O Mali não é 'Africanistão'

A singularidade do país implica que a intervenção francesa, sua profundidade e amplitude na atual crise terão desdobramentos muito diferentes do que ocorre no Afeganistão, onde impérios costumam entrar para perder

Laura Seay,

03 de fevereiro de 2013 | 02h07

Durante dez meses, o Mali ficou no segundo plano das crises globais para a comunidade internacional quanto á necessidade de medidas urgentes. A zona do euro, a guerra civil da Síria e a disputa entre China e Japão a respeito das Ilhas Senkaku/Diaoyu ganharam muito mais espaço nos jornais e televisões dos Estados Unidos que a situação no Mali, onde um golpe de Estado involuntário, provocado em março do ano passado por militares de baixa patente, criou um grave problema de segurança no norte do país. Enquanto isso, o costumeiro pequeno grupo de experts na questão do Sahel - a vasta região desértica que se estende através da África, da Mauritânia ao Sudão - ficou observando quando grupos jihadistas iam se apoderando de fatias cada vez maiores do território, impondo uma forma cruel de sharia, a lei islâmica, aos infelizes civis malineses.

Foi somente no dia 11 de janeiro que a França, ao decidir bombardear os islamistas para deter seu avanço no sul controlado pelo governo do Mali, despertou a atenção do mundo para os acontecimentos. Começou então o drama: manchetes terríveis, primeiras páginas com diagramas errados, análises ruins.

Primeiramente, é preciso conhecer alguns dos fatos pelos quais se chegou ao quadro atual. Em abril de 2012, o colapso da autoridade do Estado no norte do Mali permitiu que um movimento rebelde separatista, o Movimento Nacional de Libertação de Azawad (MNLA ), tomasse as principais cidades da região e declarasse independência do havia muito sonhado Estado de Azawad. O sonho de Azawad durou menos de dois meses, quando os combatentes do MNLA foram afastados do poder por três grupos islamistas, o Ansar Dine, o Movimento pela Unidade e Jihad na África Ocidental(Mujao), e a Al-Qaeda do Magreb Islâmico (Aqim). Esses movimentos tentaram estabelecer estruturas e sistemas de governo baseados numa estrita interpretação da sharia no território por eles controlado, a ponto de impor penas como decepar as mãos dos acusados de roubo, exigir que as mulheres usassem em público o hijab, traje islâmico, e a separação de meninos e meninas nas escolas.

Intervenção surpresa. Embora essa situação tenha levado à fuga mais de 100 mil pessoas, os tumultos de 2012 no norte do Mali não provocaram uma expressiva resposta internacional além de condenações pro forma. O Conselho de Segurança da ONU demorou até dezembro para aprovar um plano para a retomada do norte mediante o envio de uma força da África Ocidental de 3.300 soldados. O projeto envolvia intenso treinamento das tropas e não previa nenhum tipo de invasão antes do final de 2013, no mínimo.

Mas, de repente, em meados deste mês, janeiro, os franceses deixaram o mundo assombrado com a velocidade de sua intervenção. O envolvimento da França na crise ampliou-se rapidamente. No momento em que escrevo, há cerca de 3 mil soldados franceses no país. Além disso, uma força africana de 7.700 soldados prepara-se para lutar ao lado do Exército malinês a fim de garantir a segurança e a proteção do norte do país. Essas forças assumiram o controle das cidades de Gao e Timbuctu, e a França talvez já esteja indicando a intenção de dar por encerrada sua intervenção e deixar que as forças africanas assumam a operação.

Assuntos africanos não costumam ser prioridade na política externa dos Estados Unidos. Por isso, o establishment da política exterior americana não é muito conhecido por sua competência em crises de segurança da África Ocidental. Mas o repentino e profundo envolvimento da França no Mali - e o limitado suporte dos EUA à operação - fizeram com que a maioria dos veículos de comunicação e grupos de estudos buscasse explicações imediatas. Não surpreende que a situação tenha levado a uma rápida proliferação de "especialistas" em problemas malineses pontificando na TV e na imprensa escrita a respeito de um país que, duas semanas atrás, a maioria não conseguiria localizar no mapa. Desde então, proliferaram falsas afirmações baseadas num conhecimento limitado do contexto, incluindo uma opinião amplamente difundida segundo a qual a crise seria em grande parte consequência da intervenção da Líbia (o que não é verdade; o que aconteceu se deve a crises políticas internas do Mali).

Entre as abordagens mais imprecisas e absurdas a respeito da crise está a ideia de que o Mali poderá tornar-se o futuro Afeganistão da França. Baseados aparentemente na convicção do envolvimento numa guerra contra extremistas muçulmanos em terreno difícil e num país frágil, repórteres e políticos de todo o espectro ideológico adotaram essa comparação - alertando para a possibilidade de consequências desastrosas para a missão. A revista Economist levou ao máximo essa ideia na semana passada, dedicando sua matéria de capa a um "Afreganistão?". Time seguiu o exemplo com uma breve referência na capa a um "Africanistão".

A ideia de que o Mali seja ou venha a ser o próximo Afeganistão está totalmente equivocada, assim como a ideia de que o papel da França na África Ocidental possa equivaler à presença dos EUA no Afeganistão. Embora seja válido fazer comparações (pelo fato de ambos os países combaterem a presença dos extremistas islâmicos), as duas situações são tão diferentes que considerá-las praticamente equivalentes só contribui para confundir uma avaliação clara das perspectivas atuais e futuras do Mali. O leitor lembrará das comparações entre o Afeganistão e o Vietnã. A analogia histórica tinha uma utilidade muito limitada porque a história e o contexto da primeira nação não tinham quase nada em comum com os da segunda. Do mesmo modo, a singularidade do Mali implica que os desdobramentos nesse país - bem como a profundidade e a amplitude do envolvimento francês - indubitavelmente serão muito diferentes.

