O mundo verde estava do nosso lado

Marina tinha amplo apoio internacional. Que mensagem sua demissão ecoa lá fora?

Marcelo Furtado*, O Estado de S.Paulo

17 de maio de 2008 | 22h27

A Marina Silva que entregou o cargo de ministra do Meio Ambiente na terça-feira é a mesma que assumiu a cadeira no início de 2003. O presidente Lula não. Marina entrou no governo fortalecida por uma estratégia certeira de Lula, que confirmou seu nome como ministra do Meio Ambiente simultaneamente ao do ministro da Fazenda Antonio Palocci durante uma viagem aos Estados Unidos. O anúncio feito em dezembro, antes da cerimônia de posse do presidente, continha um recado para o mercado estrangeiro nas entrelinhas: aquele seria um governo com uma política econômica reformista - e não revolucionária -, mas comprometido com o meio ambiente.O mundo aplaudiu a nomeação de Marina e a imprensa internacional brindou a escolha de Lula com manchetes sobre a reputação imaculada da vencedora do prêmio Goldmann de Meio Ambiente em 1996, homenageada pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, um ano depois, como uma das "25 Mulheres em Ação no Mundo pela Vida na Terra". Em seu discurso de posse, Marina mostrou forte alinhamento com a estratégia do presidente: "Tenho fé em Deus, no povo brasileiro e em nossa equipe de trabalho de que iremos dar as respostas que o País necessita para que sejam criados os instrumentos de política econômica com qualidade ambiental." A cerimônia de nomeação de Marina Silva ocorreu no Palácio do Planalto e foi uma das mais aplaudidas. Marina levava na bagagem a experiência sindical, das comunidades eclesiásticas de base, dos movimentos sociais e dos mandatos públicos como vereadora, deputada e senadora. Desde o início, defendeu a idéia de que o Brasil deveria assumir papel estratégico no mundo pela posição privilegiada que ocupa em termos de recursos naturais.Inicialmente, definiu a estratégia de seu ministério em três eixos principais: transversalidade na construção de políticas públicas de governo; participação e controle social; e sustentabilidade. Defendeu a adoção de medidas de estímulo positivo para aqueles que agirem na legalidade e o rigor da lei para os delinqüentes. Por fim, pautou seu maior compromisso: transformar o Arco do Desmatamento no Arco do Desenvolvimento Sustentável e provar que a defesa de nossos ecossistemas é compatível com o desenvolvimento.A inovação do discurso e da estratégia cativou a comunidade internacional. Marina rompia com o modelo de administração pública com um "departamento de meio ambiente" para o moderno modelo da gestão ambiental em toda a máquina federal e prometia lutar para salvar o maior ícone internacional do Brasil - a Floresta Amazônica. Era tudo que o mundo queria ouvir. O discurso de Marina e as políticas do governo Lula começaram a se descolar logo no início do segundo mandato do presidente. Com a reeleição, a mudança de postura do presidente ficou evidente. Na cerimônia de posse de seu segundo mandato, em 2007, Lula deixou claro que a prioridade seria o alinhamento entre o investimento público e privado e falou da necessidade de "desobstruir gargalos e de romper as amarras que travam cada um destes setores". Dessa vez, o que estava nas entrelinhas era a adoção de um modelo de crescimento pautado por uma política de juros. Lula falou também da necessidade de desburocratização, sobretudo para facilitar o comércio exterior, e do aperfeiçoamento das legislações sanitária e ambiental. Ou seja, o desenvolvimento sustentável havia sido substituído pelo crescimento sustentado.Ao contrário do primeiro mandato, Marina não teve uma cerimônia de posse pomposa. Simplesmente ficou no cargo. O ano de 2007 foi o grande momento internacional de reflexão sobre o fenômeno das mudanças climáticas. O planeta foi confrontado com as revelações do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas das Nações Unidas e começou a cobrar mudanças e ação de seus governos. O Brasil, quarto maior emissor mundial de gases de efeito estufa, foi questionado pelo mundo sobre as medidas contra o desmatamento da Amazônia, seu maior impacto no aquecimento global. A comunidade internacional passou a cobrar compromissos de redução de emissões mais ousados dos países ricos e a exigir uma contribuição voluntária dos países em desenvolvimento. Nos encontros ambientais internacionais o Brasil passou a ser mais visado pela sua maior participação na geopolítica global e pelo papel fundamental na discussão sobre clima e florestas. A Amazônia voltava a ser a bola da vez.O novo quadro ambiental não devolveu a Marina o prestígio interno. Durante sua gestão, ela travou muitos embates e perdeu a maioria deles: liberação dos transgênicos, retomada do programa nuclear, aumento dos índices de desmatamento após três anos de queda, as usinas hidrelétricas da Amazônia e transposição do Rio São Francisco. Eram batalhas duras demais para serem vencidas pela força de um único ministério.A paciência de Marina por fim acabou. A ala do crescimento a qualquer custo, capitaneada pela ministra Dilma Rousseff e respaldada recentemente pelo governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, venceu o cabo-de-guerra contra a minoria do governo que buscava conciliar desenvolvimento com sustentabilidade. A comunidade internacional entende a saída de Marina do ministério do Meio Ambiente como uma vitória do agronegócio sobre a Amazônia. Ela dava ao governo prestígio nas negociações internacionais. Quem perdeu com a saída de Marina não foi só o meio ambiente, foi a economia que terá que convencer o consumidor internacional de que a Floresta Amazônica não está sendo desmatada para ser exportada em forma de grãos. A melhor resposta que o Brasil pode dar agora é reintegrar a dimensão ambiental na agenda de desenvolvimento do Brasil. O primeiro passo deve ser garantir o fim do desmatamento. O mundo não sabe quem é Carlos Minc, anunciado novo ministro, mas já sabe que, frente ao rompimento do governo Lula com a agenda da sustentabilidade, sobrará ao novo ministro a demanda por "carimbar e aprovar" os licenciamentos ambientais de uma série de projetos de desenvolvimento de um Brasil que, na contramão do mundo, negou maior espaço para a agenda ambiental. *Marcelo Furtado é diretor de campanhas do Greenpeace Brasil

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