Sharjah International Book Fair
Sharjah International Book Fair

O improvável crescimento de feiras literárias no Oriente Médio

Ascensão do mercado de livros na região indica que a cultura pode progredir mesmo sem liberdade de expressão

Redação, The Economist

13 de julho de 2019 | 16h00

Talvez apenas no Oriente Médio os censores consigam ter seu próprio estande nas feiras de livros – como fizeram na reunião do ano passado no Kuwait. Do lado de fora, um frustrado artista local instalou um cemitério simulado, com obras proibidas e centenas de títulos inscritos em lápides. Nos últimos cinco anos, o Ministério da Informação proibiu mais de 4.000 livros, de Dostoievski a Children of Gebelawi, publicado em 1959 pelo autor egípcio Naguib Mahfouz, o único árabe a ganhar o prêmio Nobel de Literatura. O cemitério de protesto também foi rapidamente censurado. A confusão resumiu o logro que vários países do Golfo estão tentando conseguir. Eles querem se tornar guias literários, mesmo que restrinjam a liberdade de expressão.

Os árabes têm um velho ditado: “O Cairo escreve, Beirute publica, Bagdá lê”. A feira do livro no Cairo, a mais antiga do Oriente Médio, acaba de celebrar seu 50º aniversário. A cada ano, atrai mais de 2 milhões de pessoas para as barracas repletas de títulos de editores em todo o mundo árabe. Mas os estados do Golfo estão se estabelecendo também como pontos de parada no circuito literário. Há dez anos, poucos teriam ouvido falar da feira do livro em Sharjah, uma das partes menos conhecidas dos Emirados Árabes Unidos (EAU). Hoje ela atrai 2,3 milhões de visitantes por ano, o dobro da população de Sharjah. Abu Dhabi, Doha, Manama e Riad – todos estão transformando as sonolentas feiras em eventos populares.

Há fortes incentivos comerciais para os editores atenderem aos seis membros do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG). Embora representem apenas 10% da população mundial, eles têm as taxas mais elevadas de alfabetização. Mais de 90% dos cidadãos do CCG são alfabetizados, em comparação com menos de 75% em países como Egito e Marrocos. Exatamente o quanto eles leem é assunto mais de especulação do que de pesquisa. Um estudo de 2016, realizado por uma fundação administrada pelo governo em Dubai, sugeriu que os cidadãos dos Emirados liam 51 horas por ano e consumam 24 livros cada. Isso pode torná-los leitores extremamente rápidos ou desonestos.

Ainda assim, o mercado de livros no Golfo é certamente grande. Acredita-se que apenas a Arábia Saudita vale 5 bilhões de riais (US$ 1,3 bilhão) por ano. Os habitantes de emirados ricos em petróleo e gás têm mais para gastar em literatura do que outros árabes. O mercado dos Emirados Árabes Unidos é estimado em US$ 233 milhões, maior do que países europeus de tamanho semelhante, como a Hungria ou Portugal. O Egito tem dez vezes mais pessoas que os Emirados Árabes Unidos, mas seus editores recebem 23% a menos.

As feiras atraem também os governos. Em uma região com escassez de espaços públicos, elas são uma diversão para os moradores e um potencial atrativo para os turistas, uma alternativa ao modelo de sol-e-compras que define reluzentes cidades como Dubai. A indústria do turismo “tem se concentrado em entretenimento, pessoas que não vão a um concerto, nem abrem livros”, diz Mai al-Khalifa, ministro da Cultura do Bahrein. As autoridades também esperam cultivar um círculo crescente de romancistas locais. Este ano Sharjah lançou uma feira separada para apresentar mais de 1.000 livros de autores dos Emirados. Em seu festival principal, dá um prêmio anual ao melhor romance em língua árabe. Em 2017, este foi para Abdullah al-Busais, um escritor do Kuwait, para o seu livro The Taste of the Wolf (O paladar do lobo), uma ruminação sobre questões de violência e vingança que aparecem muito nas sociedades árabes.

E os livros são apenas parte da história. Estáveis e ricos, os estados do Golfo já são o centro do poder político e econômico no Oriente Médio. Eles agora estão gastando bilhões para se tornarem potências culturais. O Catar e os Emirados Árabes Unidos abrigam os maiores canais de notícias por satélite árabes. Casas de produção do Golfo estão fazendo incursões na programação de entretenimento. Os EAU têm filiais do Louvre e do Guggenheim; o Catar apresenta um reluzente palácio de arte islâmica, projetado por I.M. Pei.

Há um problema, no entanto: política. Os visitantes do Louvre em Abu Dhabi têm acesso a um tour por 8.000 anos da história humana, com uma mensagem otimista de progresso e otimismo - mas pouco disso é questionador. Isso vale também para a feira de livros de Riad, que é menos um festival de liberdade intelectual do que uma vitrine da política oficial. O evento do ano passado, realizado seis meses depois que o reino anunciou que as mulheres teriam permissão para dirigir, possuía um estande onde visitantes do sexo feminino podiam testar suas mãos em um volante simulado. Em anos anteriores, exibições exaltaram megaprojetos como a Neom, uma cidade futurista planejada de US$ 500 bilhões, e a bravura de soldados sauditas no Iêmen.

A censura é um problema em todo o mundo árabe. Mas leitores curiosos podem encontrar muitas obras no mercado de Ezbekiya, no Cairo, ou nas lojas da rua Hamra, em Beirute. Isso não ocorre no Golfo. Caminhe por uma livraria no Marina Mall do Dubai e encontrará prateleiras cheias de guias de negócios e de autoajuda. Uma vitrine inteira é dedicada aos livros sobre o governante de Dubai (disponível em árabe e cinco idiomas estrangeiros). Não há quase nada sobre assuntos atuais.

As feiras são um pouco mais abertas – mas também são circunscritas pela censura contraditória, que leva os autores e editores à desorientação total. Em 2014, as autoridades sauditas confiscaram as obras de Mahmoud Darwish, o poeta nacional palestino, que foi rotulado de “blasfemo” (Darwish era um ardente secularista). Ele não é mais proibido; em vez disso, as autoridades estão em busca de qualquer coisa que possa expor os cidadãos a políticas subversivas. Em Riad, no ano passado, eles fecharam uma barraca que vendia livros “simpáticos” à Irmandade Muçulmana, o grupo islâmico banido na Arábia Saudita.

Os governos negam qualquer contradição em tudo isso. “Você tem liberdade de expressão, desde que seu discurso seja moderado”, diz um funcionário dos Emirados. Isso, claro, é uma diferenciação arbitrária e subjetiva. O Kuwait é o mais aberto dos estados do Golfo, com um Parlamento turbulento e uma vibrante mídia impressa; mesmo assim, no ano passado, intelectuais kuwaitianos começaram a vazar memorandos do ministério da informação, o que representa uma leitura sombriamente engraçada. Parece que os censores não leem todos os livros que proíbem – o que não é surpresa, pois colocam na lista negra cerca de dois por dia. Em vez disso, eles apenas procuram palavras-chave. Uma única referência a “anjos” pode merecer uma repressão por motivos de blasfêmia.

Assim também a palavra “urinar”, que, ironicamente, é considerada a razão pela qual o premiado romance de Busais é proibido em seu país de origem. É outro exemplo revelador de um paradoxo que atravessa o Golfo. De Jidá a Sharjah, os governos nunca fizeram tanto para promover a cultura – e, no entanto, artistas e escritores concordam, o clima cultural nunca foi pior. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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