José Luís da Conceição/AE
José Luís da Conceição/AE

O infectado

Ele é um dos brasileiros que sentiram na pele os sintomas - e o estigma - da gripe suína

Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 23h16

Bernardo Riel não sabe precisar o momento exato da viagem em que se tornou hospedeiro. Paulistano, 25 anos, ele é consultor de uma grande empresa do ramo de informática que presta serviços em todo o continente. Antes de a crise financeira contaminar a economia global, carimbava seu passaporte 11 vezes ao ano, visitando cidades como São Francisco, Dallas, Toronto, Bogotá, Caracas, Buenos Aires e Santiago. O ritmo caiu um pouco, mas ele continua sua movimentada rotina de trabalho, ao longo da qual viaja sozinho, aluga automóvel e fica nos melhores hotéis. Em meados de abril, a Cidade do México era o destino desse jovem executivo de sucesso. Ele desembarcou numa quarta-feira para participar de uma série de reuniões com clientes até sexta. No final de semana aproveitou para fazer uma escalada no Nevado de Toluca, vulcão extinto de 4.558 metros de altura, localizado a 135 quilômetros da capital mexicana - de onde contemplou a paisagem delirante. Em forma, Bernardo não sofreu muito com a caminhada, nem com a altitude. E, domingo à noite, quando se preparava para embarcar de volta ao Brasil, não sentia nada além de uma leve coriza.

"Pegou a gripe do porco?", brincou a mãe de Bernardo, ao apanhá-lo no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos. O filho não entendeu a piada. "Para ser sincero, até aí eu nem sabia do que se tratava. Tenho o hábito de me informar quando viajo, mas juro que não vi nenhuma sinalização nos jornais, na TV ou no aeroporto mexicano." Voltou para a casa onde ainda mora com os pais e os irmãos, na zona leste da cidade. No dia seguinte, trabalhou normalmente e à noite foi à faculdade, onde cursa engenharia. À congestão nasal somou-se uma tosse intermitente, nada que o fizesse mudar seu dia a dia.

Terça-feira, no entanto, o mal-estar aumentou e ele teve que faltar ao trabalho. Febril e com dores no corpo, decidiu ir ao médico do convênio, que imediatamente pediu um exame de sangue. Em poucas horas, ouviu do doutor a suspeita que começava a angustiá-lo: "O seu resultado deu algo que não sei o que é. Sugiro que vá quanto antes ao Instituto de Infectologia do Hospital Emílio Ribas".

NOME MUTANTE

Há algumas semanas, quando a informação sobre o surto mundial de gripe suína era ainda desencontrada e inoculou a desconfiança nos consumidores de carne, grandes produtores pressionaram a Organização Mundial da Saúde (OMS) a mudar o nome da doença - assim batizada porque a linhagem de vírus surgiu de mutações que permitiram o contágio de porcos para pessoas. Criadores argumentaram que a denominação transmitia a ideia de que a gripe pode ser contraída ao comer a carne do animal cozida, o que de fato não ocorre. O lobby foi bem-sucedido e as autoridades passaram a usar o termo influenza A (H1N1) - mais preciso tecnicamente, ainda que controverso do ponto de vista da eficácia da comunicação.

Em um artigo publicado no dia 27 no jornal britânico The Guardian, o historiador e urbanista americano Mike Davis, professor do Departamento de História da Universidade da Califórnia, em Irvine, criticou o "não é comigo" da agroindústria internacional. E deu o diagnóstico: "Em 1965, por exemplo, havia nos Estados Unidos 53 milhões de porcos espalhados por mais de 1 milhão de fazendas. Hoje, 65 milhões de porcos concentram-se em 65 mil instalações. Isso significou uma transição dos antiquados chiqueiros para gigantescos infernos fecais, com dezenas de milhares de animais amontoados sob um calor sufocante, com sistemas imunológicos debilitados e prontos a intercambiar agentes patogênicos à velocidade de um raio." De fato, é de se notar que os dois últimos surtos infecciosos que assustaram o mundo - a sars (síndrome respiratória aguda grave, na sigla em inglês), em 2003, e a gripe aviária, de 2005 - têm sua origem associada ao contato do homem com granjas e criatórios industriais.

O balanço divulgado pela OMS na última sexta-feira elevou em mil, de um dia para o outro, o número de casos confirmados da gripe suína. Simultaneamente, autoridades de saúde do Estado do Arizona, nos EUA, confirmavam a quarta morte em decorrência da doença no país. Com isso, as estatísticas mundiais já contabilizavam 7.520 casos e 65 mortes. Só no Brasil são 8 os diagnósticos confirmados e 37 os casos suspeitos. A OMS também manteve o nível de alerta em 5, numa escala que vai de 1 a 6, o que significa a iminência de uma pandemia - denominação que se aplica a epidemias de grandes proporções, como a peste negra, que matou entre 24 e 75 milhões de pessoas no século 14, e a gripe espanhola, que ceifou de 20 a 40 milhões de vidas em 1918.

