O longo e épico adeus

Fidel se afastou do poder como viveu sua vida: sempre no centro das atenções

Jon Lee Anderson*, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 20h53

No início dos anos 90, quando eu morava em Havana com a família, minha filha mais velha, Bella, então com cerca de 6 anos, chegou da escola num estado de excitação. Ela me perguntou, em espanhol: "Papai, você sabe o que significa amor?" Fingi que não sabia. Bella respirou fundo e recitou: "Amor es lo que Fidel siente para el pueblo".Cuidando para não demonstrar meu incômodo, parabenizei Bella por sua memória, e ela brilhou de orgulho. Compreensivelmente, estava muito feliz com a façanha escolar.A escola primária de Havana que Bella freqüentava chamava-se Eliseo Reyes, em homenagem a um guerrilheiro cubano que acompanhara Ernesto Che Guevara na expedição final à Bolívia e morrera com ele no país, lutando pela causa da revolução marxista. Acima da porta principal da escola, uma placa de madeira dizia: "Muerte a Traidores".A cartilha de Bella trazia pequenos símbolos ilustrando cada letra do alfabeto. O símbolo de "F", por exemplo, era um fuzil, enquanto o de "T" era um tanque. Espalhavam-se pelo livro dizeres de Fidel sobre a importância da educação, do estudo e do dever revolucionário. Também havia fotos. Uma mostrava um jovem Fidel entrando em Havana num tanque. Outra o exibia no calor da batalha, comandando as tropas cubanas durante a invasão da Baía dos Porcos , em 1961. Na cartilha escolar, Fidel Castro sempre era citado apenas como Fidel.Inevitavelmente, nos três anos que vivemos em Cuba, Fidel se tornou uma figura ao mesmo tempo familiar e emblemática para meus filhos - metade avô, metade Deus. Com os feitos e aforismos de Fidel servindo de alimento diário e seu rosto e sua voz onipresentes toda noite na televisão, meus filhos aprenderam que El Jefe Máximo era o supremo guia que controlava suas vidas e as de todos ao redor. Ele representava o passado, o presente e também o futuro. Fidel, de algum modo, era Cuba.Agora, aparentemente, Fidel renuncia. A doença e a idade já o obrigaram a deixar a arena pública, que ocupou por quase meio século, para sumir num longo isolamento desde julho de 2006. À parte o estilo basicamente silencioso de seu demorado adeus, pareceu adequado Fidel ter se afastado do mesmo modo que viveu sua vida - como num longo épico. Ao não aparecer em público, ao desaparecer e no entanto não desaparecer, ele continuou sendo, claramente, o centro das atenções em Cuba, como sempre foi.Se a sobrevivência é uma virtude, Fidel é de fato um grande virtuoso, pois está conosco há muitíssimo tempo. Em 1957, quando ele estava na Sierra Maestra combatendo o ditador cubano Fulgencio Batista, Dwight D. Eisenhower era o presidente americano e os Estados Unidos ainda tinham só 48 Estados. Durante os dois anos da guerra de guerrilha de Fidel, os soviéticos puseram o Sputnik no espaço, Detroit lançou o Ford Edsel e Leave it to Beaver estreou na TV americana.Fidel tomou o poder em janeiro de 1959 e se transformou no mais longevo líder político do mundo, sobrevivendo não apenas a nove presidentes americanos, mas também a seu maior patrocinador ideológico e financeiro, a União Soviética. O comunismo ruiu; Fidel, não.Ao longo das décadas, ele deixou sua marca muito além das fronteiras de Cuba. Da ruptura com os Estados Unidos, da adoção do socialismo e da aliança com a URSS (que levaram à invasão da Baía dos Porcos e depois à crise dos mísseis) ao patrocínio a longo prazo da revolução marxista na América Latina e na África, o desafio de Fidel à hegemonia americana no exterior acabou por redefinir a Guerra Fria.A relevância política internacional de Fidel pode ter definhado depois da era do confronto das superpotências, mas sua mera sobrevivência o transformou num dos estadistas mais velhos do mundo, e também um dos mais admirados. O embargo comercial dos Estados Unidos contra Cuba - um rude legado da guerra fria que existe há 46 anos e continua em vigor - só aumentou a torcida pró-Fidel, assim como inspirou outros a seguir seu exemplo de "rato que ruge". O mais proeminente é o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, que deixa bem clara a intenção de imitar Fidel desafiando com vigor as políticas dos EUA em seu país e ao redor do mundo.Já em Cuba, pode-se dizer que a revolução foi um experimento político, social e econômico bem-sucedido em alguns aspectos e desastroso em muitos outros, garantindo que seu legado doméstico será controverso e, talvez, tão duradouro quanto seu governo.Muitos cubanos são genuinamente leais a Fidel e têm pavor das incertezas que sua morte deverá trazer. Seu irmão mais novo, Raúl, assumiu discretamente o papel consagrado de sucessor de Fidel. Isso já representou uma espécie de continuidade, mas a idade avançada de Raúl, 76 anos, significa que ele será apenas uma figura de transição. Assim, o futuro do país ainda é uma questão em aberto.Por outro lado, muitos cubanos sonharam durante anos com a morte de Fidel, convencidos de que o destino os puniu entregando suas vidas a esse homem particularmente obstinado, egocêntrico e resistente. Sob ele, suas vidas transcorreram numa espécie de invólucro de realidade sufocante, um reino exclusivamente cubano no qual o tempo pára e avança