O Nobel da crise

Escolha de Paul Krugman para o prêmio de Economia da academia sueca representa a vitória do jornalismo crítico

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2008 | 21h14

Se o Nobel de Literatura poupou o governo Bush e a candidatura McPalin de mais um embaraço (poderia ter dado Philip Roth, contumaz patrulheiro do bushismo), o de Economia lhes impôs, e também aos corifeus do livre mercado à outrance, uma tunda ainda mais expressiva que a vitória do professor Joseph Stiglitz em 2001. Paul Krugman, o Nobel deste ano, talvez seja o mais lido e respeitado crítico da era Bush. Stiglitz, embora autor de best-sellers e igualmente profético em suas análises sobre a atual crise econômica, não dispõe de um púlpito poderoso como a página de articulistas do New York Times, onde Krugman pontifica duas vezes por semana, às segundas e sextas-feiras. Ainda que a Academia Sueca não o tenha premiado por sua performance jornalística, e sim por sua valiosa contribuição a uma nova teoria sobre o comércio internacional, desenvolvida a partir de 1979 no recesso acadêmico, vale o que está implícito. Ou seja, sua vitória foi também uma vitória do liberalismo, do jornalismo crítico, de tudo aquilo que a candidatura de Barack Obama representa, e, por extensão, um triunfo do Times, que acreditou no taco do professor de economia e relações internacionais da Universidade de Princeton. Há oito anos colunista do jornal, Krugman pegou o reinado Bush desde o início e o oba-oba globalizante em seu apogeu. Cercado por uma dezena de comentaristas políticos de variada plumagem ideológica - que podem, no máximo, ambicionar o prêmio Pulitzer, conforme salientou na quarta-feira a sempre irônica Maureen Dowd -, Krugman concorre mais diretamente com Thomas L. Friedman, o guru do empresariado panglossiano. Concorre ou concorria? Autor de O Mundo é Plano, bíblia da evangelização globalizante, cuja visão otimista vem sendo diariamente desmoralizada pelo atual caos econômico-financeiro, Friedman (formado em filosofia e detentor de três Pulitzers) passou a escrever mais, nos últimos tempos, sobre percalços ecológicos do que sobre as panacéias da economia mundialmente integrada. Sábia decisão, com a vantagem de ter sido tomada antes de seu êmulo ser ungido com o Nobel, justamente por duvidar (e provar matematicamente) que o mundo não é "plano". Se tomada esta semana, soaria como uma humilhante capitulação. Beneficiado por seus conhecimentos de economia, pelo destemor com que defende suas idéias, por sua aversão à promíscua relação de jornalistas com a fauna de Washington, e, dado fundamental, por escrever com clareza, sem firulas, mas com uma dose razoável de humor, Krugman transformou-se no mais importante colunista político dos EUA desde Walter Lippmann. Admirado e odiado quase que com a mesma intensidade, ninguém parece melhor equipado do que ele para analisar e denunciar as intricadas relações da política com os interesses corporativos e as exorbitâncias de Wall Street. Krugman foi o primeiro a eviscerar sem meias palavras as fraudes da administração Bush em todos os níveis e setores. Onde os demais comentaristas viam lucidez, astúcia, clareza moral, ele enxergava confusão, ineficiência e desonestidade. Quando não um surto paranóico dos mais brabos: em março de 2003 comparou Bush ao alucinado comandante Queeg, interpretado por Humphrey Bogart no filme A Nave da Revolta. Valendo-se unicamente de seus conhecimentos, Krugman detectou fraudes e manipulações posteriormente reconhecidas pelo comentariado político não atrelado à Casa Branca, mas de percepção lenta. Por que tão lenta? "Preguiça intelectual", segundo Krugman. "Mais despreparo e excessiva dependência de informantes e insiders do mundo político." Já no primeiro orçamento apresentado por Bush vislumbrou números que não batiam, promessas impossíveis de ser cumpridas, e um corte de 40% nos impostos visando beneficiar os americanos mais ricos. Bush, escreveria mais tarde, inventou a "economia Dooh Nibor" (Robin Hood ao contrário). Em outra oportunidade, equiparou-o a Robespierre, o revolucionário exterminador. Questionou a invasão do Iraque, criticou a utilização política do 11 de Setembro e quase todas as medidas de alcance social dos últimos oito anos, e alertou, com três anos de antecedência, para a bolha que se formava no mercado imobiliário, qualificando-o, com absoluta precisão, de "a fonte de alimentação do hedonismo nacional". Invejável superávit. Entrevistado na segunda-feira por Jim Lehrer, da PBS, Krugman revelou ter decidido estudar economia influenciado pela ficção-científica do americano de origem russa Isaac Asimov, mais especificamente pela leitura da série Fundação, paráfrase da queda do império romano em clave "science fiction" que Asimov escreveu entre 1941 e 1948. Seu herói é um matemático (Hans Seldon) empenhado em preservar a cultura do império galático, cuja decadência e posterior desintegração antevira com seus conhecimentos de "psicohistória". Krugman identificou-se com Seldon e sua missão salvacionista. E a "ciência" mais próxima da psicohistória inventada por Asimov que encontrou no mundo real foi a economia.Depois, é claro, entraram os economistas de carne e osso. Uma influência determinante foi John Kenneth Galbraith, morto há dois anos, mas a cada dia mais atual. Andei lendo seu relato sobre a alvorada da Grande Depressão, O Colapso da Bolsa 1929, na velha tradução da Expressão e Cultura. Assustador. Escrito há 54 anos, em plena euforia da "sociedade afluente" por ele tão bem dissecada, lembra, nos mínimos detalhes, o que temos acompanhado pelo noticiário das últimas semanas. Seu quarto capítulo, por exemplo, intitula-se Em Goldman Sachs nós confiamos, ironicamente, é claro. Nem sempre a história se repete como farsa. Às vezes é como tragédia mesmo. SEGUNDA, 13 DE OUTUBROUma voz dissonante O economista americano e colunista do New York Times Paul Krugman ganhou o prêmio Nobel de Economia de 2008 por suas contribuições em teoria do comércio internacional e geografia econômica. Crítico feroz de George W. Bush, ele embolsará US$ 1,4 milhão.

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