O Mal é uma enxurrada

O Mal é uma enxurrada

Renato Janine Ribeiro, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2014 | 16h00

:::MUNDO REAL::: Esta ficção foi baseada nos seguintes fatos de 2014: Pela primeira vez, o IBGE divulga dados sobre o casamento gay no Brasil. Em 2013, para cada mil casamentos héteros, houve três uniões civis entre pessoas do mesmo sexo. No total, ocorreram 3.701 uniões entre pessoas do mesmo sexo. São Paulo registrou o maior número, seguido pelo Rio e por Minas Gerais.

Numa manhã chuvosa de dezembro, a professora Yedda se maquiou com a vaidade que os anos tinham apurado. Passou os cremes que a pele agora rugosa pedia, penteou o cabelo, colocou um broche que só usava em ocasiões especiais. Já do aeroporto, ligou para a bisneta, brincou um pouco com Alice e concluiu: mon chou, tua bisa hoje vai te encher de orgulho. Um dia você saberá por quê. Na capital, um antigo aluno a esperava. Professora, a senhora está bem? Raras vezes na vida, meu filho. Talvez jamais tenha estado tão bem. Penso, e estranhou a emoção que saía em suas palavras, que esta manhã descobri uma grande razão por que escolhi ser historiadora. Meu filho, coçou levemente o olho, sempre duvidei de missões, sou racional demais para crer nisso, mas hoje é uma felicidade sentir que cumpri a maior missão de minha vida.

