O lado não musical da 'Rolling Stone'

Revista se afirma no jornalismo outsider, recuperando a forma e investigando os abusos do poder

Howard Kurtz, do Washington Post

26 de junho de 2010 | 16h00

No verão de 2008, o fundador da Rolling Stone, Jann Wenner, encerrou uma entrevista com Barack Obama – para cuja campanha ele fez contribuições financeiras – dizendo: “Boa sorte. Estamos acompanhando diariamente sua candidatura com muita esperança e admiração”.

 

Nessa semana, a revista que apoiou Obama abriu um rombo em seu governo ao publicar comentários ásperos feitos pelo general Stanley McChrystal e seus assessores a respeito do presidente e outros funcionários da Casa Branca. Além de custar a McChrystal o emprego, na quarta-feira, o artigo destacou a terrível frustração sentida por aqueles que travam a mais longa guerra dos EUA.

 

“Estou pasmo”, afirma Wenner, uma hora após Obama anunciar a demissão. “Trata-se de um acontecimento de grande importância.” Mas ele diz que ninguém deveria se surpreender com o papel desempenhado pela revista nova-iorquina: “Há anos nossa especialidade é o jornalismo narrativo, as reportagens em profundidade e a política. Sempre me atraiu a ideia de poder manifestar opiniões a respeito da política nacional”.

 

Eric Bates, editor da Rolling Stone, reconhece que “perdura a impressão de que somos apenas uma revista de música que não deveria se envolver em questões como o Afeganistão. Chamo isso de ‘síndrome do lugar errado’”. Mas diz que essa visão está mudando depois que a revista quinzenal publicou matérias investigativas sobre temas como o vazamento da BP e o resgate de Wall Street.

Houve queixas segundo as quais McChrystal deve ter imaginado que falava em off com o repórter Michael Hastings – que já foi correspondente da Newsweek e trabalhou para o Washington Post – e que, em um dos casos, um assessor do general teve citados comentários feitos enquanto ele bebia.

 

Mas Bates diz que “não se trata de um caso no qual uma pessoa faz uma declaração em off e os repórteres guardam seus gravadores. Os depoimentos foram registrados ao longo de semanas. Eles estavam trabalhando, estavam na sala de guerra”.

 

Do Afeganistão, Hastings diz que os comentários – desde as manifestações de descontentamento de McChrystal ao receber um e-mail do enviado Richard Holbrooke até um comentário ofensivo feito por um dos assessores em referência ao vice-presidente Joe Biden – estão registrados em gravações e anotações minuciosas.

 

O único equívoco da Rolling Stone foi ter esperado até o fim da manhã de terça para publicar a matéria na internet, permitindo que sites como Politico.com e Time.com atraíssem muitos acessos com a publicação integral de páginas de uma reportagem que ainda não tinha chegado às bancas. Os sites retiraram a matéria após queixas de Bates.

 

É verdade que a revista, cuja tiragem chega a 1,5 milhão de exemplares, é mais conhecida por capas com artistas como Jay-Z, Mick Jagger e Black Eyed Peas (a média de idade de seu público leitor é 30 anos). De fato, a capa da edição atual não traz o “General Rebelde”, e sim Lady Gaga, que aparece com um par de armas automáticas afixadas ao sutiã.

 

Matt Taibbi, cujas reportagens raivosas e repletas de palavrões seguem os passos de Hunter Thompson, diz que a visão do público a respeito da revista mudou desde que ele começou a trabalhar na Rolling Stone, há seis anos. “Quando eu telefonava para um banco, o funcionário encarregado das relações públicas me perguntava, ‘Por que está entrando em contato conosco?’ Mas isso tem acontecido cada vez menos.”

Taibbi diz que perdeu amigos no governo após a publicação de uma reportagem em dezembro intitulada A Grande Traição de Obama, na qual ele se perguntava se o presidente seria “um vacilante e ineficaz servo dos interesses dos banqueiros”. Em março, pouco antes da aprovação da reforma do sistema de saúde, Taibbi escreveu que Obama “fez tudo errado”, juntamente com “sua equipe de crápulas de duas caras, como Rahm Emanuel ... dispostos a entregar cada milímetro do corpo político à indústria farmacêutica e às seguradoras”.

Sem dúvida tais reportagens foram mais surpreendentes que a matéria de capa de Sean Willentz sobre George W. Bush publicada em 2006 com o título O Pior Presidente da História?  O colunista conservador Jonah Goldberg certa vez escreveu que “a Rolling Stone se converteu num órgão de comunicação do Comitê Nacional do Partido Democrata”. Assim, é notável que a revista – imbuída da “missão” de promover “justiça social” – ataque Obama a partir da esquerda.

 

Wenner se diz desapontado com boa parte do histórico presidencial de Obama e perturbado ao perceber o surgimento de um padrão de conduta. “É muita ingenuidade acreditar que seja possível mudar os EUA por meio de uma série de concessões relativas às mais variadas questões.” Wenner diz que ainda “torce” por Obama, mas não foi convidado a visitar a Casa Branca: “Não sou membro do clube de senhores distintos”.

O mesmo pode ser dito de muitos dos repórteres da Rolling Stone, entre eles o próprio Hastings, que em 2008 escreveu um livro sobre a morte de sua noiva, vítima de um carro-bomba quando os dois estavam no Iraque. Ele conseguiu a reportagem sobre McChrystal que ninguém mais foi capaz de (ousar) obter ao passar um mês essencialmente incorporado à equipe do general.

 

Após 43 anos de publicação, a revista conquistou o direito de se considerar uma representante do jornalismo outsider, que passa pelas orgias de álcool e drogas de Thompson. As observações de Timothy Crouse a respeito dos repórteres durante as eleições presidenciais de 1972 viraram o clássico Boys on the Bus. Em 1979, os artigos de Tom Wolfe sobre os sete astronautas originais da Nasa foram reunidos no livro Os Eleitos. Evan Wright estava incorporado a uma unidade dos fuzileiros navais durante a invasão do Iraque, em 2003, e suas reportagens se transformaram num livro e depois numa série da HBO chamada Generation Kil.

 

A cobertura da revista pode ser carregada de intenções políticas, mas os textos gozam de liberdade. “Eles nos dão muito espaço para abordar o tema que quisermos e não há interferência editorial em termos de ponto de vista político; pode-se usar o vocabulário desejado sem intromissões”, diz Taibbi. Bates acredita que a Rolling Stone está voltando às raízes. “Nos últimos dez anos, a revista fez questão de investigar abusos de poder.”

 

Wenner traz uma explicação simples: “Não somos uma empresa pública que teme as implicações econômicas das reportagens. Somos independentes. O dono sou eu”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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