O motorista Kadafi

Líder líbio surpreende jornalista brasileiro ao chegar dirigindo o próprio carro, mas não surpreende ao destilar ódio ao presidente americano Ronald Reagan

Antonio Carlos Drummond, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2011 | 03h07

A entrevista concedida por Muamar Kadafi à Rede Bandeirantes em julho de 1986 aconteceu três meses após o bombardeio de sua residência em Trípoli, capital da Líbia. Marília Gabriela e eu a devemos à eficiência do então embaixador da Líbia no Brasil. Sua pronta ação se deu a partir de uma audiência que me foi concedida após o ataque. Eu disse a ele, na oportunidade, que chegara a hora de o seu presidente tirar o terceiro-mundismo do papel e praticá-lo.

Praticá-lo seria, por exemplo, receber uma televisão do Brasil para uma entrevista exclusiva, argumento que eu já usara com sucesso quando obtivemos - o repórter Ricardo Pereira e eu - um encontro exclusivo com Saddam Hussein no seu palácio, em junho de 1981. Foi quando arrasaram a usina nuclear Tamuz, plantada em território iraquiano. A entrevista foi ao ar pela Rede Globo, cuja direção de jornalismo em Brasília, à época, era exercida por mim. Costumo dizer que a entrevista é quase sempre concedida quando o entrevistador, ao solicitá-la, explora o interesse do entrevistado. Ambos, Saddam e Kadafi, eram nasseristas de alma e coração. Ambos procuravam uma liderança no mundo árabe seguindo o discurso do egípcio Gamal Abdel Nasser: Terceiro Mundo e política externa não alinhada. Propor-lhes a prática do discurso ia ao encontro dos interesses de sua política externa.

Mas as preliminares diplomáticas não são garantia de êxito nem eliminam a angústia e o suspense. No caso de Saddam, esperei dias que pareciam infindos, durante os quais era regularmente levado por agentes iraquianos para a conversa com Saddam e voltava de mãos vazias.

Com Kadafi a espera foi menor, mas a tensão igual. Fomos recebidos nas ruínas de um de seus muitos bunkers residenciais, destruído de tal forma que o núcleo da estrutura desaparecera e restaram só as bordas de concreto no chão da base da casa.

As horas que antecederam a chegada do entrevistado davam asas à imaginação. A memória remetia à experiência com Saddam no cenário mais sofisticado de um hotel, mas igualmente permeado de insegurança, incerteza e ansiedade, sentidos estimulados pela paranoia de ditadores cujo cotidiano é cercado de agentes de informação e contrainformação.

Como se apresentaria Kadafi? Viria num comboio? Seria antecedido de um grupo precursor, que vistoriaria o local e nos submeteria a uma revista? Teríamos de apresentar as perguntas previamente, conversaríamos sozinhos ou seríamos levados ainda a outro local? Teria ele um sósia? Tudo era possível no contexto de um conflito bélico.

Não fazia diferença ali quem representávamos. Com Nasser, em 1963, eu era então um jovem repórter do Estado de Minas. Era a Guerra Fria e eu participava de um congresso internacional de jornalistas que se realizava a bordo de um barco soviético. A delegação comunista, grande maioria, era comandada por Alex Adjubei, genro do então primeiro ministro Kruchev e diretor-redator-chefe do Izvestia. Numa escala em Alexandria deu-se uma entrevista coletiva do presidente do Egito.

O elemento surpresa não faltaria também neste caso. Em determinado momento, ouvimos o ruído de um carro que aos poucos se aproximou. Um belo carro de passeio, do qual esperávamos saltar um agente que nos levaria a um enredo de mistério até chegar ao carismático líder líbio.

Carisma que ele mostraria, desde o início, manipular com maestria. Para nosso espanto, desce do automóvel ninguém menos que Kadafi, desacompanhado, motorista de si próprio. Claro que os mecanismos de segurança estavam acionados de alguma maneira, mas a cena era premeditadamente simples.

Aproximou-se e cumprimentou-nos com serenidade, certo do impacto que causava com a estudada forma de chegar. Refeito da surpresa, meus instintos de repórter preocupado com a entrevista e com a logística posterior de corrida contra o tempo para colocá-la no ar deram lugar aos aspectos subjetivos que até então prevaleciam.

Ele tinha o domínio consciente da situação e, nesse contexto, levou-nos ao quarto da filha adotiva que desaparecera no bombardeio. Surgia ali um drama familiar produzido pela guerra da qual, naturalmente, ele se apresentava como vítima. Novamente o carisma e a encenação constavam do script. Saímos do quarto com a ideia de que a filha morrera, o que mais tarde não se confirmaria.

Na entrevista, realizada em volta de uma mesinha tosca e com a presença do intérprete indicado pelo staff do ditador, Kadafi destilou seu ódio a Ronald Reagan por meio de sussurros. Sobre a ajuda da Líbia ao terrorismo, comentou: "Ajudo apenas aqueles que são vítimas do grande terrorismo das potências ocidentais". A respeito do ataque a sua casa, contra-atacou: "Os americanos jogaram as bombas e sumiram, como fazem todos os covardes". Sobre o que diria ao presidente americano caso se encontrassem algum dia, ajeitou os óculos escuros e resmungou: "Eu cuspiria na cara dele. É a única imagem que ele entende".

Após a entrevista, ainda puxei conversa sobre o que intuía ser um ponto vulnerável de Kadafi. Perguntei se ele conhecera Gamal Abdel Nasser. Ele disse que não e ouviu com espanto que eu o entrevistara pessoalmente. Naquele momento, passei a ser o entrevistado, tantas foram as perguntas de Kadafi sobre o ídolo, desde minhas impressões até o conteúdo da entrevista, que já ia apagada na memória.

Nesse contexto, contei-lhe que no Natal de 1963 recebi em casa um cartão alusivo à data, enviado por Nasser. Kadafi ficou incrédulo e, arrisco dizer, com uma ponta indisfarçável de inveja. Afinal significava muito mais para ele do que para mim.

Ao chegar ao Brasil, procurei o embaixador líbio para agradecer seu empenho e contar como fora a entrevista. Nessa ocasião, ele perguntou com o mesmo ar de incredulidade do seu líder se era verdade mesmo que eu recebera um cartão de Natal de Nasser.

Respondi que sim e não escapei de voltar à embaixada com o dito cartão - não por ceticismo do embaixador, mas porque ele simplesmente precisava vê-lo com os próprios olhos e copiá-lo, claro. Pegar no que para ele já se tratava de uma relíquia. Era óbvio que a informação lhe chegara de Trípoli.

Com menos sucesso, mas igualmente reverenciado, tenho sobre a mesa que guarda meu acervo profissional um relógio ganho das mãos de Saddam, na entrevista de 1981. Uma peça com as armas iraquianas no mostrador e com a assinatura do próprio junto ao algarismo 3.

São peças que materializam as duas entrevistas históricas, que a memória já não guarda com tanta precisão.

ANTONIO CARLOS DRUMMOND É DIRETOR , REGIONAL DA REDE GLOBO DE BRASÍLIA

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