Em que o Mali difere do Afeganistão? Em primeiro lugar, o Mali não é o país onde impérios se envolvem para morrer. O Afeganistão é conhecido como um lugar que sempre apresentou grandes dificuldades para invasões e ocupações estrangeiras, e mais ainda para se estabelecer instituições governamentais. As instituições que conseguiram se firmar tornaram-se estruturas fracas e em grande parte descentralizadas, que permitem máxima autonomia aos líderes tribais e locais. Em comparação, o Mali tem uma história mais antiga pelo menos de poder centralizado. O Império do Mali, que se estendeu sobre uma ampla região da África Ocidental do século 13 ao 16, incluía a famosa cidade de Timbuctu, na época um centro de cultura islâmica. A colonização do Mali pelos franceses, em 1892, foi em grande parte pacífica e, até agora, o país nunca se envolveu num conflito mais amplo, com exceção de uma breve e violenta disputa de fronteira com Burkina Fasso, em meados da década de 1980. A saída da França do Mali, no fim da colonização, deu-se igualmente de maneira pacífica.

O envolvimento da França no Mali também é completamente diferente do envolvimento dos EUA no Afeganistão pelo fato de os franceses conhecerem o país profundamente em razão de sua história colonial. Franceses têm atrás de si décadas de importante conhecimento acadêmico sobre o Mali; a França está repleta de especialistas em administração pública, universo acadêmico e setor privado do Mali. Esse fato é mais importante do que se possa imaginar. Ter um profundo conhecimento cultural e histórico e uma língua comum (a maioria dos malineses com mais instrução ainda fala francês) torna muito mais fácil a comunicação das forças francesas com os malineses e o estabelecimento de relações amistosas com os principais líderes locais, cujo apoio será necessário para garantir o sucesso a longo prazo.

Não surpreende que as forças francesas tenham sido recebidas como libertadoras pela maioria dos malineses. Um deles, em entrevista à Reuters, até elogiou o esforço dos franceses para aprender uma saudação respeitosa na língua bambara. Em um país em que os rituais de saudação prolixos e elaborados constituem um aspecto muito importante da vida comunal, conhecer a importância de uma saudação correta é provavelmente o passo mais significativo pelo qual os soldados franceses conseguirão conquistar corações e mentes malineses.

Em terceiro lugar, o Mali não é o Afeganistão porque ali não há pashtuns. Embora entre os separatistas do MNLA haja membros da etnia tuaregue, fora dessa dinâmica a questão étnica no Mali gera muito menos disputas que no Afeganistão. Na realidade, o aspecto mais interessante da dinâmica social no Mali pode ser o relacionamento entre formas concorrentes de devoção islâmica, não os grupos étnicos. Além disso, diferentemente do Paquistão, o Mali não tem um país vizinho (ou pessoas nesse país) que compartilhe da etnia dos militantes malineses e tenha o apoio de uma agência de espionagem hostil. Os islamistas que operam no norte do Mali são um grupo heterogêneo e com objetivos variados, como deixou claro o especialista em Sahel, Andrew Lebovich. O Ansar Dine acaba de se dividir, e é provável que a dinâmica de grupo dos islamistas continue a evoluir no futuro próximo. Isso não quer dizer que a etnia e divisões sociais não sejam significativas no Mali - evidentemente, são. Mas, ao contrário do Afeganistão, não estão diretamente vinculadas à dinâmica dos islamistas do norte do Mali. Muitos líderes islamistas dessa região nem sequer são malineses.

Finalmente, as circunstâncias da intervenção francesa no Mali são completamente diferentes daquelas da intervenção liderada pelos Estados Unidos no Afeganistão. Os franceses não invadiram o Mali. O governo malinês pediu sua ajuda para repelir os islamistas. A França também interveio com a clara expectativa e entendimento de que o estabelecimento da paz no Mali caberá em grande parte a uma força africana, e de que os líderes africanos locais e regionais terão a responsabilidade a longo prazo de administrar a crise. Os franceses aparentemente não têm planos para permanecer no país, estabelecer bases operacionais avançadas e tentar governar de acordo com seus interesses. Além disso, o objetivo declarado da intervenção francesa é libertar o norte do Mali dos militantes islamistas e não o objetivo mais ambicioso dos EUA de uma "guerra ao terror". A França definiu desde o início um objetivo preciso para lutar. A esse respeito, os franceses parecem determinados a evitar as armadilhas do Afeganistão e não a reproduzi-las.

Isso posto, o futuro do Mali não está absolutamente resolvido. Há já sinais de que o MNLA tenta reafirmar sua autoridade no norte, o que poderá levar a mais violência nas próximas semanas e meses. A política interna do Mali ainda não está definida; a junta que deflagrou o golpe do qual se originou a atual confusão continua atuando e disposta a intervir na política, embora seu poder aparentemente tenha diminuído desde a chegada dos franceses. O presidente do Mali anunciou sua intenção de realizar eleições até 31 de julho; resta ver se isso será viável em termos logísticos ou políticos. A única coisa que está clara é que os "especialistas" nos EUA precisam entender a crise. Para tanto, melhor seria que da próxima vez chamassem alguns verdadeiros especialistas em Mali. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

* LAURA SEAY É PROFESSORA ASSISTENTE DE CIÊNCIA POLÍTICA NO MOREHOUSE COLLEGE, EM ATLANTA, PESQUISA OS EFEITOS DAS POLÍTICAS AMERICANAS EM PAÍSES COMO CONGO,  SOMÁLIA E UGANDA

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