O lutador

O nissei Lyoto Machida refaz o caminho dos Gracie e quer consagrar a técnica de sua família no vale-tudo

Ivan Marsiglia, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2009 | 02h49

Las Vegas, 31 de janeiro. A MGM Grand Arena está lotada para a noite dedicada ao mestre de jiu-jítsu brasileiro Hélio Gracie, morto na antevéspera aos 95 anos. A renda, anunciada pelos organizadores é de US$ 5 milhões. O juiz reúne dois lutadores no centro do octagon - ringue de oito lados onde se disputa o Ultimate Fighting Championship (UFC), o mais famoso dos eventos de vale-tudo no mundo. De um lado, o paulista Thiago Silva, a própria imagem do pitboy de cabeça raspada e braços cobertos de tatuagens, balançando ameaçadoramente. De outro, o baiano Lyoto The Dragon Machida permanece imóvel, com suas feições orientais e o corpo sólido, porém modesto em relação ao dos gigantes anabolizados que desfilam na categoria dos meio-pesados. Ambos invictos em 13 lutas, mas o retrospecto do paulista, com nocautes em quase todas, é mais impressionante. Soa o gongo e Thiago vai para cima. Desfecha uma série de socos, que se perdem no ar. Lyoto esquiva-se, estuda o adversário e dispara poucos golpes - todos com endereço certo, porém. Em um movimento rápido, leva-o ao chão com uma rasteira. De pé novamente, o paulista tenta manter o ímpeto, que parece arrefecer diante de um adversário que não se deixa atingir. Ao mesmo tempo, no intervalo de uma respiração, no átimo de segundo em que Thiago afrouxa a guarda ou se coloca no contrapé - é ali que o golpe de Lyoto entra, firme e certeiro. Como a joelhada que aplicou no fígado do ex-campeão Tito Ortiz em maio do ano passado, no UFC 84, levando-o ao solo. O primeiro round, que dura cinco minutos, vai se aproximando do fim. Thiago sabe que está levando a pior e precisa tirar a diferença. Empurra Lyoto para o córner com uma sequência de socos. O baiano encosta-se no alambrado, gira o corpo e, num movimento casado de pernas e braços, joga o paulista ao solo mais uma vez. Silva mal toca as costas na lona e Machida já está sobre ele, desferindo um único direto de direita que o deixa inconsciente. "Eu nunca tinha visto ninguém lutar como ele", diz o americano Dana White, atual presidente do UFC. "Fazemos estatísticas sobre as lutas e, na história do evento, ele é o lutador que menos foi atingido. Levou apenas um golpe a cada dois rounds e meio. Isso é maravilhoso." Para o principal comentarista de artes marciais da TV americana, o ex-lutador Bas Rutten, Machida "luta de maneira muito inteligente, mantendo-se na defensiva e aguardando o erro do adversário para contra-atacar". Rutten acha que ele tem boas chances de conquistar o cinturão ainda em 2009.Aos 30 anos, Lyoto é filho caçula do imigrante Yoshizo Machida, um dos pioneiros no Brasil do caratê - técnica de combate sem armas, cuja tradução literal é "o caminho das mãos vazias". Engenheiro civil nascido na cidade de Ibaraki, no Japão, Yoshizo chegou ao Brasil em 1968 e trabalhou abrindo estradas e construindo pontes no interior do Pará - Estado que abriga a terceira maior colônia japonesa do País. Ao final do contrato, sem nenhum conhecido em Belém e com dificuldades com a língua que duram até hoje, Yoshizo chegou a passar fome. "Não voltei pro Japão porque seria uma vergonha", diz. Resolveu, então, viver da faixa preta - hoje, sétimo dan. Começou a dar aulas em academias até fundar a própria, a Apam - Associação Paraense de Artes Marciais. Depois se casou com a funcionária pública Ana Cláudia Carvalho, com quem teve os filhos Takê, Chinzô, Lyoto e Kenzô, dedicados ao caratê com exceção do último, que é repórter da TV Globo em Brasília. Lyoto deve ao caratê até mesmo o encontro com aquela que seria sua mulher. Foi durante um treino, aos 15 anos, que ele conheceu a paraense Fabyola. Numa certa segunda-feira, ela o desafiou para o namoro. Lyoto recuou: disse que precisava pensar e pediu que ela voltasse na quarta. "Meu pai educou a gente assim, muito bruto, muito tradicional", diverte-se hoje, casado e com um filho de 7 meses, Taiyô, que significa "sol" em japonês.Quando o adolescente Lyoto - fascinado pelas proezas de Royce e Rickson Gracie, filhos do lendário Hélio - disse que queria lutar no vale-tudo, o pai não concordou. Como diversos outros representantes de escolas tradicionais de artes marciais, mestre Machida não via muita nobreza nesse tipo de evento. Percepção semelhante