O mundo inteiro como um laboratório

Se existe um lado bom é que, estudando a gripe, podemos combatê-la melhor e nos prepararmos para a próxima

Andrea Meyerhoff e Paul Lietman, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2009 | 22h35

Surtos de doenças como o da gripe suína oferecem uma oportunidade inigualável - e para nós, médicos, um imperativo - de aprofundarmos nossos conhecimentos para melhor proteger a população. A propagação do vírus H1N1, hoje encontrado em 40 países e confirmado em cerca de 10 mil pacientes, nos oferece também a oportunidade de aprender mais sobre as drogas com que contamos para combatê-lo.

Nos Estados Unidos, o Estoque Estratégico Nacional conta com duas drogas contra a gripe ou influenza - o oseltamivir, conhecido pelo nome de Tamiflu, e o zanamivir, chamado Relenza. O site do Centro de Prevenção e Controle de Doenças recomenda que elas sejam ministradas a pacientes selecionados que estão com a gripe e indicadas para os familiares dos pacientes que correm o risco de sérias complicações se forem infectados. Mas ainda persistem dúvidas sobre até que ponto essas drogas funcionam.

Uma dúvida é sobre quão prontamente essas drogas precisam ser usadas para impedir que a gripe se espalhe. Num teste clínico realizado pelo fabricante do Tamiflu, analisou-se o que acontece quando familiares de um doente com gripe são medicados dentro das 48 horas após o surgimento dos sintomas da doença. Somente 1% deles foi infectado. O que indica um nível importante de proteção; no caso de pessoas de famílias medicadas com um placebo, 12% foram infectadas.

Mas ocorre que pessoas saudáveis não têm o hábito de visitar o médico já nos dois primeiros dias de uma gripe ou um resfriado. E agora que os consultórios médicos estão abarrotados de pacientes de gripe, pode ser especialmente difícil conseguir um atendimento médico rápido. Assim, precisamos nos perguntar, se uma pessoa com o vírus da gripe não procurar o médico nas primeiras 48 horas, as drogas conseguiriam ainda evitar que ela contamine outros membros da família? Isso tanto com relação ao Tamiflu quanto ao Relenza.

Essa atual epidemia é a chance de investigarmos.

Podem ser realizadas facilmente experiências clínicas com pacientes que procuram o médico 72 ou 96 horas depois que os sintomas surgirem. Com os resultados desses testes poderemos, com o tempo, traçar uma curva de risco para orientar pacientes e médicos no uso das drogas antigripe. Saber também quantos familiares poderiam se beneficiar do tratamento dado a um paciente com gripe há mais de dois dias também ajudaria as autoridades de saúde pública a planejar uso mais eficiente dos estoques de medicamentos antigripe.

Uma outra questão importante é quanto à eficácia dessas drogas para salvar vidas. Nas experiências clínicas conduzidas pelo fabricante, verificou-se que o Tamiflu encurtou o tempo em que os pacientes se queixam de febre, dor de cabeça, tosse, dor muscular e fadiga. Aqueles que foram tratados com o Tamiflu sentiram-se mal 1,3 dia menos que aqueles medicados com um placebo.

Mas seria bom saber mais sobre o que o Tamiflu e o Relenza podem fazer no caso de pacientes com o novo vírus H1N1, para o qual ainda não se tem uma vacina. À medida que os casos aumentam, fica mais fácil avaliar se essas drogas diminuem complicações como pneumonia pós-gripe, hospitalizações e mortes.

Dados de experiências clínicas em tempo real podem nos capacitar não apenas a oferecer o melhor tratamento para os pacientes com gripe e suas famílias, mas também administrar melhor os recursos de que dispomos. E, armados com novas informações para enfrentar esta emergência, podemos ficar mais bem preparados para a próxima que ocorrer.

*Andrea Meyerhoff e Paul Lietman pertencem ao corpo docente da Escola de Medicina da Universidade Johns Hopkins

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