Tom Jamieson/The New York Times
Tom Jamieson/The New York Times

O Museu Britânico reabre em meio a um mundo mudado

Além dos novos protocolos sanitários, museu atende aos apelos dos movimentos antirracistas e contextualiza algumas de suas peças controversas

Alex Marshall, The New York Times

05 de setembro de 2020 | 16h00

LONDRES — Depois de passar 163 dias fechado por causa da pandemia do coronavírus, o Museu Britânico se tornou mais recente entre os grandes museus europeus a retomar as visitações na quinta feira.

E, como ocorre atualmente em outras instituições, havia estações de desinfetante para as mãos e corredores de mão única, restrição ao número de visitantes e muitas máscaras. Mas o museu também fez algumas mudanças permanentes.

O diretor do museu, Hartwig Fischer, disse em entrevista que o assassinato de George Floyd pela polícia de Minneapolis em maio e os subsequentes protestos do movimento Black Lives Matter em todo o mundo tinham “alterado o grau de conscientização de todos". Os acontecimentos o levaram a intensificar o trabalho do museu no sentido de remediar seus elos com a escravidão e o colonialismo, disse ele.

O museu fez duas mudanças principais para a reabertura, disse Fischer. A primeira foi transferir o busto de Hans Sloane (médico e colecionador de curiosidades cujo patrimônio formava a base do museu na época de sua fundação, em 1753) de um pódio de destaque em uma galeria importante para uma caixa de exposição. Agora Sloane não é apenas celebrado como colecionador de história natural, sendo descrito também como “dono de escravos". A vitrine contém outros objetos relacionados ao envolvimento britânico no comércio de escravos.

A segunda mudança foi a criação de um caminho dirigido pelo museu chamado “Coleção e império", com placas explicando como determinados artigos, como um escudo de casca de árvore da Austrália, chegaram ao museu (a placa destaca que a maioria dos artigos foi comprada ou doada ao museu, e não roubada).

“Nossa tarefa é elucidar a história dessa instituição, e a história de cada objeto nela", disse Fischer a respeito das alterações. “São mudanças inspiradas pela ideia da abertura.”

As alterações anunciadas podem parecer discretas, mas seu anúncio causou polêmica na Grã-Bretanha essa semana.

A decisão de transferir o busto, descrita por Fischer em entrevista ao jornal conservador Daily Telegraph, irritou alguns tradicionalistas. O grupo Save Our Statues disse no Twitter que o gesto era uma “demonstração de desrespeito e ingratidão ao homem cuja generosidade ajudou a preservar muito da história mundial que milhões desfrutam hoje". Outros usuários do Twitter apontaram que o próprio Sloane não era dono de escravos, mas sua riqueza veio de plantações que pertenciam à mulher dele.

Fischer disse que não acessa as redes sociais, acrescentando estar ciente da confusão criada e defendendo a decisão tomada. Sempre há quem se queixe, disse ele: “Temos que fazer a coisa certa".

Essa semana, as críticas ao museu vieram principalmente dos conservadores, mas, em junho, seus detratores foram os ativistas da justiça social quando a instituição emitiu um comunicado em apoio às manifestações do movimento Black Lives Matter [Vidas Negras Importam]. No comunicado, Fischer disse que o Museu Britânico estava “alinhado com o espírito e a alma” do movimento. A declaração foi ridicularizada na internet.

“Nossas vidas importavam quando vocês ROUBARAM TODAS AS NOSSAS COISAS?” perguntou no Twitter a autora Stephanie Yeboah. “Se importamos tanto assim, devolvam o que levaram.”

A falta de diversidade entre os funcionários do alto escalão da curadoria também foi destacada em junho, quando um entrevistador da BBC perguntou a Fischer quantos pretos havia entre os 150 curadores do museu. Ele respondeu que nenhum era preto, acrescentando que “trata-se de um problema importante que precisamos sanar" (na verdade ele se enganou: de acordo com uma porta-voz do museu, há entre os curadores um arqueólogo preto).

Fischer disse que o museu tenta se redimir dos elos com o colonialismo e a escravidão desde antes da chegada dele, em 2016, por meio da pesquisa das origens das peças do acervo na tentativa de descobrir como foram adquiridos, e envolvendo as comunidades ligadas aos artefatos nas decisões de curadoria. O novo texto que explica os elos de Hans Sloane com a escravidão, por exemplo, foi “escrito em parceria com a comunidade preta britânica", disse ele.

“Não é um começo no sentido de encarar a própria história", disse Fischer, acrescentando, “Veremos muitos outros gestos do tipo no futuro".

Os debates na Grã-Bretanha a respeito dos legados do colonialismo e da escravidão se tornaram cada vez mais contundentes depois que uma estátua de Edward Colston, mercador de escravos do século 17, foi derrubada em junho em Bristol, Inglaterra, durante um protesto do Black Lives Matter. Essa semana, os jornais e as redes sociais foram consumidos por um debate envolvendo a canção Rule, Britannia! (1740), tradicionalmente tocada no concerto Last Night at the Proms, que encerra o festival anual de música clássica da BBC. O refrão da canção patriótica inclui o verso, “Os britânicos jamais serão escravos, jamais".

O primeiro-ministro britânico Boris Johnson deixou de lado as solicitações para que a canção fosse retirada do evento. “Acho que é hora de parar de sentir vergonha da nossa história", disse ele aos repórteres na terça feira.

Alguns defensores do Museu Britânico dizem que é impossível vencer no clima atual. “O Museu Britânico é como aquele colega da turma quer todos decidiram intimidar e constranger", disse por e-mail Bonnie Greer, jornalista e dramaturga nascida em Chicago. Bonnie, americana preta, foi vice-diretora do conselho do museu durante quatro anos, e realizou uma série de debates ali este ano a respeito de como as instituições culturais podem acertar suas contas com o legado do colonialismo.

“Eles fazem muito, e deveríamos falar a respeito disso", disse ela. O fato de o museu não alardear seus feitos é “provavelmente uma coisa britânica”.

A romancista egípcia Ahdaf Soueif, que deixou o conselho do museu no ano passado em protesto contra uma série de questões, incluindo o legado colonial, disse que realocar o busto de Sloane e criar o novo caminho “parecem medidas excelentes".

“Acho que eles estão começando a se mobilizar", disse ela.

Na quinta feira, no museu, entrevistados disseram ter ouvido a respeito do busto de Sloane na mídia.

Kath Miller, de 73 anos, disse considerar positivo o fato de o museu não ocultar seus elos com a escravidão. “Provavelmente não era boa pessoa", disse ela, de pé diante do busto. “Não parece ser.”

Maria Morte, de 50, disse ter lido a respeito do busto no jornal. “É uma medida no espírito dos tempos, não?” disse ela.

“Me parece uma decisão acertada", acrescentou. “Antes, falava-se apenas em suas viagens e em como ele reuniu seu acervo. Mas não se pode ignorar o legado da escravidão.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Tudo o que sabemos sobre:
Museu Britânicoartes plásticas

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.