Instituto Hercule Florence
Instituto Hercule Florence

O inventor francês que descobriu a fotografia no Brasil

Hercule Florence estava exilado no Brasil quando 'inventou' a fotografia e seu relato inédito é lançado em um livro luxuoso

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2018 | 16h00

Escrito por Hercule Florence (1804-1879) entre 1837 e 1859, seu livro inédito L’ami des Arts Livré à Lui Même acaba de ganhar uma luxuosa edição fac-símile com edição limitada de 300 exemplares numerados pelo IHF (Instituto Hercule Florence). Disponível para download no site do instituto (http://www.ihf19.org.br/pt-br), o livro, um emocionante relato da vida daquele que é considerado um dos inventores da fotografia ao lado de Niépce e Daguerre, revela episódios pouco conhecidos de sua trajetória, entre os quais sua decepção ao ser informado por um amigo da existência de experiências com a fotografia na França, o que o fez declarar que se sentia como um “exilado” no Brasil, vivendo mesmo no fim do mundo por não ter seu valor reconhecido lá fora. Nascido em Nice, ele passou a infância em Mônaco e, após uma leitura de Robinson Crusoe, de Daniel Defoe, deslumbrado com a vida marítima, resolveu virar grumete aos 16 anos. Veio parar no Brasil, aos 20 anos, a bordo de uma fragata. Nunca mais deixou o País. Aqui viveu, casou duas vezes, teve 21 filhos (um deles fora dos dois casamentos) e participou da histórica Expedição Langsdorff (entre 1825 e 1829). 

Documento que trata, inclusive, da expedição – o relato mais completo da viagem fluvial empreendida pelo barão russo George Heinrich von Langsdorff–, L’Ami des Arts tem 423 páginas e vem dividido em dois livros. O primeiro é a edição fac-símile do manuscrito de Florence. O segundo traz a transcrição do original (em francês), textos técnicos e índices remissivos. Os dois volumes são acondicionados numa caixa revestida com seda inglesa e gravação em hot stamp prata. É a primeira iniciativa editorial do IHF, fundado em 2007, mas não será a única, segundo o presidente do Conselho de Administração do instituto, o advogado Antonio Florence, que, animado com o resultado, tem outros planos para a obra do tataravô.

O nome de Florence como um dos criadores da fotografia já tem reconhecimento internacional desde os anos 1980. Há um ano ele foi homenageado com uma exposição no Novo Museu Nacional de Mônaco (Hercule Florence: Le Nouveau Robinson) que exibiu trabalhos raros do inventor e publicou um catálogo bilíngue com textos de especialistas, entre eles o fotógrafo e historiador Boris Kossoy, autor de um livro fundamental sobre ele (Hercule Florence: A Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil, Edusp).

Em L’Ami des Arts Livré à Lui-Même, o leitor tem acesso a informações preciosas tanto sobre os inventos de Florence, descritos de forma minuciosa por ele, como sobre sua biografia – a infância e adolescência em Nice, Mônaco e Vintimille, sua chegada ao Brasil e o convite para participar da expedição Langsdorff como segundo desenhista da missão científica que percorreu o Brasil e chegou à Amazônia, levantando dados geográficos e etnográficos do país. Graças a ele temos registros de etnias que hoje correm o risco de extinção, como os Guató, do Pantanal, hoje reduzidos a 500 indivíduos, segundo o filme de Joel Pizzini, 500 Almas. Também se deve a Florence registros da flora e fauna e um estudo singular sobre a formação das nuvens, um atlas lírico-pictórico com belas aquarelas.

“O IHF pretende publicar uma outra edição fac-símile dos cadernos de desenhos de Hercule que estão na França”, revela Antonio Florence, destacando a ressonância do trabalho do tataravô entre etnólogos, antropólogos e historiadores – há três anos foi realizado um encontro que discutiu os trabalhos de Florence sobre sete etnias de índios brasileiros. “Também localizados os cadernos de desenhos de Taunay da expedição Langsdorff, restauramos, digitalizamos e agora eles estão disponíveis ao público no site do IHF”.

Embora não fosse tão bom desenhista como Aimé-Adrien Taunay, Florence compensou essa diferença com seu olhar agudo da natureza brasileira. Exemplo dessa capacidade de observação, por exemplo, são os retratos dos índios Bororo, cujo valor antropológico pode ser medido pela maneira como o artista reproduz seus artefatos e a postura dos homens e mulheres dessa etnia. Porém, o que chama mais a atenção no livro de Florence é a descrição precisa, quase didática, de seus inventos, entre eles a poligrafia, que antecedeu em dois anos a descoberta da fotografia, inventada por acaso – ele buscava um processo de impressão barato numa cidade em que não existiam tipografias (ele foi o introdutor da tipografia em Campinas).

É comovente a descrição do momento em que Florence descobre, por meio de um amigo, que um jornal carioca havia publicado uma matéria anunciando a descoberta da fotografia por Daguerre na França, em 1839. Em L’Amis des Arts, o inventor revela que ficou deprimido e jurou a si mesmo que jamais voltaria a tentar novamente algo na área. Historicamente, Florence foi o primeiro a usar o vocábulo photographie, em 1833, como é possível atestar lendo suas anotações. Não sem razão, o título do livro agora publicado (cuja tradução livre seria algo como O Amigo das Artes Abandonado à Própria Sorte) traduz fielmente a situação de um morador de província que precisaria estar em Paris para ser reconhecido. Com todas as letras, Florence diz: “Estou no exílio”. Prova disso é que a França o ignorou quando ele enviou duas provas poligrafadas, em 1831, ao Ministério do Interior de Paris, uma delas reproduzindo um índio Apiacá. O silêncio francês foi sepulcral. 

O IHF, que tem 5 mil títulos sobre o século 19 no Brasil, incorpora agora essa triste, mas heroica, história de Hercule Florence escrita por ele mesmo. “Gostaríamos muito de mostrar essa trajetória contada na exposição Le Nouveau Robinson, montada em Mônaco, e estamos à procura de um parceiro para concretizar o projeto”, anuncia o tetraneto Antonio Florence. Em tempo: o curador da exposição, Cristiano Raimondi, é o mesmo que levou a pintura de Volpi para o mesmo museu. “Temos, além dessa mostra, outros projetos, com o uma exposição mostrando Florence como referência primeira da iconografia paulista e continuamos a digitalização de todo o seu acervo com a Unicamp”, diz o descendente orgulhoso Antonio Florence.

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