O Jassa de Pyongyang

A Radio Free Asia noticiou na terça que universitários do sexo masculino da Coreia do Norte estão obrigados desde o início do mês a adotar o mesmo corte de cabelo de Kim Jong-un, líder máximo do país. Alunas teriam que seguir o corte da mulher do ditador, Ri Sol-ju.

JAKE SCOBEY-THAL , FOREIGN POLICY, JAKE SCOBEY-THAL, JORNALISTA BASEADO , NA BIRMÂNIA. ESCREVE SOBRE DIREITOS , HUMANOS, QUALIDADE DE VIDA, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2014 | 02h08

Ouçam, jovens depravados da Coreia do Norte: sua revolução dos cabelos compridos oficialmente acabou.

De acordo com a Rádio Asia Livre, o governo norte-coreano emitiu diretriz ordenando que todos os jovens universitários do sexo masculino adotem o corte de cabelo do seu líder supremo, Kim Jong-un - raspado dos lados e formando uma espécie de ninho em cima. A ordem foi expedida para Pyongyang há duas semanas e agora teria sido estendida a todo o país.

Como muitas notícias que partem desse país, essa última sobre moda norte-coreana deriva de fontes não muito consistentes. A história pode muito bem ser falsa e sua veracidade já foi mesmo posta em dúvida. Mas, se verdadeira, não seria a primeira vez que o governo impõe restrições a cortes de cabelo. No ano passado o regime estabeleceu 28 cortes aceitáveis - 10 para homens e 18 para mulheres - que eram expostos em fotos emolduradas nos salões de cabeleireiro de Pyongyang. Em 2005, a Coreia do Norte lançou uma cruzada contra cabelos compridos. Uma campanha na mídia dizendo "vamos cortar nosso cabelo de acordo com o estilo de vida socialista", instava os homens a adotarem um corte baseado "nas exigências da era preponderantemente militar". Segundo o Minju Choson, um diário do governo, "essa é uma questão muito importante que mostra o padrão cultural e o estado moral e mental das pessoas".

Por sua depressão econômica e deploráveis dados no campo dos direitos humanos, a Coreia do Norte é única. Mas na suposta estratégia de controlar a sociedade determinando seu corte de cabelo, não está sozinha. Na verdade, há séculos regimes autoritários em todo o mundo impõem sua vontade política controlando as madeixas dos homens.

Depois que os manchus conquistaram a China nos anos 1640, os novos governantes do império expediram um decreto ordenando que todos os homens em idade adulta raspassem a parte dianteira da cabeça e prendessem o restante do cabelo em um rabo de cavalo. A pena para o não cumprimento da ordem era a morte. O edito, lembrou o ex-diplomata americano Ear Rice em seu livro Mao's Way, "lembrava os chineses de sua subordinação ao regime manchu". Do ponto de vista dos conquistadores, "a ordem para cortar o cabelo ou perder a cabeça não só pôs dirigentes e subordinados num único padrão físico, mas também funcionou como perfeito teste de lealdade", como observou o historiador Frederic Wakeman em seu livro The Great Enterprise, sobre a conquista manchu.

Quase na mesma época, na Rússia, Pedro, o Grande, tentou pôr fim às barbas, que considerava uma relíquia inútil do passado do país. Desejando modernizar a Rússia nos moldes ocidentais, estabeleceu um imposto sobre o uso da barba. Os homens que pagavam o tributo recebiam um distintivo de cobre com a inscrição "a barba é um incômodo inútil". Alguns séculos depois, durante a década de 1970, o ditador da Albânia, Enver Hoxha eliminou os métodos do livre mercado e proibiu completamente a barba. Saparmurat Niyazov, ex-presidente do Turcomenistão, copiou essa restrição à liberdade pessoal quando apareceu na TV em fevereiro de 2004 para ordenar que os jovens não deveriam mais deixar o cabelo ou a barba crescerem.

Em outras partes do mundo decretos controlando os penteados com frequência foram sancionados em nome do Islã. Depois de assumir o controle do Afeganistão em 1996, o Taleban passou a exigir que os homens usassem barbas de acordo com a severa interpretação da sharia pelos militantes. Em 2010, militantes islâmicos na Somália determinaram que os homens em Mogadiscio não deveriam mais raspar a barba.

Os clérigos do Irã impuseram suas próprias restrições por motivos religiosos em 2010. Rabos de cavalo e cortes chamados mullet (curto na frente e dos lados e comprido atrás) foram proibidos, enquanto se privilegiava a cabeça raspada e o cabelo repartido do lado.

"Os estilos propostos são inspirados na cultura, religião e cútis dos iranianos e na lei islâmica", afirmou Jaleh Khodayar, diretor do festival em homenagem ao dia do véu e da castidade no Irã. Gel no cabelo foi permitido, mas em quantidades modestas.

Independentemente de religião, governos autoritários não parecem gostar muito dos hippies. Depois de derrubar o governo eleito na Grécia num golpe militar em 1967, Georgios Papadoulos baniu os "decadentes" cabelos compridos para os homens e as minissaias para as mulheres. Na década de 1970, Lee Kuan Yew, de Cingapura, recusou conceder visto de entrada no país a estrangeiros cujos cabelos fossem muito compridos. Jovens sem um corte de cabelo apresentável "não podem trabalhar como caddies nos campos de golfe onde Lee maneja seus tacos", disse Alex Josey no livro Lee Kuan Yew: The Crucial Years.

O poder às vezes nasce das tesouras de um barbeiro. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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