O ocaso dos pesados

Para alguns, crise na principal categoria do pugilismo é cíclica. Para outros, deve-se aos melhores salários pagos no basquete e no futebol americano

Wilson Baldini Jr., O Estado de S.Paulo

04 de março de 2012 | 03h07

O noticiário de uma luta entre pesos pesados voltou a ganhar espaço na mídia nas últimas semanas. Mas não pela qualidade técnica do ucraniano Vitali Klitshcko, dono do cinturão do Conselho Mundial de Boxe - principal entidade do pugilismo internacional - ou do desafiante britânico Dereck Chisora. A atenção do público e da imprensa se deu por causa dos incidentes que cercaram o duelo realizado em Munique, na Alemanha.

No dia 17, véspera da luta, durante a pesagem, Chisora deu um violento tapa no rosto de Klitschko. O ato foi considerado covarde e teve total reprovação no mundo do boxe. Chisora não se contentou e cuspiu no rosto do irmão de Vitali, Wladimir, também campeão mundial dos pesados, poucos minutos antes do início do combate, já sobre o ringue. E, para completar, na entrevista coletiva, depois de perder a luta por pontos, após 12 sonolentos roundes, Chisora ainda ameaçou de morte o compatriota David Haye, que havia comentado a luta para uma TV inglesa. Os dois se agrediram na sala de imprensa a socos e garrafadas. Chisora acabou detido por sete horas e, junto com Haye, poderá sofrer punições por parte das organizações que dirigem a nobre arte.

Esse foi apenas mais um capítulo da triste história atual da principal categoria do pugilismo, que reúne homens com 100 quilos de peso e cujos golpes sempre foram admirados pelos amantes da nobre arte. Desde a aposentadoria de Mike Tyson, em 2005, o mundo do boxe se sente órfão de seus lutadores mais fortes. É verdade que esta situação é considerada cíclica por especialistas. "Sempre tivemos um período de estiagem após as carreiras de Jack Dempsey, Rocky Marciano ou Muhammad Ali. O problema é que agora o tempo está um pouco maior", diz o lendário jornalista e escritor Bert Sugar. Na última edição da revista The Ring, que festeja seus 90 anos, a publicação elege os dez maiores boxeadores de cada década. Nenhum peso pesado foi incluído na lista dos últimos dez anos. Foi a primeira vez que um pesado não figura entre os melhores de uma década.

O público também não se entusiasma com os pesos pesados atuais. A categoria tradicionalmente sempre foi dominada por pugilistas dos Estados Unidos, possuidores de um melhor jogo de pernas, variedade de golpes, velocidade nos braços e técnica refinada. Os europeus, de estilo mais simples e tática previsível, não são simpáticos ao público norte-americano que acompanha lutas pelo menos todos os sábados do ano.

Os irmãos ucranianos Wladimir e Vitali Klitschko, donos dos quatro títulos mais importantes, deixaram de ter suas lutas transmitidas ao vivo nos EUA. Os canais HBO e Showtime, que gastam e ganham bilhões de dólares com o boxe por ano, preferem apostar em pugilistas "menores". É verdade que os Klitschkos dominam os pesos pesados há mais de uma década e que suas lutas reúnem mais de 50 mil pessoas em ringues europeus, mas seus nomes jamais vão figurar entre as lendas do boxe. "Os Klitschkos deram a sorte de serem os melhores em um momento em que a categoria está enfraquecida", disse o jornalista Al Bernstein, que vai entrar para o Hall da Fama do Boxe este ano.

O motivo da falta de grandes valores pesos pesados norte-americanos no momento tem uma tese por parte de alguns especialistas. Com o aumento do pagamento de salários no basquete e no futebol americano, os negros fortes e altos estariam preferindo esses esportes menos agressivos, que ainda possuem o amparo de universidades. O boxe olímpico, que rendeu aos EUA medalhas de ouro com Floyd Patterson, Muhammad Ali, George Foreman e Joe Frazier, também enfrenta dificuldades para formar um campeão mundial profissional. O último foi Ray Mercer, ouro em Seul/1988.

A exemplo do que ocorreu na década de 80, quando Muhammad Ali pendurou as luvas e as atenções dos fãs se voltaram para os pesos médios liderados por Sugar Ray Leonard, Marvin Hagler, Roberto Durán e Thomas Hearns, atualmente lutadores mais leves são os que fazem os torcedores pagarem US$ 50 no pay per view ou até US$ 1,5 mil por ingresso. Os meio-médios (até 66,678 quilos) Manny Pacquiao e Floyd Mayweather são as atrações do momento. O primeiro volta a lutar dia 9 de junho, enquanto o segundo se apresenta em 5 de maio. A bolsa (valor para subir no ringue) de cada um vai atingir incríveis US$ 30 milhões. Suas lutas vão vender mais de um milhão no sistema pay per view.

A esperança do momento nos EUA é Seth Mitchell, um ex-jogador de futebol americano, formado em Direito pela Universidade de Michigan, que, aos 29 anos, soma 28 vitórias, está invicto e, dirigido pelo ex-campeão Oscar De La Hoya, pretende "limpar" a categoria dos pesos pesados a partir do fim do ano. "Sei que tenho a missão de trazer os cinturões dos pesados para a América e não decepcionarei os fãs, que estão cansados de esperar pelas boas lutas da categoria que tanto amam", afirmou Mitchell, de 1,88 metro e 109 quilos.

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