Chegou cedo à capital, almoçou com orientados das mais diversas idades, gerações que formara, curiosos, alvoroçados, ansiosos. Revelações, dona Yedda, hoje? Nenhuma, meus filhos (ah a idade que fazia olhar como mãe). Nada que não tenham visto na televisão, que não esteja na internet. Nada mesmo. Hoje é só, como se diz, uma cerimônia. O que a emocionou mais? Ensaiou uma risadinha: até parece que estamos na Globo!, que pergunta como você está se sentindo quando perdeu a casa, a família, tudo. Não, não perdi nada. Para um historiador, encontrar o passado perdido é ganhar. Mas custou caro, meus meninos, refazer o itinerário das dores de nosso povo. Lembram quando o projeto passou no Congresso? Que não queria votar nossa Comissão. Ou as discussões no governo, que no começo só queria apurar um dos flagelos históricos. Qualquer um, mas um só. Foi preciso irmos todos a palácio, um cortejo de velhos, nenhum com menos de 80 anos, até convencer a presidenta de que não se lança uma desgraça contra outra. Não se medem desgraças. Não tem cabimento disputar quem sofreu mais. Mesmo assim, quando o projeto chegou ao Legislativo, lembram o que disse o senador cujo nome não pronuncio? Que não havia por que apurar estupros. Que um estupro na verdade é uma bênção... não, uma dádiva, um presente que um homem faz a uma mulher. Que ele lhe dá o que tem de precioso, seu fluido viril e vital. Que nesta era do DNA, em que qualquer célula leva nossa identidade, o esperma é triunfal, superior, porque além de levar reproduz. Que estudar a violência contra as escravas era bobagem. Mulher não gosta de homem poderoso? As escravas não se sentiam prestigiadas quando o senhor as comia? Não se sentiam maiores que suas donas, porque o branco se excitava com elas e não com a madame? Não se sentiam mais fortes que seus próprios homens, que elas assim chifravam? Não se viam amansando os cornos trancados nas senzalas, enquanto o senhor de todos folgava com elas? Mas foi esse discurso amalucado, da tribuna do Senado, que fez passar o projeto. Talvez a passagem sobre amansar o corno... Falcon dizia que não, nunca passaria. Lembram uma revista, que alertou que nosso objetivo era conseguir polpudas indenizações para os descendentes das vítimas e seus defensores? Matérias de capa, semanas seguidas, perguntando se os tataranetos da princesa Isabel não teriam mais direito a parte das indenizações a serem pagas aos descendentes dos escravos? Yedda procurou um recorte, dentro da bolsa; pôs os óculos, eram os errados, quando encontrou os certos ainda precisou ir de notícia em notícia até achar a que queria; leu: “É regra quem recebe uma indenização pagar honorários a quem advogou por ela, e então seria o caso de pagar a liberdade dos escravos a quem a concedeu”; e quantas audiências precisamos ter, até ficar claro que o Paço foi cúmplice do cativeiro o tempo todo, só assinando a abolição quando os negros estavam já em rebelião aberta contra essa indignidade? Ou o editorial, também contra as reparações monetárias a descendentes dos injustiçados, que as ironizava - dizendo que no caso dos homossexuais não haveria a quem pagar, porque se eram homossexuais não teriam descendentes, e se os tiveram foi porque alguma mulher os excitou, e então não eram tão homossexuais assim? E que não havia como compensar nos descendentes as mulheres ofendidas e humilhadas porque seria preciso que os netos e bisnetos dos ofensores, que eram seus maridos, pagassem a si próprios, como netos e bisnetos das ofendidas? E que se não havia como indenizar quem descende de mulheres ou de homossexuais, que justiça haveria em pagar reparações só a quem descende de negros ou de indígenas? E isso tudo, sem que nenhum de nós tivesse falado em reparação. Tivemos que repetir à náusea que somos apenas historiadores, que não pertencemos à área jurídica, nem fomos militantes, que tudo que queríamos era alguma verdade histórica. Queríamos que nossa história mentisse menos, que a verdade se infiltrasse por seus poros, contaminando-a, poluindo suas falsidades, até que as chagas dos humilhados fossem reconhecidas. Quase me envergonhei, sorriu, quando cheguei a invocar as chagas de Cristo e o pau-brasil: se as naus portuguesas aqui vieram com o sangue de Deus Filho nas bandeiras, é bom lembrar que, com o tráfico escravo, elas traziam barris de sangue negro em seus porões; que o europeu veio aqui atrás do bois de braise, para tingir roupas, mas essa brasa ardeu por toda a parte, queimando as vidas de quem alimentava os engenhos; que o cuidado de embelezar as roupas dos europeus, de adoçar suas bocas, de enfeitá-los com ouro, de dar-lhes o prazer do tabaco a fumar e o do café a beber, ao longo de quatro ou cinco séculos, que todos esses ciclos de nossa economia amputaram multidões, mataram homens sem conta, estupraram mulheres a perder de vista. E isso para dar prazer a europeus. E lembro o dia em que aquele moço chamado Brasil falou do castelo nos Pampas, o episódio tristíssimo da mocinha pobre que é educada com esmero pela patroa rica, que por ela se afeiçoa, tudo isso para quando chegar à puberdade ser violentada pelo filho do novo patrão, que está se lixando para o francês que ela estudou, as rendas que aprendeu a tecer, as