O mundo olha para as Malvinas

Quem estudar a história e legislação das Malvinas saberá que a reivindicação argentina sempre foi vigorosa

Simon Jenkins , The Guardian

27 de fevereiro de 2010 | 14h25

Uma disputa comercial irrompeu no Atlântico Sul. A Argentina afirma seu direito às Malvinas e leva o caso às Nações Unidas. A Grã-Bretanha diz “saiam da frente, vocês devem estar brincando”. Ninguém leva isso a sério, pois uma guerra, hoje, é inconcebível. Downing Street está mais preocupada com a impopularidade doméstica.

 

Isso foi em março de 1982. Essa semana foi parecido. Em 82, os tabloides ingleses acolheram a reivindicação argentina com um “stick up your junta” (“entubem sua junta”, em tradução livre). Hoje eles usam tom semelhante, chamando a presidente argentina Cristina Kirchner de “Queen Argie Bargy” (rainha da briga) e Old Plastic Face (cara de plástico velho). Em 1982 foram necessárias nove semanas de contra-ataque, mil mortos e um gasto de £ 3 bilhões para restabelecer o status quo anterior. Neste momento, pelo menos, a guerra parece improvável.

 

Hoje a Grã-Bretanha tem quase o mesmo número de soldados nas Malvinas - 1.200, guardando a ilha - quanto o número de ingleses vivendo ali na época da invasão. A nova disputa com a Argentina tem a ver com a chegada de uma plataforma de petróleo, Ocean Guardian, às águas ao norte de Port Stanley. A Argentina vê os recursos submarinos das Malvinas como parte de sua antiga reivindicação pela soberania das ilhas, pretensão que a derrota de 1982 não diminuiu.

 

Qualquer pessoa que estude a tortuosa história e legislação das Malvinas saberá que a reivindicação das ilhas pela Argentina sempre foi vigorosa. O Tratado de Utrecht reconheceu a soberania espanhola, levando a 40 anos de ocupação das ilhas, o que foi reiterado em 1823 por Buenos Aires, após sua independência da Espanha. Dez anos depois, as Malvinas foram tomadas à força pela Grã-Bretanha e colonos foram enviados para lá, numa agressão imperialista.

 

A Argentina desde então reclama seu direito às ilhas, registrando pedido no comitê de descolonização das Nações Unidas, apoiada por outros Estados nas América do Sul e do Norte. Trinta e dois países latino-americanos reiteraram essa semana no México o apoio a Cristina Kirchner, com até os Estados Unidos se mostrando simpáticos à tese, recusando-se a se aliar à Grã-Bretanha no que consideram uma questão pós-imperialista .

 

A Argentina não ameaçou uma ação militar contra a Ocean Guardian, nem o protesto da presidente Cristina Kirchner pode ser classificado necessariamente como uma tentativa de aumentar sua popularidade -- afinal, as Malvinas não são um grande tema na política de Buenos Aires. Já a decisão da Grã-Bretanha de prosseguir com as perfurações, embora a Declaração Conjunta sobre o Petróleo, de 1995, seja bilateral, só poderia ser vista na América Latina como um ato de arrogância. Essa questão ainda poderá ser decidida pelo tribunal internacional de Haia.

 

O direito à autodeterminação dos habitantes das Ilhas Malvinas - que sempre foi o obstáculo a qualquer acordo com a Argentina - tem que ser validado. Intransigentes na sua resposta às negociações empreendidas por Ridley e apoiados por direitistas neoimperialistas na Câmara dos Comuns, os britânicos das ilhas exigiram e obtiveram ajuda da força-tarefa em 1982 e um apoio exagerado desde então. Eles rejeitaram todas as iniciativas de mediadores de Buenos Aires para restabelecer os contatos.

 

Alegam que os recursos para custear seu esplêndido isolamento nas ilhas poderão vir das receitas potenciais do petróleo. Mas esse petróleo não pertence a eles mais do que as receitas do petróleo do Mar do Norte pertencem às Ilhas Orkney. Mesmo no caso das jazidas de petróleo potenciais bem mais ao sul, as desabitadas Ilhas Geórgia do Sul e as Orkneys do Sul, dificilmente poderão alegar “autodeterminação” para justificar a apropriação de receitas pelos britânicos, que muitos na América do Sul consideram deles.

 

Consenso democrático é sempre importante, embora nunca absoluto. A Grã-Bretanha nunca deu direito aos britânicos de Hong Kong de se manifestarem sobre a transferência da ilha para Pequim. O destino de Gibraltar não pode ser delegado inteiramente aos seus habitantes. Há uma forte oposição entre os partidos políticos ingleses a conceder aos escoceses o direito de votar se querem pôr um fim, ou não, a sua união com a Inglaterra. Não há nada de especial no caso das Malvinas.

Em outras palavras, 2.500 colonos não podem ter direito de veto absoluto sobre a política do governo britânico. Em 1982, Margaret Thatcher achava que seria de interesse negociar com a Argentina, mesmo quando o país vivia uma ditadura. Agora que a Argentina é uma democracia, esse interesse não diminuiu. Os governos britânicos seguintes sabiam disso, mas foram covardes para agir no caso. As Malvinas continuarão sendo um incômodo dispendioso para a diplomacia britânica na América Latina.

 

A grande esperança de que as Malvinas se tornem estáveis e prósperas sob ocupação britânica reside numa retomada do acordo de arrendamento sob supervisão das Nações Unidas.

 

Porque as ilhas precisam manter um vínculo com o continente ao lado. É um absurdo supri-las as para sempre por meio de uma ponte aérea entre a Grã-Bretanha e Ascensão. Além disso, a Grã-Bretanha terá que negociar com a Argentina porque o mundo, seja nas Nações Unidas ou no Tribunal em Haia, vai insistir nisso.

 

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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