PATRICK T. FALLON/NYT
PATRICK T. FALLON/NYT

O Oscar do Bolinha

Na indústria cinematográfica as mulheres são coadjuvantes, mesmo quando superdotadas física e intelectualmente

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

28 Fevereiro 2015 | 16h00

Para os conservadores, a entrega do Oscar deste ano foi mais um velório do que uma festa. Discursos, protestos e piadinhas contra o racismo, o sexismo, a homofobia e a desigualdade salarial, Sniper Americano solenemente esnobado nas premiações, a estatueta de melhor direção empalmada por um mexicano, o “espião” Edward Snowden consagrado in absentia pelo documentário Citizen Four - até os liberais da Casa Branca saíram perdendo naquela noite. 

Como era esperado, as reações mais histéricas partiram das gralhas do canal a cabo Fox News. O destaque, desta vez, foi a apresentadora Stacey Dash, que depois de aplaudir uma crítica do bufônico empresário Donald Trump à premiação de Alejandro Iñárritu e à “falta de elegância e glamour” da festa, deitou falação contra Patricia Arquette (melhor atriz coadjuvante por sua atuação em Boyhood) e o discurso que ela fez contra a discriminação das mulheres no mercado de trabalho. 

Na vã tentativa de justificar sua diatribe, Dash, que já demonstrara ser uma autêntica negra (ou afro-americana) de alma branca e republicana, desencavou uma lei de equiparação salarial, assinada pelo presidente Kennedy em 1963, que, se de fato existe (mente-se muito na Fox News), nunca vingou. 

Premiação à parte, Arquette, também patrulhada por não ter-se referido especificamente às discriminações sofridas pelas mulheres negras e homossexuais, foi a atriz mais injustiçada do Oscar 2015. Além de rebaixada à categoria de coadjuvante (que outra atriz ela coadjuvou em Boyhood?), teve de aturar desaforos por ter falado demais, para uma, e de menos, para outras. 

Ainda que só estivesse pensando nas mulheres brancas - e é de se supor que não estava -, Arquette levantou uma questão importante: na indústria cinematográfica, as mulheres são sempre coadjuvantes, e a disparidade entre os salários que recebem e os que vão para o bolso de seus colegas masculinos é apenas a expressão monetária de uma discriminação mais abrangente, que envolve, entre outras coisas, a forma como as mulheres são representadas na tela e atrás das câmeras. 

Apesar de indicada três vezes ao Oscar e afinal premiada por sua atuação em O Lado Bom da Vida, Jennifer Lawrence ficou com uma porcentagem menor na bilheteria de Trapaça do que Bradley Cooper e Christian Bale. Em 2013, os dez atores mais bem pagos de Hollywood faturaram, juntos, US$ 465 milhões e as dez atrizes mais bem pagas, US$ 181 milhões. Se inserida na lista dos atores mais bem assalariados. Angelina Jolie, primeira colocada entre as mulheres, com US$ 33 milhões, dividiria as duas últimas colocações com Liam Neeson e Denzel Washington.

Na mesma temporada em que o feminino predominava em três dos cinco maiores sucessos de bilheteria -Jogos Vorazes: Em Chamas (Jennifer Lawrence), Frozen: Uma Aventura Congelante e Gravidade (Sandra Bullock, indicada ao Oscar)-, somente 15% dos filmes foram protagonizados por mulheres e em apenas 30% as atrizes puderam abrir a boca para dizer alguma coisa, muitas vezes um simples alô ou um bom-dia, consoante os papéis subalternos a que foram relegadas. 

Como superar esse desequilíbrio se as mulheres tampouco têm vez nos bastidores da indústria? A proporção atual é de uma mulher para cada cinco marmanjos nos cargos de produção, direção e roteiro, assim distribuídas: diretoras, 13%; roteiristas, 25%; produtoras executivas, 23%; produtoras, 43%; montadoras, 17%. O que também explica por que até hoje só quatro mulheres foram indicadas ao Oscar de melhor direção, e apenas uma (Kathryn Bigelow) tenha levado a melhor. 

As roteiristas tiveram mais êxito, embora comparativamente modesto (oito Oscars em 73 anos), se considerarmos o prestígio que desfrutaram no silencioso e nos primeiros anos do sonoro. Os roteiros mais caros de Hollywood, nos anos 1920 e 30, vinham assinados por uma ex-jornalista chamada Frances Marion. Naquele tempo, Hollywood não era o clube do bolinha de hoje. Havia mais produtoras do que produtores independentes em 1923, por exemplo. E diretoras em atividades contínua, como Lois Weber e Dorothy Azner. Com o advento do falado, a valorização do sex-appeal feminino e a moralização imposta pelo Código Hays de censura em 1934, as mulheres perderam terreno, e o poder de decisão concentrou-se cada vez mais nas mãos dos homens.

“A desigualdade salarial não pode ser dissociada da maneira como as personagens femininas são representadas, ou melhor, sub-representadas, nos filmes”, explica a feminista Jane Gaines, estudiosa do sexismo no cinema, que vê a sub-representação da mulher como parte de um processo visando a reafirmá-la como inferior aos coprotagonistas, como criaturas frágeis, desamparadas e dependentes dos homens até quando superdotadas física e intelectualmente. 

Justo para avaliar o grau de sexismo dos filmes, inventou-se o Teste Bechdel, inútil, mas divertido e razoavelmente confiável. Para passar no teste, inspirado nos quadrinhos GLS de Alison Bechdel, o filme precisa dar respostas afirmativas a três perguntas: 1)Tem mais de duas personagens femininas?; 2) Em algum momento, pelo menos duas delas conversam entre si?; 3) E, quando conversam, trocam ideias sobre alguma coisa além do personagem masculino? Um integrante do site estatístico FiveThirtyEight aplicou o teste na produção hollywoodiana de 1970 a 2013. Metade dos filmes foi reprovada.

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