O medo maior das ditaduras

Nada aterroriza regimes repressores como desasatres naturais: os tiranos podem perder o controle

Naomi Klein*, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2008 | 22h49

Quando chegou a notícia do catastrófico terremoto em Sichuan, meu pensamento voltou-se para Zheng Sun Man, um executivo ascendente do ramo de segurança que conheci em viagem recente à China. Zheng é o chefe da Aebell Electrical Technology, uma empresa sediada em Guangzhou que fabrica câmeras de vigilância e sistemas de comunicação pública e oO medo maior das ditadurass revende ao governo. Zheng, de 28 anos e MBA concluído, viciado em mensagens de texto, estava determinado a me convencer de que seus alto-falantes e câmeras não eram usados contra ativistas pró-democracia e líderes dos trabalhadores nas fábricas. Eles servem para gerenciar a resposta a desastres naturais, explicou Zheng, citando as inesperadas nevascas antes do ano-novo lunar. Durante a crise, o governo "usou a transmissão das câmeras da estrada de ferro para comunicar a todos a melhor forma de lidar com a situação e organizar a retirada. Vimos como o governo central consegue comandar a partir do norte emergências ocorridas no sul".É claro que as câmeras de vigilância também se prestam a outros serviços - como ajudar a fazer cartazes de "procurados" de ativistas tibetanos. Mas Zheng estava certo num ponto: nada aterroriza mais um regime repressor que um desastre natural. Estados autoritários têm como base o medo e a projeção de uma aura de controle total. Quando eles aparentam estar subitamente desorganizados, ausentes ou carentes de funcionários, os súditos podem ficar perigosamente estimulados.É algo a se pensar no momento em que dois dos regimes mais repressores do planeta - China e Mianmar - têm dificuldades em responder a desastres devastadores: o terremoto em Sichuan e o ciclone Nargis. Em ambos os casos os desastres expuseram graves fraquezas políticas dentro dos regimes - e ambas as crises têm o potencial de inflamar a indignação pública a níveis difíceis de controlar.Enquanto a China está ocupada se erguendo, criando empregos e riquezas, a população tende a manter silêncio sobre aquilo que todos sabem: os empresários freqüentemente cortam custos e zombam dos procedimentos de segurança e as autoridades locais são subornadas para não reparar no delito.Mas quando a China desmorona - incluindo ao menos oito escolas na zona do terremoto - a verdade encontra um jeito de escapar dos escombros. "Olhe para todos os prédios ao redor. Eles têm a mesma altura, mas por que só a escola desmoronou?", perguntou um perturbado parente em Juyuan a um repórter estrangeiro. E respondeu: "É porque os empreiteiros querem lucrar com nossas crianças".Quando estive na China, era difícil achar alguém disposto a criticar o frenesi de gastos com as Olimpíadas. Agora as opiniões publicadas em conhecidos portais da internet estão chamando o percurso da tocha de "desperdício" e seu prosseguimento em meio a tanto sofrimento de "desumano."Nada disso se compara ao ódio fervendo em Mianmar, onde os sobreviventes do ciclone quase lincharam ao menos uma autoridade local, furiosos com a incompetência na distribuição da ajuda. A agitação que mais preocupa o regime de Mianmar não vem dos civis, mas de dentro do Exército - fato que explica um pouco do comportamento mais errático da junta militar.Por exemplo, sabemos que a junta de Mianmar vem recebendo crédito pelos suprimentos enviados por países estrangeiros. Agora se revelou que a junta não recebe apenas crédito: em certos casos ela fica com a própria ajuda. De acordo com uma reportagem do Asia Times, o regime está seqüestrando carregamentos de comida e distribuindo-a entre seus 400 mil soldados.O motivo para isso revela a gravidade da ameaça que o desastre representa. Os generais, ao que parece, são "assombrados por um medo quase patológico de dissensão entre as próprias fileiras... Se os soldados não tiverem prioridade na distribuição da ajuda e não puderem comer, o risco de motim aumenta". Mark Farmaner, diretor da campanha britânica por Mianmar, confirma que antes do ciclone o Exército já estava enfrentando uma onda de deserções.O roubo de comida, em escala relativamente pequena, está fortalecendo a junta para um assalto muito maior que planeja - o crime que ocorre sob a forma do referendo constitucional que os generais insistem em promover, sob quaisquer condições. Seduzidos pelos altos preços das commodities, os generais de Mianmar vêm devorando a abundância natural do país, limpando suas reservas de pedras preciosas, madeira, arroz e óleo. Seguindo o manual do ditador chileno Augusto Pinochet, os generais prepararam uma Constituição que permite eleições futuras, mas tenta garantir que nenhum governo futuro possa processá-los por seus crimes ou tomar-lhes a riqueza conseguida por meios escusos.Como diz Farmaner, após as eleições os líderes da junta "vão trocar os uniformes por ternos". Boa parte da votação já ocorreu, mas, nos distritos arrasados pelo ciclone, o referendo foi adiado para este domingo. Aung Din, diretor executivo da campanha americana por Mianmar, disse-me que o Exército se rebaixou a utilizar a ajuda para conseguir votos. "A temporada das chuvas está chegando", disse ele, "e as pessoas precisam consertar os telhados. Quando vão comprar os materiais de que necessitam, que estão em quantidade limitada, eles descobrem que só podem comprar se concordarem em votar pela Constituição em votação antecipada."O ciclone, enquanto isso, apresentou à junta uma última e vasta oportunidade de negócios: ao evitar que o auxílio chegue à região do delta do Rio Irrawaddy, extremamente fértil, a junta condena centenas de milhares de arrozeiros da etnia karen à morte. De acordo com Farmaner, "essa terra pode ser entregue aos parceiros de negócios dos generais" (como a tomada de terras costeiras no Sri Lanka e na Tailândia após o tsunami que atingiu a Ásia). Isso não é incompetência, ou loucura, como disseram muitos. É limpeza étnica.Será que os cidadãos da China vão receber esta notícia? É possível que sim. Pequim demonstrou, até agora, incrível determinação na censura e bloqueio de todas as formas de comunicação. Mas na esteira do terremoto, o conhecido "grande firewall" que censura a internet está falhando bastante. Os blogs estão em polvorosa e mesmo os repórteres estatais insistem em relatar as notícias. Para os governantes chineses, nada é mais crucial na manutenção do poder que a habilidade de controlar o que o povo vê e ouve. Se perderem isso, nem câmeras de vigilância nem alto-falantes poderão ajudá-los. *Naomi Klein, colunista do The Nation e do Guardian, de Londres, é autora do recém-publicado The Shock Doctrine (Doutrina de Choque)SEXTA, 23 DE MAIOJunta libera ajuda civil A junta militar de Mianmar decidiu permitir a entrada de agentes humanitários e barcos civis no país para ajudar as vítimas do ciclone Nargis. Mas navios americanos, franceses e britânicos continuam proibidos de atracar nos portos birmaneses.

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