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O intercâmbio cultural entre Brasil e França, dos tupinambás até hoje

Livro de Adriana Brandão relata o fascínio de um país pelo outro ao elencar os brasileiros ilustres que viveram em Paris

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2019 | 16h00

Cheguei ao Brasil em 20 de março de 1951. Viajei em um grande avião a hélice, lento e caprichoso. Ele pousava assim que via um aeroporto, Lisboa, Dakar, Recife. No Rio, admirei de imediato o Cristo do Corcovado, disse a mim mesmo que estava no hemisfério sul e ia direto para São Paulo, pois fora contratado pelo Estado. No caminho para a rua Barão de Duprat, fiquei ansioso porque não conhecia uma única palavra em português. Eu estava errado. Se o idioma francês já havia perdido parte do seu mercado em favor do inglês, ele continuava vivo. De fato, no jornal, encontrei alguns redatores que se exprimiam num francês fluente, elegantes, em desuso e um pouco correto demais.

Me pediram notícias de Anatole. Para minha vergonha, eu não conhecia esse Anatole. E Gustave? E Charles? Emile, então, aquele que escreveu os Rougon-Macquart? País feliz, tão imbuído da literatura francesa que, deslumbrado, se referia aos grandes pelo primeiro nome. Então, um deles me tentou me passar uma rasteira: se eu pegasse o metrô em Mairie d’Issy, que mudanças deveria esperar para chegar a Barbès Rochechouart? Eu emudeci.

Esse especialista em metrô jamais estivera em Paris. Ele só havia falado de seu desejo. Paris fazia falta a ele. Era louco por esta cidade. Em seus sonhos, ele pegava o metrô, passeava pelas ruas do Quartier Latin, principalmente a rua Guenégaud. Algumas noites, quando o calor sufocava São Paulo, ele fazia um piquenique nas margens do Sena, na companhia de moças boêmias e de Guy...

Guy?

“Maupassant... Eu gostaria tanto de morar em Paris. Então, recito a lista de estações de metrô ou dos bairros. Eu seria um bom motorista de táxi parisiense. Mesmo nas árvores de Paris, acho-as mais notáveis que as nossas. Admiro especialmente as do Champ de Mars. Veja, eu gosto do meu país, o Brasil, mas como bem diz Arthur, “a vida real está em outro lugar.”

Hoje, esse sonhador enérgico percorre outros prados. Ele mora do outro lado das nuvens. Se ele ainda sonha sempre com Paris, talvez seus passos perdidos o levem à livraria Chandeigne, rue Tournefort. Lá, ele virará as páginas do belo livro de Adriana Brandão, Les Brésiliens à Paris (Os Brasileiros em Paris). Ele ficará maravilhado como eu. Como eu poderia imaginar que havia tantos, ao longo dos séculos, brasileiros famosos ou obscuros, que escolheram se instalar em Paris ou fazer longas estadias lá? “Os brasileiros”, disse alguém na Belle Epoque, “descobriam-se brasileiros em Paris”.

Adriana Brandão relata o fascínio que um exerce sobre o outro desde o século 16 e, incessantemente, o Brasil e França. Desde os primeiros anos, os franceses tentaram roubar o Rio de Janeiro dos portugueses, sem sucesso, e de resto a ilha do Maranhão, no Norte, onde instalam por alguns anos a França Equinocial. Em 13 de abril de 1613, chegaram a Paris sob a liderança do capuchinho Claude d’Abbeville, seis embaixadores vindos do Brasil, e índios tupinambás, ansiosos por oferecer seus serviços ao rei da França, Luís XIII, ainda criança. Embaixada curiosa! As relações entre a França e o novo país começaram bem. Os tupinambás reconhecem o rei Luís XIII como soberano de seu país. Eles são batizados. Nós mudamos seus nomes. No ano seguinte, os soldados portugueses retomam a ilha do Maranhão.

Terminou o sonho da França Equinocial, mas os franceses não esquecem a terra do Brasil. São as primeiras testemunhas graças a seus monges capuchinhos, Claude d’Abbeville e Yves d’Evreux, graças a seus estudiosos e escritores. Um pouco mais tarde, Jean de Léry, suíço e francês, e Montaigne, que jamais viu o Brasil, ensinarão que o canibalismo é algo diferente de um repugnante guisado.

