com o andar da carruagem das investigações a respeito da vida de Andreas Lubitz foi descoberto não apenas que ele seguia tratamento psiquiátrico, mas também que tinha um diagnóstico de depressão. Além disso, seu treinamento para piloto fora interrompido em 2009 por razões psiquiátricas. Finalmente, existiam várias declarações feitas por psiquiatras e ocultadas por Lubitz indicando licenças por razões de saúde.

Para botar mais água na fervura, apareceram relatos de antigas namoradas sobre comportamentos intempestivos de Lubitz, assim como a afirmação de que todos ainda teriam conhecimento de um grande ato dele que jamais seria esquecido - o que foi logo interpretado como prenúncio da crônica da morte anunciada.

O circo da mídia estava montado em seus menores detalhes para sustentar que Lubitz era não apenas um suicida, mas também um criminoso em larga escala, em consequência de sua condição depressiva. Por isso, começaram a surgir múltiplas proposições de que os depressivos fossem controladas nos seus espaços de trabalho por autoridades públicas, assim como aqueles diagnosticados com outras modalidades de perturbações psíquicas. As bruxas estavam novamente soltas, como ocorre em nossa tradição desde a Inquisição sempre que o medo invade e perpassa o espaço social retirando nossas certezas de segurança, de forma que se parte ostensiva e violentamente para a caça aos culpados.

Sabemos muito bem que existem múltiplas formas de depressão e que apenas uma parcela restrita desta conduz ao suicídio. É difícil imaginar que a depressão possa conduzir a um comportamento agressivo em relação aos outros, pois os melancólicos dirigem sua crueldade para si próprios. Nos demais transtornos psiquiátricos graves, como a esquizofrenia, o suicídio acontece numa taxa de incidência que não é significativa em relação à que ocorre com a população em geral. Por isso mesmo, concordo com as declarações de várias organizações internacionais de saúde mental de que as proposições supracitadas são simplistas e contribuem para aumentar ainda mais os preconceitos contra as pessoas portadoras de alguma forma de perturbação psíquica. O que se esquece nessas proposições apressadas é que existe um imenso contingente na população que passa por tratamentos psiquiátricos e realiza com eficácia e competência suas práticas profissionais, incluindo a de pilotar aviões.

É preciso evocar aqui que no final do século 18, nos tempos que antecederam a constituição da psiquiatria e a organização dos asilos de alienados, a grande inquietação que perpassava o espaço social europeu era o debate sobre o bom uso da liberdade, como nos ensinou Foucault em sua obra História da Loucura na Idade Clássica. O que se instituiu em seguida no Ocidente foi um amplo processo de normalização do espaço social, como se fosse possível pela criação de normas realizar o controle social das populações e tornar assim previsível tudo aquilo que seria imprevisível na condição humana. Parece que nos tempos atuais, caracterizados pelas políticas de segurança e gestão de riscos, as práticas de normalização do espaço social se tornaram ainda mais complexas, se bem que ainda sempre voltadas para a regulação do bom uso da liberdade. No entanto, é preciso reconhecer com responsabilidade que ontem como hoje não é possível prever todos os atos humanos, pois existe neles uma dimensão fundamental de imprevisibilidade. Não será com atestados feitos por psiquiatras, psicanalistas e psicólogos que vamos conseguir controlar esse imprevisível.

Só podemos saber e depreender efetivamente o que alguém é capaz de fazer se o sujeito nos “fala” de suas intenções, não existindo então, infelizmente, nenhuma possibilidade de que a psiquiatria possa prever atos trágicos como esse. Na época da gestão de riscos é preciso dizer, alto e bom som, que as normas não conseguem controlar nem o desejo nem o que existe de imprevisível no sujeito.

JOEL BIRMAN É PSICANALISTA, PROFESSOR TITULAR DO INSTITUTO DE PSICOLOGIA DA UFRJ E PROFESSOR ADJUNTO DO INSTITUTO DE MEDICINA SOCIAL DA UERJ 

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