Um mau presságio, portanto, rondava a cabeça de Bernardo ao chegar às 7 da manhã na recepção do Emílio Ribas, referência internacional na área de infectologia. Ele se lembra de ter visto a inscrição "Suspeita de gripe suína" em um dos guichês. Em instantes, um atendente surgia com máscaras em punho. Foi conduzido, com a mãe que o acompanhava, para o PS do hospital.

"Parecia cena de um daqueles filmes sobre guerra biológica", conta ele. "Funcionários de máscara, óculos, touca, luva e avental se aproximaram de mim. Me senti um alienígena." Após uma rápida entrevista com uma médica, Bernardo recebeu a sentença: "Você não pode mais sair daqui". Levado para um quarto individual, totalmente vedado e com pressão negativa - quando a porta se abre o ar de fora entra, mas o de dentro não pode sair - foi recebido por uma enfermeira paramentada, da qual só conseguia ver o pescoço, que coletou seu sangue e amostras de secreção nasal e da garganta. A mãe voltou para casa com o carro para avisar a família e a empresa do exílio forçado que começava para o filho.

CORDÃO SANITÁRIO

Como Bernardo circulou por diversos lugares depois de desembarcar no País, teve que descrever passo a passo o seu trajeto. Na caçada ao vírus, as autoridades sanitárias passaram a monitorar o estado de saúde de cada pessoa que chegou perto do infectado. Por sugestão do Ministério da Saúde, conta ele, a empresa de Bernardo esvaziou o andar inteiro onde ele trabalhava e pediu aos funcionários que não saíssem de casa durante uma semana. Colegas de faculdade também ficaram em observação.

Foram cinco dias internado, sem nenhum contato com o mundo exterior. Antes mesmo do resultado dos exames, foram ministradas doses do antiviral Tamiflu a cada 12 horas. Bernardo diz não ter entrado em pânico simplesmente porque não se sentia tão mal. "Concordo com o que disse aquele paciente liberado essa semana no Rio de Janeiro: já tive gripes piores." Ouviu da médica responsável pelo seu tratamento que ele entraria nas estatísticas como o primeiro caso confirmado da doença no País: "Você vai ficar famoso", disse ela, querendo descontrair.

Raymond Rambert, um dos personagens de A Peste, de Albert Camus, é um jornalista que fica preso na cidade de Oran, sitiada por uma epidemia transmitida por ratos, e luta para transpor as barreiras sanitárias para reencontrar sua amante em Paris. Durante o séjour no Emílio Ribas, Bernardo teve uma pálida ideia do que é esse sentimento - apartado de sua namorada por um vidro durante todo o período em que passou no hospital. "Visitas, nem com máscara. Só falávamos pelo celular." Felizmente, seu quadro de saúde evoluiu bem. A carga viral baixou progressivamente até ele receber alta, que ficou registrada em atestado por escrito para que pudesse, na volta, tranquilizar as pessoas de seu convívio social.

As providências, no entanto, não impediram a contaminação da mãe de Bernardo, que dias depois apresentou febre de 39 graus e teve os pulmões afetados. "Essa foi a pior parte para mim. Enfrentar a doença é mais fácil do que a culpa de contaminar uma pessoa que a gente ama." Para seu alívio, porém, ela reagiu bem aos medicamentos e, três dias depois, saiu do Emílio Ribas. Se o atendimento que Bernardo recebeu das autoridades de saúde do País até sua alta foi satisfatório, o mesmo não ocorreria depois.

TRAPALHADA

No intervalo de tempo em que voltou para a casa e a mãe continuava em isolamento, Bernardo conta a visita insólita que recebeu. Ele próprio foi ao portão atender um grupo de funcionárias da vigilância sanitária que veio dar instruções à família sobre o caso. "Estranhei quando elas pediram para falar com minha mãe. Respondi que ela estava internada. ?Com o Bernardo??, perguntaram. Eu disse: ?Não, Bernardo sou eu?." Ele viu, então, as profissionais de saúde arregalarem os olhos e correrem desembestadas de volta para a van, onde colocaram suas máscaras de proteção. "Foi uma falha de comunicação inadmissível", queixa-se ele. "Fizeram um escândalo desnecessário na frente de todos os meus vizinhos."

O estigma colado ao doente e a desinformação das pessoas foi o que ficou da experiência para ele. "Tomar medidas de prevenção diante de um paciente é perfeitamente aceitável. Mas o pânico e o preconceito só pioram a situação e afetam a autoestima de quem já está fragilizado", diz. Aos poucos, Bernardo Riel vai deixando as marcas da gripe do porco para trás e retomando sua vida normal. Os colegas mais desconfiados, que mesmo diante do atestado de cura insistiam em cumprimentá-lo à distância, voltam a estender-lhe a mão. "Ficou só a gozação dos meus amigos palmeirenses", diz, aliviado, esse são-paulino doente.

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