O livro de Adriana, que se infiltra nesses meandros da história, é erudito, mas é acima de tudo leve e brilhante. Ele nos convida a uma excursão encantada pelos vinte “arrondissements” (divisões administrativas) da capital. De tempos em tempos, ela para em frente a uma casa ou um palácio. Empurra a porta. Há uma família brasileira lá, nas sombras. Este livro funciona como uma lanterna mágica cujos raios dourados e noturnos iluminam por alguns momentos homens e mulheres que não estão mais lá. Les Brésiliens à Paris oferece um passeio ao lado de alguns brasileiros selecionados, nos séculos do Iluminismo, nos cabarés de Montmartre, nos festivais loucos da Belle Époque ou nos segredos da 2.ª Guerra Mundial. Ficamos sabendo como, graças ao pintor brasileiro Cícero Dias, do sublime poema de Eluard, Liberdade, escrevo seu nome, foi capaz de deixar a França sob a barba dos ocupantes e chamou a atenção de toda a Europa resistente.

Uma questão surge. Os brasileiros que amavam Paris e às vezes se estabeleceram por lá são numerosos. Alguns são humildes ou desconhecidos Outros são famosos: o aviador Santos Dumont, líder dos modernistas de São Paulo, Oswald de Andrade, o economista Celso Furtado, o padre Antônio Vieira (Sermão de Santo Antônio aos Peixes) o cineasta Glauber Rocha, os travestis do Bois de Boulogne, Roland Garros ou o jogador Gustavo Kuerten, Carlos Ghosn, a família do líder comunista Luis Carlos Prestes, o grande escritor Jorge Amado e alguns representantes da princesa Isabel do Brasil, o imperador Don Pedro II.

No entanto, não existem muitos livros franceses que comemorem essa presença brasileira em Paris. Os americanos fizeram melhor. Bastava desenhar alguns de seus escritores, de seus pintores, para que o distrito de Montparnasse fosse reconhecido, entre as duas guerras, e no mundo inteiro, como uma espécie de anexo dos Estados Unidos.

Vejo, é claro, que Montparnasse foi frequentado por dois escritores americanos excepcionais, Ernest Hemingway e Scott Fitzgerald, sem esquecer Ezra Pound, John Dos Passos, T. S. Eliot e, nos bastidores, William Faulkner ou Henry Miller.

Avistávamos também na soleira da livraria de Sylvia Beach, Shakespeare & Company, frequentada por Gertrude Stein, que encontrou um excelente nome para os americanos que se haviam transferido para o café La Rotonde ou o Select, “A Geração Perdida”. Hemingway, que não parecia tão perdido, deu o melhor de si: seu belo livro, Paris É Uma Festa, testemunha isso tudo. Geralmente havia mulheres bonitas cujos costumes sexuais eram divertidos. Todo esse pequeno mundo fazia muito, muito barulho.

Os brasileiros, dos quais Adriana Brandão conta as tribulações em Paris são mais discretos, menos gregários. Eles nunca formaram comunidades densas e organizadas. Há outra diferença: os americanos da geração perdida foram a Paris esquecer os mortos na guerra. Os brasileiros não tiveram a mesma experiência, apesar de o País ter se juntado às nações aliadas, mas foi nos últimos meses do conflito, em outubro de 1917, e sua participação foi mais simbólica que militar.

Portanto, não foi a guerra europeia que levou os brasileiros a deixar seu país para se estabelecer em Paris. Foi primeiro o fascínio que a capital francesa exerce sobre os brasileiros. Às vezes, foi a instabilidade política do Brasil marcada por dois episódios fascistas, primeiro com Getúlio Vargas após 1939 e depois, mais perto de nós, quando um punhado de generais assumiu o controle em Brasília, de 1964 a 1985. Ao longo dos parênteses fascistas, a resistência da sociedade civil brasileira foi forte e muitos foram levados ao exílio. Paris era um destino privilegiado – alguns padres, cantores, escritores, intelectuais. Alguns grandes professores brasileiros lecionaram na Sorbonne, na Universidade de Vincennes ou na École Pratique des Hautes Études. Podemos citar o grande economista Celso Furtado ou Fernando Henrique Cardoso, que foi presidente do Brasil de 1995 a 2002.

Neste ano de 2019, chega ao poder, com a extrema direita em torno, o presidente Jair Bolsonaro. Graças a Deus esse ex-soldado (capitão desta vez, não general) chegou ao poder por meios legais, não por um golpe de estado. Espera-se que o Brasil permaneça fiel às suas tradições democráticas e que entre a França e o Brasil continue o feliz companheirismo que foi inaugurada uma vez por frades capuchinhos e pelos índios tupinambás. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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