à do filme Cinturão Vermelho (2008), do britânico David Mamet, que narra a história de Mike Therry, professor de jiu-jítsu aferrado à tradição, para quem "a competição desvirtua a luta, pelo simples fato de que uma competição não é uma luta". Machida impôs ao filho a condição de que se formasse na faculdade antes de escolher seu caminho. Até o diploma de educação física chegar, Lyoto, faixa-preta de caratê desde os 13 anos, aperfeiçoou sua técnica na academia da família em Belém, e praticou jiu-jítsu e sumô. Do primeiro, conta, vem a "pegada" e o timing preciso de seus golpes; do segundo, a qualidade de sua luta de solo; do terceiro, a base que o torna um adversário difícil de se derrubar, como sentiu na pele Thiago Silva. O nocaute que Lyoto lhe impôs, exibido ao vivo pelo SporTV, foi visto no Brasil por cerca de 300 mil telespectadores, segundo levantamento da emissora. Um público predominantemente jovem, entre 25 e 34 anos, classe AB. Sem falar nos 27 mil pacotes de pay-per-view, com todas as lutas nas mais variadas modalidades, renovados a cada ano. Um interesse que não surpreende o executivo Elton Simões, diretor do Premiere Combate e do canal BBB: "Os brasileiros inventaram esse tipo de esporte, que virou um grande negócio. Lutadores como Anderson Silva, Minotauro e Wanderlei Silva são verdadeiras estrelas no Japão e nos Estados Unidos", conta. O UFC surgiu em 1993, nos EUA, criado por outro dos filhos de Hélio Gracie, Rórion, com os americanos Robert Meyrowitz e Art Davie. Rórion inspirou-se nos antigos desafios que o pai promovia no Rio de Janeiro na década de 50 para provar a superioridade de sua técnica, derrotando pugilistas, capoeiristas e quem mais se dispusesse a enfrentá-lo. Tornou-se histórica a luta do patriarca dos Gracies contra o judoca japonês Masahiko Kimura, 40 quilos mais pesado do que ele, realizada no Maracanãzinho, em 1955 - uma epopeia que durou 3 horas e 45 minutos e só terminou quando o brasileiro teve o braço fraturado pelo oponente. As primeiras edições do UFC também foram marcadas pela superioridade inconteste do clã Gracie. Com seus 80 quilos, Royce vencia adversários de todos os pesos e estilos e sagrou-se campeão das edições 1, 2 e 4 do evento. Posteriormente, a introdução de novas regras e a difusão das técnicas do jiu-jítsu pelo mundo foi reduzindo o diferencial dos brasileiros que, embora competitivos, perderam a hegemonia no vale-tudo. Nos últimos anos, experts em boxe tailandês e luta livre abriram caminho a bordoadas em um espetáculo no qual força bruta e resistência física passaram a ser mais valorizadas do que a técnica - inclusive pelo público, que vai à loucura com o que o jargão do meio batizou de "trocação", a pancadaria explícita e sanguinolenta no ringue. O estilo de Lyoto quebrou esse paradigma. Também chama a atenção para o brasileiro o fato de ele ser representante de um tipo de luta considerado pouco eficiente no vale-tudo: o caratê shotokan. Mais uma vez, a exemplo do jiu-jítsu dos Gracies, o Brasil realiza com os Machida uma espécie de antropofagia marcial, renovando a tradição de uma arte milenar japonesa. Apelidado de "Karatê Kid do UFC" pelo jornal canadense Vancouver Sun, Lyoto compara sua estratégia à arte dos antigos samurais: "Naquela época, qualquer golpe com a espada custava um braço, uma perna ou mesmo a vida. Prefiro vencer apanhando pouco". Apesar da confiança e da tranquilidade que sempre exibe no ringue, o carateca não nega o peso da responsabilidade, que aumenta a cada vitória. Em 2000, o jovem Ryan Gracie, escalado para vingar as derrotas de Renzo e Royce contra o japonês Kazushi Sakuraba, fracassou na revanche. Amigos contam que ele nunca mais foi o mesmo e a decepção que sentiu foi decisiva na espiral de problemas psicológicos que o levaria à morte em dezembro de 2007 numa cela do 91º Distrito Policial, em São Paulo - em um episódio até hoje mal explicado. Com o título mundial ao alcance de suas "mãos vazias", Lyoto se diz sempre pronto para vencer. Estaria, no entanto, pronto para perder? "Preparar-se para a derrota é preciso, mas isso é tão difícil quanto preparar-se para a própria morte. É claro que existe uma pressão muito grande sobre mim - da família, dos fãs, dos praticantes de caratê shotokan em todo o Brasil. Mas quando entro no octagon tento deixar isso tudo de lado, e lembrar que aquele é um momento só meu."

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