simultaneamente, oscilando entre episódios dramáticos ligados inextricavelmente aos caprichos e desejos de Fidel. Como ele sempre imaginou a si mesmo, seus compatriotas e Cuba envolvidos numa luta heróica - pelo socialismo, contra o imperialismo, em defesa da soberania nacional e assim por diante -, isso de algum modo se concretizou. Graças à sua constante exaltação da rotina cubana como algo vital na luta pela sobrevivência da revolução, existe um senso coletivo de significado no dia-a-dia de Cuba.Em 2005, por exemplo, depois que Fidel lançou uma campanha nacional de economia de energia, seu governo importou uma enorme quantidade de panelas de pressão chinesas e começou a distribuí-las aos cubanos a preços subsidiados. Em seguida, numa série de discursos na TV, ele explicou os problemas energéticos de Cuba e argumentou que a eficiência das panelas de pressão transformara sua aquisição num dever patriótico. É difícil imaginar alguém, que não Fidel, capaz de transformar um utensílio de cozinha numa prioridade nacional urgente.Com Fidel dedicando a mesma paixão a tudo, das campanhas de erradicação de mosquitos - "a batalha contra a dengue" - à luta para "preservar as conquistas do socialismo", a existência cotidiana adquiriu um sentido solene, mas freqüentemente desolado para os cubanos, pois as escaramuças na grande revolução são intermináveis e o futuro perfeito nunca chega.Suspeito que, com Fidel afastado, não só seus defensores sintam sua falta, mas também seus oponentes. Por mais que eles tenham sofrido, a qualidade épica de suas próprias vidas desaparece com o eclipse da era de Fidel. O próximo golpe será sua morte e, inevitavelmente, o rebaixamento da história cubana e, talvez, da própria ilha. Se, nos últimos 49 anos, Fidel foi Cuba, o que Cuba será sem ele?Todo cubano entende que a renúncia de Fidel - ou mesmo sua morte - não levará necessariamente ao fim do longo impasse entre Cuba e Estados Unidos e, de um modo ou de outro, o futuro da ilha será determinado, direta ou indiretamente, como sempre foi, por decisões tomadas em Washington.Há poucos anos, Caleb McCarry, nomeado "coordenador da transição em Cuba" pelo governo Bush, disse-me que, mesmo se Raúl Castro adotasse medidas para abrir a economia, como fez a China, isso não alteraria a política dos EUA para a ilha. "Liberdades econômicas são importantes", afirmou McCarry, "mas é preciso haver também liberdade política - democracia multipartidária. No fim das contas, é isso que ajudará os cubanos a encarar o legado da ditadura sob a qual viveram e definir um futuro onde a reconciliação e a liberdade sejam possíveis. Em outras palavras, a solução é uma transição genuína que devolva a soberania ao povo cubano, permitindo que ele decida quem serão seus líderes."Na falta disso, o governo americano "continuará a oferecer uma transição real em Cuba, e continuaremos tratando o regime com firmeza".Tal discurso franco em Washington sobre a promoção da "mudança de regime" soa, para a maioria dos cubanos que conheço, incluindo detratores de Fidel, insuportavelmente intervencionista. Mas isso não é nenhuma novidade; esse discurso é tão velho quanto a nação cubana, ela própria criada pela intervenção dos EUA durante a Guerra Hispano-Americana. Com a independência cubana veio uma série quase ininterrupta de regimes pró-americanos, alguns totalmente submissos.Muito antes de se tornar um socialista, Fidel foi um fervoroso nacionalista cubano que concebeu sua revolução como o antídoto da intromissão ianque ao longo da história do país. Mais tarde, passou a acreditar que ele e sua revolução haviam finalmente garantido a soberania cubana total - ou, como ele dizia com freqüência, a "dignidade" - ao enfrentar os Estados Unidos e sobreviver.Numa conversa que tivemos em 2006, Ricardo Alarcón, o presidente da Assembléia Nacional de Cuba, sugeriu que a independência cubana foi a conquista mais importante de Fidel e sua revolução. Mas Alarcón também pareceu temer que no futuro, depois de Fidel, a soberania do país não esteja mais garantida.Ele afirmou: "Temos um dilema básico, praticamente sem paralelo. Sabe por quê? Porque sempre seremos um país pequeno, enquanto o outro - o seu - sempre será grande. Não importando os problemas que vocês tenham no Iraque, com sua economia e tudo o mais, o fato é que vocês são uma grande potência e Cuba é um pequeno país. Há duas realidades que vocês não podem mudar: a grande desproporção entre as duas nações e sua proximidade geográfica, o que para nós é tudo"."Sabe qual é nosso grande problema? Observamos, e o que vemos é um jogo desigual. Não temos como realmente competir, então tudo o que podemos fazer é apostar na idéia de que um dia haverá nos Estados Unidos um governo motivado por outras idéias, outras atitudes."O tempo dirá. Cada um dos candidatos presidenciais americanos reagiu à renúncia de Fidel com pedidos de liberdade em Cuba. Barack Obama disse que os EUA deveriam estar prontos para normalizar as relações se Havana "começasse a abrir Cuba a mudanças democráticas significativas". Mas por enquanto, depois de 50 anos de revolução e 81 de vida, Fidel está quase no fim, e Cuba e os Estados Unidos permanecem onde sempre estiveram - separados pelo mar, a 145 quilômetros um do outro.

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