comidas que conhece. Gente chorava na plateia, que bom narrador, nem sei se a historia é real ou se o autor a imaginou, mas naquelas páginas ele colocou todo o desrespeito que um homem pode ter por uma mulher, ou por um humano, ou por um ser vivo, como é capaz a humanidade de tanta maldade, repetia o relator da comissão, maldade. Como foi difícil, a professora alçou a voz, criar essa Comissão Nacional da Verdade Histórica, como foi difícil levantar o que pudemos, reunir livros e artigos já publicados, dar-lhes sistema, torná-los acessíveis, conhecidos, e ainda descobrir fatos novos. Lembram a resistência até das agências científicas a financiar novas pesquisas, história oral, gente a fuçar arquivos. Mas o que me deu maior satisfação foram os programas na televisão. Decidimos que iríamos relatar o crime por Estados, com números, sim, estatísticas, registrando o tamanho do horror, mas também com relatos. Parou um pouco. Para dizer a verdade, mexeu muito comigo o crime na pousada do Chico Rey, talvez porque segui a história toda pela imprensa quando ocorreu. Também foi horrível o caso dos guaranis-caiovás, dois casais mortos lentamente, as filhinhas vendo tudo, depois reduzidas à prostituição, mas que vieram, envelhecidas ainda moças, depor com coragem. “Reduzir”, lembram o que eu disse na TV? Os negros eram reduzidos ao cativeiro, as pobres e humilhadas, à prostituição, os índios, às reservas; estamos aqui, quase gritei, para que nunca mais ninguém seja reduzido! Para que ninguém mais seja rebaixado! Mas o Chico Rey voltou por anos a fio a minha mente. Uma moça linda, a vida pela frente, só porque se uniu por amor a um homem casado, já separado. E aí vem a mulher, com a irmã, a buscam nessa pousada em Ouro Preto e a sangue-frio acabam com ela. Seu rosto, que vi nos jornais. A bandida atirando com uma espingarda, fria como o mal, enquanto a irmã segurava as mãos da mocinha. Quanta desgraça isso espalhou. Eu conhecia a pousada, gostava do lugar, qual historiador não ama Ouro Preto? As igrejas, não conheço conjunto igual, os Inconfidentes, a admiração por Tiradentes. Mas nunca voltei lá, nem à pousada nem à cidade. Sonhei com a tragédia por vários anos, os pesadelos se espaçando. Os colegas da comissão nem queriam que essa história aparecesse, Yedda, é ajuste de contas entre ricos, Yedda, tantas outras mulheres foram mortas só em Minas, lembra?, na década de 80 uns mal-amados, que se chamavam de Movimento Machista Mineiro, andaram assassinando suas mulheres, isso para não falar na Ângela Diniz, também mineira, mas morta em Búzios por um paulista, que além de acabar com ela destruiu sua reputação, tudo igual. Mas imagens pesam, sabem? Fiz questão de que para cada Estado houvesse ao menos um relato de horror, de como mulheres, negros, indígenas e homossexuais foram perseguidos. Esses relatos eu quis que passassem na TV, com depoimentos se possível, como nas histórias recentes do jovem gay atacado na Avenida Paulista com um tubo de neon, ou do senhor que nem gay era, mas teve a orelha arrancada a dentadas porque andava pela rua abraçado com um moço bem mais novo, que era seu filho. A história nunca passa. Mas essa menina do Chico Rei, sabem que sua família envelheceu da noite para o dia? Isso ninguém sabia, foi a pesquisa que revelou. Por que será que, quando se faz mal a alguém, um estupro, uma agressão, não se vê todo o mal que vem na sua esteira, como uma cachoeira, que não cessa nunca? Lutei por essa Comissão porque, meio iluminista, penso que é o jeito de parar a enxurrada de males. Que talvez revelando, contando, a gente contenha isso. Mas sabiam que amigas dela, de colégio, endoidaram? Que suas vizinhas de bairro umas perderam o cabelo, outras adoeceram, três morreram, que o Mal se espalhou onde havia amor, amizade? Não, quando escolhi a história não pensei, mocinha que era, que tinha escolhido entrar em contato com tanto horror. Não pensei. Claro que nunca quis ser historiadora dos Grandes, de seu mundo de ostentação, mas quem me diria que estaríamos tão perto dos cirurgiões, dos cuidadores de doentes terminais, dos limpadores de fossas, dos médicos de hospícios? Meus amigos, passamos por alguns infernos, mas um dia alguém precisaria limpar isso, mostrá-lo, esfregar tudo na cara dos bem-pensantes para que eles quem sabe pensem; e talvez seja melhor que velhos como eu façamos isso, completamos a vida assim, no fundo será o trabalho de que mais me orgulharei, talvez mais do que quando ia a Itaperuna ensinar a quem nunca teve professor na vida. A história mentirosa que aprendi era uma velha dama indigna. Estamos deixando a vocês uma velha dama indignada. Eu prefiro. Mas paro aqui, está na hora de entregar o relatório. Vamos.

Nesta narrativa a História é essencialmente verdadeira, e a história, essencialmente inventada. As invenções discretamente homenageiam, em alguns historiadores e escritores, aqueles que com o fato e com a ficção lutaram contra o horror, que mente.

PROFESSOR TITULAR DE ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA DA USP. NASCEU EM ARAÇATUBA (SP). AUTOR DE A SOCIEDADE CONTRA O SOCIAL: O ALTO CUSTO DA VIDA PÚBLICA NO BRASIL (COMPANHIA DAS LETRAS)

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.