O pancake da política

Depois da campanha que nivelou por baixo o eleitorado, argentinos levam às urnas sua apatia social

Beatriz Sario*,

29 de junho de 2009 | 12h57

Terminou a campanha. Restam os "vivas" que se devem principalmente à antecipação dos resultados das eleições pelas pesquisas de boca-de-urna. Os cidadãos formaram um público enfastiado, para o qual nada do que foi apresentado entusiasmou. O eleitorado foi dominado pela desconfiança, pelo tédio, pelo desinteresse. Só houve aplausos entusiasmados para o programa humorístico Gran Cuñado. Pelo lado da política, ganhou a insubstancialidade. Pelo lado dos cidadãos, a exigência mais rigorosa não foi além do pedido por uma performance melhor. Entre políticos e eleitores houve o seguinte entendimento: o chamado "povo" não estaria disposto a se envolver com raciocínios que não possam ser traduzidos na linguagem simples do mais simplório senso comum.

 

Dominou o covarde paradoxo de que os políticos, ao almejarem cargos representativos, não devem jamais dar a impressão de estar mais bem qualificados do que seus eleitores. Ou seja, de que não haveria razão para examinar as capacidades dos candidatos, porque se algum deles se mostrar muito capacitado, correrá o risco de perder o elo com a massa de potenciais eleitores, que não deseja votar nos melhores entre pares, mas nos seus idênticos. Ninguém vai eleger um médico, ou arquiteto, ou músico de acordo com a lógica contrária ao mérito, mas os políticos fizeram dela a base da sua elegibilidade. O populismo hoje não é uma ideologia capaz de subverter hierarquias socioculturais, mas uma vulgaridade midiática que fareja tendências do mercado audiovisual.

 

Esta horizontalidade grotesca se impôs tendo como emblemas mais distintos Francisco de Narváez (PRO e uma vertente antikirchnerista do peronismo) e Gabriela Michetti (PRO), duas pessoas sobre as quais é difícil decidir se são tão banais quanto se apresentam, ou se fingem sê-lo porque pensam conseguir assim se aproximar dos eleitores. A caricaturesca fusão entre políticos e possíveis eleitores serve de argumento para um dos comerciais de Gabriela na televisão, no qual ela se identifica com alguém que não consegue dinheiro o bastante para comprar comida no supermercado. Uma emotiva cena imaginária na qual todos nós contamos as moedas na fila do caixa, repassando os preços do que pusemos no carrinho.

 

Prevaleceu a ideia de que o político não deve oferecer seu diferencial intelectual e profissional como qualidade de uma boa representação, mas dissimulá-la como se fosse um defeito. Muitos renunciaram a jogar com o melhor de que dispõem. Ainda assim, a linguagem colorida e a dramaticidade das intervenções de Elisa Carrió (aliança de oposição ao kirchnerismo) são convincentes até para aqueles que as reprovam. Elisa parece, até para os que não votam nela, alguém que leva as coisas a sério. Enunciar uma hipótese sobre o futuro, ainda que sob formas trágicas, é melhor do que repetir uma tonta obviedade que todos sabem.

 

Quase tudo nesta campanha foi de tamanha falta de autenticidade que é melhor não enfatizar os erros mais evidentes, e sim os seus motivos. Subestimar os eleitores, em primeiro lugar, leva à produção de campanhas que passam longe dos interessados em eleições; e, em segundo lugar, à renúncia da construção de um cenário político capaz de romper a frieza do desinteresse e da desconfiança.

 

Nas escolas, quando subestimadas as possibilidades de aprendizado dos alunos pobres, provenientes de círculos sociais desfavorecidos, põe-se em prática, às vezes sob a máscara de um populismo miserável, às vezes sob o disfarce de um elitismo pouco dissimulado, uma discriminação anterior ao próprio ato pedagógico. Pensa-se que essas crianças não estão em condições de aprender e, por isso, ensina-se menos a elas, que são distraídas por meio de estratégias de aproximação com o seu próprio mundo - como se não fosse suficiente o fato de viverem num espaço marcado pela desigualdade. São consideradas menos interessadas em tudo o que não possam associar a experiências mais imediatas, e assim as recalcamos. A profecia se cumpre, infelizmente.

