Clark Art Institute
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O mundo da arte ama odiar Renoir; uma exposição tenta mudar isso

Mostra do artista em Washington tem uma obra emprestada pelo Masp

Sebastian Smee, The Washington Post

29 de junho de 2019 | 16h00

Você não gosta de Renoir? Saiba que não está sozinho. Detestar Renoir tornou-se lugar-comum no atual mundo da arte e parece ganhar mais adeptos a cada ano. Manifestações desse desprezo aparecem nos lugares mais estranhos. 

Em 2015, o provocador Max Geller organizou um protesto em frente ao Museu de Fine Arts de Boston com o título “Renoir é um pintor de m*”. Ativistas brandiam cartazes tachando o pintor de “terrorista da estética”. Mais recentemente, o escritor inglês Max Porter manifestou sua repugnância por Renoir em seu romance Lanny, deste ano: “Geralmente, consigo entender coisas terríveis como adoração satânica, café descafeinado e cirurgia cosmética, mas não o quadro Madame de Bonnières. Ele não pode ser entendido ou perdoado”.

Renoir pintou nus, com frequência cada vez maior, no curso de sua carreira de mais de 50 anos. Os nus são o tema de Renoir: The Body, The Senses (Renoir: O Corpo, os Sentidos), uma exposição no Clark Art Institute de Williamstown, Massachusetts, assinalando o centenário da morte do artista. Pode uma grande exposição resgatar um artista não tão grande? 

Sei que essa é a pergunta errada. Errada porque um grande número de pessoas considera de fato Renoir grande, além de adorável, alegre, vívido. Mas também para um grande número ele é não apenas menor, mas horrível, odioso, inaceitável. Uma amiga disse que Renoir provoca nela “uma repugnância visceral”. Segundo essa amiga, as telas de Renoir parecem “uma versão pictórica do adoçante Sweet’N Low”. 

O problema em odiar Renoir é explicar por que, se ele era tão terrível, Pablo Picasso, Henry Matisse e Pierre Bonnard o reverenciavam. Por que era tão admirado por Berthe Morisot, Claude Monet e Paul Cézanne. Por que seu obtuário no Guardian dizia que “provavelmente o veredicto da posteridade será de que Renoir foi o maior pintor de nus de sua época”. E por que Matisse definia seus quadros como “os mais adoráveis nus já pintados: ninguém fez melhor – ninguém”. Sugerir que Matisse não entendia de nus equivale a dizer que Einstein tinha uma visão pobre da física. Então, como é que fica?

Odiar Renoir é mais que um julgamento estético. É uma aflição neurótica. Eu sei porque já sofri dela. Está enraizada, acho eu, num instinto justificável: a sensação de que um nu moderno deveria expressar um quociente convincente de realidade, ser psicológico, social ou simplesmente físico. 

Os nus de Renoir não fazem realmente isso. Os rostos persistentemente infantis dos modelos parecem odiosamente genéricos (olhos arregalados, nariz empinado, bochechas cheias). As cores opalescentes, tendentes nos anos finais ao damasco e a uma espécie de “laranja-Trump”, parecem irremediavelmente kitsch. E o estilo consistentemente ultrapassa a essência, de modo que todo objeto – corpo, flor, céu, árvore – parece feito da mesma substância lustrosa, com tudo se misturando numa enjoativa sopa de beleza indiferenciada. 

A exposição Clark é na verdade maravilhosa e me parece que “resgata” Renoir, se isso é que se espera dela. É certamente o lugar perfeito para se contemplar o abismo do mau gosto que Renoir consagrou. Visitá-la é quase uma terapia. 

Organizada por Esther Bell, do Clark, e George Shackelford, do Kimbell Art Museum de Fort Worth (para onde vai no final de outubro), ela tem coisas para as quais eu lutei para olhar. No entanto, exibe muitos quadros e desenhos em tamanho grande que é impossível não se admirar, mesmo amar. Ao colocar Renoir entre nus de predecessores que ele admirava (Rubens, Boucher, Delacroix,Courbet e Corot), bem como de contemporâneos e sucessores que o admiravam (Cézanne, Degas, Bonnard, Léger, Picasso, Matisse e Valadon), Shackelford e Bell consagram o lugar do artista na grande tradição francesa. 

Na categoria “impossível não se admirar” está o Menino Com Um Gato, um dos dois nus masculinos da mostra. Pintado em 1868, quando o artista tinha 27 anos, o quadro mostra um garoto de tez pálida e cabelo negro, em pé, de costas para o espectador, mas com o rosto voltado para ele. Sua perna esquerda está dobrada sobre a direita, que sustenta o peso do corpo, e o menino está curvado sobre um móvel alto, aconchegando um gato. Com a pintura jogando com o contraste entre a pele clara do menino e a adjacente bola de pelo do felino, a cumplicidade dos dois é reforçada pela proximidade de patas, mãos, cauda e punhos, que juntos formam um centro de atração no coração do quadro. As cores e a composição são lindamente frescas. 

