Eric Thayer/Reuters
Eric Thayer/Reuters

O mistério das cartas de Philip Roth

Escritor queria que sua correspondência, depois de lida e aproveitada por seu último biógrafo, fosse queimada

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

29 de maio de 2021 | 16h00

Os restos mortais do escritor americano Philip Roth, falecido há três anos, foram levados, a seu pedido, para o cemitério do Bard College, em Annandale-on-Hudson (Nova York), onde Hannah Arendt repousava desde 1975. Seus restos imortais (livros, manuscritos e alguns objetos pessoais) estão distribuídos entre a Biblioteca Pública de Newark, cidade natal do autor, em Nova Jersey, e a Biblioteca do Congresso, em Washington. 

Suas cartas...bem, ao que parece, serão destruídas, a pedido do escritor. Nove anos atrás, Roth revelou a um jornalista francês que estava se aposentando, que não escreveria mais nada depois do romance Nêmesis. Promessa cumprida, se não considerarmos as mais de mil páginas de textos não ficcionais produzidas por ele nos seis anos subsequentes.

Na mesma entrevista, Roth deixou escapar que não pretendia guardar nem expor suas cartas. Ainda sob o choque da anunciada aposentadoria, seus admiradores não prestaram atenção àquele detalhe. Ou dele se esqueceram. 

Semanas atrás, o agente literário de Roth, o poderosíssimo Andrew Wylie, e a ex-namorada do escritor, Julia Golier, executores do espólio, se deram conta de que a correspondência do falecido permanecia intocada e ainda sem destino.

Charles Dickens deu sumiço, com gosto, numa profusão de cartas. Idem, Joyce. Paulo Francis fez uma limpa em sua correspondência. As missivas de Thomas Hardy foram resgatadas pela mulher, mas não as de Jane Austen, por exemplo, destruídas pela irmã, Cassandra. Procura-se um Max Brod para a papelada mais íntima de Philip Roth.

A Philip Roth Society iniciou as pressões contra a destruição de qualquer documento assinado pelo escritor. “O que está em questão é a preservação do legado do mais importante escritor americano contemporâneo, para uso dos estudiosos de sua obra”, justificou as pressões o prof. Matthew Shipe, reitor da Universidade de Washington em St. Louis e presidente da sociedade, também aturdido com os desgastes causados pelo recente escândalo envolvendo o biógrafo de Roth, Blake Bailey, ora investigado por assédio sexual e estupro.

Escolhido pelo próprio biografado, Bailey foi a única pessoa fora do restrito círculo de amigos íntimos de Roth a ter acesso à correspondência e às anotações confidenciais contidas em Notes for My Biographer e Notes on a Slander-Monger. As primeiras notas são uma contestação de 295 páginas às memórias (Leaving a Doll’s House) da atriz Claire Bloom, com quem Roth foi casado de 1990 a 1995. As segundas são um ajuste de contas do escritor com o ex-amigo do peito Ross Miller, o R.M. a quem dedicou o romance A Marca Humana.

Controlador às raias do paranoico, Roth infernizou a vida e o trabalho dos que pretenderam biografá-lo. Sua implicância com biógrafos, de resto, manifestada até em sua ficção (vide o conflitantte relacionamento de E.I. Lonoff com Richard Kliman em Fantasma Sai de Cena), rendeu-lhe alguns dissabores.

Com habilidade, Roth conseguiu armar um muro de proteção dentro e fora do mundo acadêmico, onde os amigos filtravam a narrativa, contornando fatos negativos de sua vida e minimizando traços desagradáveis de sua personalidade, como a irascibilidade fácil e o insaciável apetite por vingança. “Se Jeová me quisesse calmo, teria feito de mim um gentio”, ressaltou em O Teatro de Sabbath.

A autobiografia de Bloom, publicada em 1996 e já no título explicitamente ibseniana (Claire é Nora e Roth seria Helmer), foi uma das “maiores catástrofes” da vida do escritor e, ainda segundo ele, o principal motivo de sua não eleição ao Nobel de Literatura.

A atriz, no mínimo, exagerou ao afirmar que o seu “opressivo” companheiro sempre exagerava as doenças que de fato tinha ou – que maldade! – imaginava ter. Roth sofreu para valer nos últimos 15 anos de vida: além de graves problemas cardíacos, que o condenaram à implantação de dois ou três stents, uma ponte de safena e um marca-passo, submeteu-se a três cirurgias na coluna vertebral. Espantoso que tenha produzido tantas obras (15 depois de 1990) entre uma e outra internação. 

Benjamin Taylor, que também teve acesso à réplica de Roth às memórias de Bloom, tomou a defesa do escritor. Testemunhou seu calvário médico, ajudou-o em sessões de terapia, exercitou-lhe a memórria e as faculdades cognitivas, com perguntas do tipo “quem era o Secretário do Interior do governo Roosevelt em 1943?”, mas em vez de devolver todo o material cedido por Roth, preferiu guardá-lo em seu computador e, por fim, doá-lo à Divisão de Manuscritos da Biblioteca Firestone. Antes, terminou seu ensaio biográfico sobre a amizade entre os dois, Here We Are: My Friendship With Philip Roth, recém-editado pela Penguin.

A biografia de Bailey, Philip Roth: The Biography, chegou às livrarias dois meses depois da publicação, pela Oxford University Press, do volumoso e polêmico Philip Roth: A Counterlife, de Ira Nadel, no qual o escritor é desglamourizado como um sujeito de pavio curto, mortificado por dores físicas e fixado em traições.

A escrita por Bailey, promovida como a biografia oficial de Roth, está sub judice, com o autor ameaçado ou já metido num processo como tarado. Os direitos autorais foram, estranhamente, divididos entre o biógrafo e o biografado, e não ficou suficientemente claro até agora que futuro a aguarda. Ainda é possível adquiri-la com o selo da W.W. Norton. No último dia 17, o Los Angeles Times noticiou que a Skyhorse Publishing propôs editá-la em brochura e versão eletrônica nas próximas semanas.

Mas, e as cartas?

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