 

Nestas eleições a maioria dos políticos cometeu com os cidadãos esse erro ideológico fatal e, assistida por publicitários mais caros do que automóveis ou cavalos de corrida, contribuiu para que a profecia se cumprisse de fato. Resignados de antemão a não se interessar pela política institucional, convencidos de que todas as pessoas vivem afundadas na rotina cotidiana, sem possibilidade de levantar a cabeça e carecendo de instrumentos intelectuais para acompanhar uma exposição de complexidade média, armou-se um esquema que não aspirava superar uma situação talvez adversa ao discurso político, mas fortalecê-la em nome de um realismo oportunista. Como se dissessem: já que somos apáticos e pouco informados, vamos tratá-los como merecem. Já que gostam de assistir ao Gran Cuñado, vamos extrapolar o reino da televisão e continuar atuando como somos representados no programa. O tempo que, segundo as más línguas, Kirchner dedicou à decisão de participar ou não da palhaçada do Gran Cuñado é uma prova suplementar.

 

Foi assim que o eleitorado foi nivelado pelo menor denominador comum. O subtexto foi: "Vocês só pensam no que a tevê lhes mostra uma centena de vezes. Pensam só no quiosqueiro que mataram na noite passada, portanto, falemos só dele. Façamos de conta que vocês não são capazes de compreender outra coisa, afinal, é isso que vocês respondem nas pesquisas".

 

A atenção que Fernando "Pino" Solanas (cineasta e candidato a deputado) obteve falando sobre temas que não aparecem como prioritários nas pesquisas (petróleo, recursos naturais, sistema de transporte) indica o seguinte: aqueles que não cultivam o hábito de seguir o "teto" das preocupações do eleitor estão em condições de chamar a atenção tanto quanto aqueles que só falam daquilo que seus assessores publicitários lhes recomendam. Sem grandes recursos econômicos, Solanas sustentou um discurso que não apelou ao oportunismo e aparentemente lhe trará resultados que ele não previu no começo da campanha. É possível não se interessar pelos temas abordados por ele ou julgar que suas posições sejam excessivamente esquemáticas, mas fica mais difícil duvidar da autenticidade quando defende seus pontos de vista. Solanas transmite poder de convencimento político e intelectual em vez de servir a sopa requentada pelo fogo da última matéria do noticiário.

 

Esta campanha foi marcada pelas caminhadas: beijo, abraço, nenê, cartinha, beijo, cafezinho, boneca, vizinha, cafezinho final para garantir uma nota na imprensa e dar ocasião aos fotógrafos e às câmeras de fora. E assim de novo, na manhã seguinte, repetindo-se um dia após o outro. Foi a campanha das viagens em jatos particulares (o governador Scioli percorreu num mesmo dia 1.900 km dentro da província de Buenos Aires) e dos deslocamentos de uma cidade à outra, já que é impossível confiar na militância enfraquecida para que se desloque até um ato central, a não ser que sejam manejados generosos recursos do sindicalismo.

 

Foi também a campanha das fotos: fotos que provam que o vice-presidente Cobos não vê problema em ser fotografado ao lado daquele que é o pior adversário da aliança encabeçada na província de Buenos Aires por Margarita Stolbizer, enquanto ele faz campanha pela aliança em Mendoza, exercendo uma liberdade que está reservada somente a questões de consciência, e não a eventos de campanha. Fotos que costumam ser evitadas: ninguém - a não ser aqueles que desejam a sucessão direta, como Scioli, ou que dependem do seu dinheiro, como os intendentes da Grande Buenos Aires - no restante do país quer tirar fotos com Kirchner (que encarna a figura do "espanta-votos"), com exceção da fiel militância dos intelectuais da Carta Abierta, que organizou para ele um evento na hostil e antiperonista Buenos Aires.

 

A única novidade desta campanha se passa longe de Buenos Aires, província e cidade. O que pode trazer mudanças são as eleições em Santa Fé. Se amanhã Rubén Giustiniano derrotar Carlos Reutemann na disputa pelo senado, o governador Hermes Binner se fortalecerá na corrida pela presidência da República. O destino da oposição será decidido em Santa Fé, e não em Mendoza como acredita Cobos, que trabalha como vice de Cristina Kirchner pela manhã e como opositor pela tarde, papel duplo que exigirá algo além da astúcia na corrida presidencial. Em Santa Fé, onde foi escrita e jurada a Constituição nacional, vai se ver, neste domingo, o primeiro lance do jogo que se inicia assim que terminar esta insossa festa eleitoral.

 

*Professora de literatura argentina da Universidade de Buenos Aires. Lecionou em Columbia e Berkeley (EUA) e em Cambridge (Inglaterra). É autora de Jorge Luis Borges - um Escritor na Periferia (Iluminuras, 2008) e A Paixão e a Exceção (Companhia das Letras, 2005). Este artigo foi escrito originalmente para o diário argentino Perfil

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