Pierre-Auguste Renoir teve origem muito humilde, como escreveu Barbara Ehrlich White em sua biografia. Nascido em Limoges, era o sexto filho de um alfaiate e uma costureira e na juventude trabalhou como aprendiz numa fábrica de porcelana, decorando vasos e persianas com figuras e flores. Morou perto do Louvre, onde ficou fascinado pelos grandes coloristas de tradição europeia: Ticiano, Veronese, Rubens, Boucher e Delacroix. 

O realismo era o novo movimento radical de meados do século 19 e Renoir flertou com ele. (O melhor exemplo na mostra é o quadro A Banhista e o Cão Griffon, emprestado do Masp, cujo detalhe do cão está na foto acima.) Mas Renoir, embora amasse a luz natural, estava mais inclinado a fugir da realidade do que a explorá-la. Mudou do realismo para o impressionismo, depois para um novo tipo de classicismo inspirado nas formas sólidas e arredondadas da arte renascentista que conheceu em sua viagem à Itália em 1881-82. Seus últimos trabalhos tiveram um tremendo impacto em Picasso e Matisse. Procurando maximizar a intensidade pictorial, esses gigantes do modernismo se distanciaram de Renoir quando começaram a distorcer e deformar a forma humana, destacando sua monumentalidade e empurrando-a para a abstração.

Como Matisse, Renoir reverenciava a grande tradição francesa da “decoração”, na qual corpos e narrativas convincentes são subordinados ao livre exercício da fantasia e deleite e ao efeito pictórico de ritmos formais e cores sedutoras. O século 18 francês conheceu o auge dessa tradição. Renoir quis revivê-la. 

É por isso que o belo quadro de François Boucher Diana Saindo do Banho (1742) é uma peça-chave na exposição. Quando o Louvre comprou esse quadro, em 1852, a obra imediatamente despertou o interesse de uma geração mais jovem de artistas, incluindo Manet, Morisot e Whistler. Renoir considerou-a a primeira pintura pela qual caiu fascinado. “Continuei a amar o quadro por a vida”, escreveu ele, “como se ama o primeiro amor, embora as pessoas insistissem em que não deveria amá-lo, que Boucher era ‘só um decorador’, como se ser decorador fosse defeito.”

Costumamos pensar em Renoir como impressionista e associamos o impressionismo ao naturalismo: luz natural, paisagens naturais. Mas é difícil “captar” Renoir se não avaliarmos a extensão de como ele se afastou do naturalismo para focalizar na ampliação da grande tradição decorativa francesa.

Será que o mundo realmente precisa de uma exposição inteira de nus femininos neste momento? Os organizadores da mostra deixam que o público decida por si mesmo. 

Boucher e Renoir expressaram a visão do século 18 de que o erotismo é um conceito humano e civilizatório, e não um algo o disruptivo e violento. Talvez seja por isso que as mulheres tendem a amar os dois artistas de um modo que os homens não amam. Mas o que mais chama a atenção de muitos quando veem os nus de Renoir reunidos – na Fundação Barnes, por exemplo, onde eles ocupam as paredes – é a sensação de uma onda avassaladora e abundante de carne feminina. Forçadas assumir poses não naturais, as mulheres de Renoir parecem implacavelmente objetificadas. À medida que o artista envelhecia, seus nus cada vez mais artificiais sugerem a extenuada produção de um devasso obsessivo. 

Renoir, certamente, não era feminista. No entanto, pintando o nu ele se via como parte de uma tradição. Essa tradição ensina que o desejo sexual pode não apenas ser despertado e intensificado com imagens rápidas (como na pornografia), mas também contido, complicado, enobrecido – tudo isso sendo preferível a negá-lo e reprimi-lo (como nas tradições religiosas puritanas). 

O quadro Blonde Braiding Her Hair (Loira Penteando o Cabelo), do Museu de Arte de Dallas – para mim o melhor da mostra – confirma por que ele merece um lugar especial na tradição.

Ninguém está forçando você a amar Renoir. Eu geralmente me afasto dele. Mas, como um crítico de restaurante que não suporta, digamos, lentilha, cheguei à conclusão de que é antiprofissional e indefensável odiar Renoir. Seus quadros estão aí, abundantemente. E levas de grandes artistas nutriram-se deles. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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